Crítica


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Sinopse

Em 1880, o escultor Auguste Rodin já é bastante conhecido, mas nunca conseguiu nenhuma encomenda do Estado. Esta oportunidade chega aos 40 anos de idade, com a escultura “A porta do inferno”. Enquanto trabalha, ao lado da esposa Rose Beuret, apaixona-se pela aluna Camille Claudel, sua aprendiz mais talentosa, que se torna sua amante.

Crítica

As cinebiografias hoje têm um método diferenciado para manter o interesse do espectador. De uma forma geral, as últimas a obterem maior relevância se focam em um determinado período da vida do protagonista. Assim, conseguem dar um contorno sobre sua personalidade de forma que crie empatia com o público. Um exemplo recente é A Garota Dinamarquesa (2015). Ainda que o filme não seja perfeito, cria um vínculo emocional com a plateia. Infelizmente, não é o caso deste Rodin. Este é um dos títulos mais aguardados do último Festival de Cannes. Acabou sendo, também, uma das maiores decepções da mostra deste ano. Não é para menos. O longa de Jacques Doillon até tenta se ater a uma passagem específica da vida do escultor francês. No entanto, quer ser didático demais e se perde no quesito paixão. Uma grande ironia, já que é justamente sobre isso que o filme fala.

A produção retrata o relacionamento de Auguste Rodin (Vincent Lindon) com sua aluna-assistente Camille Claudel (Izïa Higelin). Também fala de seus conflitos com a esposa Rose Beuret (Séverine Caneele). Ao mesmo tempo, o artista plástico consegue sua primeira encomenda com a obra A Porta do Inferno. Rodin já tem 40 anos e é conhecido por seu trabalho. Até então, nunca havia conseguido lucrar com isso. E sua obsessão pelo trabalho se torna ainda maior após o fim do relacionamento com a amante. O filme de Doillon se perde justamente ao não saber transpor o que é paixão e como estas escapadas extraconjugais afetaram a mente do escultor. Aliás, de fato lhe geraram consequências ou apenas serviram como fuga de seu trabalho? É o que o longa não sabe responder. Ao mesmo tempo em que não quer deixar dúvidas para o espectador, e sim educá-lo.

Vincent Lindon, que há dois anos havia ganho o prêmio de Melhor Ator no mesmo Festival de Cannes por todo o seu vigor em O Valor de um Homem (2015), aqui fica totalmente inerte, assim como suas colegas de produção. Percebe-se que tanto ele quanto às outras atrizes tentam dar vida àquelas figuras emblemáticas, mas são barradas por um roteiro que até parece saber aonde quer chegar, mas nunca desenvolve plenamente a história. Não se entende a paixão de Rodin por Claudel além de um flerte juvenil.

Não há nada que diferencie este de um romance suburbano qualquer. Nem a bela fotografia ajuda os diálogos insossos, tornando o romantismo tão barato quanto clichê. Parece a todo instante que o filme vai explodir de alguma forma, mas a única coisa que estoura é a paciência de quem assiste. No fim das contas, é como uma biografia sucinta que quer contar apenas passagens de tempo, sem nunca se aprofundar sobre qualquer uma delas.

Esta poderia ser uma produção realmente eficaz se tentasse compreender o homem por trás do artista, ainda mais se lembrarmos que 2017 é o ano do centenário da morte de Rodin. Porém, não se vê aqui nada que não possa ser aprendido em visitas a museus ou leituras de livros de história da arte. Se o artista inspirava tanta paixão em suas obras, o longa faz com que o espectador boceje a cada instante pela sua falta de vida. Não se entende o que motivava Rodin e, muito menos, o que ele causava nas suas conquistas. A barba grande? Isso é moda até neste período que vivemos hoje. Ao contrário das esculturas imortais como O Pensador, o filme de Doillon vai apenas cair no esquecimento. Ou, pior: ser lembrado pelo seu fracasso. Uma homenagem nem um pouco bem-vinda para alguém capaz de suscitar tantas reflexões através do tempo.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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