Crítica

Volta e meia o próprio cinema hollywoodiano, tão calculado e preciso, se surpreende. E um dos sucessos mais inesperados deste ano é Se Beber, Não Case, uma comédia que, mesmo sem astros no elenco ou uma trama das mais originais, conseguiu conquistar crítica e, principalmente, público. Apesar do orçamento modesto – US$ 35 milhões – faturou mais do que 12 vezes este valor nas bilheterias de todo o mundo! Isso sem contar o fato de ter recebido elogios entusiasmados em importantes veículos dos Estados Unidos, como nas revistas Rolling Stone e Newsday e nos jornais New York Post, Washington Post, San Francisco Chronicle e Los Angeles Times. Impressionante, não? Pois isso não é nada se compararmos à própria experiência do espectador ao ver o filme e concluir que este é um dos longas mais engraçados do ano!

Pra realmente aproveitar Se Beber, Não Case, a primeira coisa que o cinéfilo brasileiro deve fazer é esquecer o estúpido título nacional, que não faz o menor sentido. Vamos para o original, The Hangover, ou A Ressaca, que é auto-explicativo. Na história, quatro amigos vão à Las Vegas para celebrar a despedida de solteiro de um deles. Ao chegarem, se instalam num dos melhores hotéis, e brindam o momento feliz em que se encontram. Corta para o dia seguinte, com eles acordando num quarto completamente revirado. Um está pelado, outro aparece sem um dente, há um tigre (de verdade!) no banheiro, uma galinha correndo por todos os lados e um bebê trancado no armário. E, pra completar, o noivo sumiu. Obviamente, nenhum dos três restantes tem a menor ideia do que aconteceu e como chegaram a ficar naquele estado.

O melhor, e isso fica bastante claro desde o início, é que a plateia está tão perdida quanto os protagonistas. Se eles não sabem o que aconteceu, muito menos nós, no lado de cá da tela grande. E assim partimos todos juntos, nos indagando o que eles fizeram na noite anterior e por que surpresas continuam se sucedendo, como descobrir que o carro deles foi trocado por uma viatura policial, encontrar um japonês apenas de cuecas no porta-malas, se perguntar como um dos colchões foi parar no alto de uma estátua e ainda ter que resolver pendências com o próprio Mike Tyson em pessoa!

Outro grande acerto foi o grupo principal de atores que, de tão diferentes, não poderiam formar melhor combinação. Bradley Cooper é uma estrela em ascensão, e depois de aparecer como “o melhor amigo” em filmes como Penetras Bons de Bico (2005), Armações do Amor (2006) e Sim Senhor (2008) e de começar a chamar atenção em Ele Não Está Tão A Fim de Você (2009), agora teve sua consagração. Além de bonito e atraente, é bom ator tanto no drama quanto na comédia, se firmando como galã do momento. E seus próximos projetos, ao lado das estrelas Renée Zellweger (Case 39), Sandra Bullock (All About Steve) e Julia Roberts (Valentine’s Day), além da adaptação para o cinema da série de TV Esquadrão Classe A, já indicam que o moço está na direção certa. Ed Helms (Delírios de Consumo de Becky Bloom) e Justin Bartha (A Lenda do Tesouro Perdido) oferecem o apoio necessário, assim como a sumida Heather Graham (Boogie Nights, Austin Powers 2), que continua bela e engraçada na medida certa. Mas revelação mesmo é Zach Galifianakis (Jogo de Amor em Las Vegas), como o cunhado gordo e barbudo sem noção que sempre tem as melhores tiradas, roubando toda e cada cena em que aparece. Verdadeiramente hilário, é praticamente impossível controlar o riso diante o olhar perdido dele e das soluções que apresenta quando precisam lidar com as confusões que vão se acumulando no caminho deles.

Dirigido por Todd Phillips, o mesmo de Starsky & Hutch e Dias Incríveis, Se Beber, Não Case é uma típica comédia masculina, feita por e para homens, mas que possui um humor universal que vai além do círculo ‘amizade fraternal’. É tanta coisa acontecendo aparentemente sem sentido, mas que felizmente acaba se conectando no final, que é impossível não se imaginar vivendo a mesma situação e passando por apuros similares. É uma fórmula simples e até clichê – o adolescente Cara, Cadê Meu Carro? (2000), com Ashton Kutcher e Seann William Scott, tem exatamente a mesma estrutura, porém com um resultado bastante aquém -  mas que simplesmente funciona. Seja pelos diálogos inspirados, pelas atuações convincentes ou por algo inexplicável, este é um filme que merece todo o alarde e impacto provocado. Diversão do início ao fim, e há casos em que nada pode ser melhor do que isso!

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Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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