Crítica

Mel Ferrer, Boris Karloff, Richard Harris, Graham Chapman, John Gielgud, Malcolm McDowell, Sean Connery, Pierce Brosnan, Chris Hemsworth, Clive Owen e até Justin Timberlake. E estes são apenas os mais notáveis. Como se pode ver, desde Launcelot and Elaine (1909), há mais de um século, muitas já foram as personificações recriadas no cinema e na televisão para o icônico líder inglês. Pois agora chegou a vez de Guy Ritchie fazer de Charlie Hunnam a sua versão em Rei Arthur: A Lenda da Espada, um grandioso épico histórico com ares – e orçamento – de megaprodução que tem tudo para agradar os fãs das lendas arturianas na mesma proporção em que deverá incomodar os mais puristas do gênero. No entanto, entre mortos e feridos, é uma produção digna da expectativa levantada, ainda que não esteja à altura da mítica que envolve o personagem.

Na real, o espectador mais atento irá perceber que esse Rei Arthur é muito mais de Guy Ritchie do que de Charlie Hunnam. O astro da série Sons of Anarchy (2008-2014) é, sem dúvidas, o melhor de todos os elementos em cena. Seguro de si e com postura tanto de herói quanto de malandro, oferece à mitologia um frescor até então pouco relacionado a este universo. Sua origem é quase bíblica – chega pelo rio abandonado em um pequeno bote, tal como Moisés – e, após ser criado por um trio de prostitutas, cresce como um ladino das ruas, mais próximo dos tipos vistos em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998), Snatch: Porcos e Diamantes (2000) e Rock’n’Rolla (2008), por exemplo. Tem a lábia rápida, o olhar preciso e um gingado eficiente em tirá-lo dos maiores apertos. É o típico homem do cinema de Ritchie, porém com a particularidade de viver alguns séculos atrás.

A tarefa de fazer com que essa figura a qual já estamos acostumados seja convincente em uma realidade de arco e flecha e seres mágicos é executada com resultados contraditórios. Se a primeira parte soa verossímil, na segunda o impacto se perde pela ausência de maiores novidades. Somos de imediato convidados a nos deparar com elegantes gigantes, cobras ameaçadoras e ratos do tamanho de leões. Nada, no entanto, que já não tenha sido visto em títulos mais bem-sucedidos, como a saga O Senhor dos Anéis ou mesmo o recente A Grande Muralha (2016). Até assinaturas visuais típicas do diretor, como relatos apressados que avançam no tempo para revelar de antemão a versão de cada um sobre um evento específico acaba soando repetitiva (quem lembra dos monólogos do personagem de Michael Peña em Homem-Formiga, 2015, conhece bem esse efeito). Ou seja, são recursos que impactam num primeiro momento, mas o uso dos mesmos em demasia, ao invés de engrandecer o conjunto, termina por diminuí-lo pela anestesia do excesso.

Alguns pontos, no entanto, são imutáveis, independente de quem seja o herói em questão. Um deles é que Arthur só é rei ao cumprir sua missão na profecia. Se Disney fez deste um momento pivotal de sua trajetória em A Espada era a Lei (1963) e John Boorman concentrou nela a carga mágica intrínseca à fantasia de Excalibur (1981), Ritchie parece não ter um foco muito preciso, atirando para todos os lados. O protagonista dessa vez não está interessado no trono e, ao descobrir sua verdadeira vocação, reluta diante do destino que se abre em sua frente. É um herói relutante, e isso acaba soando positivo. A magia entra com a função de mudá-lo de ideia, portanto, Curiosamente, o nome mais famoso do conto, o do mago Merlin, é aquele que termina por ficar de fora – seria reflexo da vontade inicial dos produtores de fazer deste apenas o primeiro episódio de uma nova franquia, tendo reservado esta e outras figuras célebres, como Lancelot e Guinevere, para os próximos capítulos? Somente o tempo dirá.

Assim, quem acaba por se incumbir dessa missão é o vilão vivido por Jude Law, aqui como o invejoso que usurpa o trono para si após matar o próprio irmão (e alguns outros que estavam no seu caminho). Law é um intérprete competente, como já demonstrou várias vezes, mas parece não se esforçar para ir além do estereótipo que defende. Está bem, é ameaçador na medida certa, porém em nenhum momento chega a colocar a trajetória do protagonista em perigo, eliminando qualquer surpresa do contexto. E se Eric Bana faz uma participação especial – porém com a autoridade necessária – e Djimon Hounsou se contenta com o pouco que lhe é oferecido, chega a ser curioso o modo como a única presença feminina – a espanhola Astrid Bergès-Frisbey, como a Maga – é relegada a uma posição coadjuvante, como se só tivesse serventia como interesse romântico e, uma vez que este viés é descartado, mais nada parece restar a uma mulher em uma narrativa tão carregada de testosterona e adrenalina.

Rei Arthur: A Lenda da Espada, portanto, recai quase que inteiramente nos ombros de Charlie Hunnam, aquele que parece estar sempre prestes a virar um grande astro. Porém, talvez ainda não tenha sido dessa vez. E muito se deve às interferências inoportunas do próprio Ritchie. Com menos maneirismos e uma postura mais controlada, talvez tivesse deixado espaço o bastante para que seu protagonista brilhasse. No entanto, resta apenas o começo de algo que talvez nunca chegue ao fim, sem um arco narrativo bem construído e carente de momentos de clímax melhor pontuados. Reflexo maior da ambição do realizador e menos dos méritos dos talentos por ele mesmo reunidos. Triste ironia, não?

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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