Crítica

O futuro do cinema mundial está na China. Títulos como Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (2016) aprenderam isso às duras penas. Com um orçamento de US$ 160 milhões, arrecadou apenas US$ 47 milhões nos EUA. Mesmo assim, sua sequência já foi confirmada pelo diretor Duncan Jones. E sabe por quê? Por causa da China, onde o filme, sozinho, faturou mais de US$ 220 milhões, elevando o acumulado global para a casa dos US$ 433 milhões! Cada vez é maior a preocupação com o mercado chinês, como exemplos como esse evidenciam. E se ter atores chineses em cena – como Vingadores: Era de Ultron (2015) – ou ter parte de sua trama ambientada por lá – como Transformers: Era da Extinção (2014) – não parecem mais seres medidas suficientes, que tal levar a produção inteira para o outro lado do mundo, falando de temas caros àquela população, com seus astros, cenários e idioma? Pois bem, é assim que chegamos a este A Grande Muralha, que até parece ser produto de uma manifestação artística, mas nada mais é do que uma grande e engenhosa peça publicitária.

E qual o problema disso, alguns podem perguntar. Bom, nenhum. Desde que se seja honesto a respeito, é claro. Com apenas três atores ocidentais em um elenco gigantesco, A Grande Muralha tenta se apoiar no carisma de Matt Damon para se comunicar com o público ao redor do mundo. Uma estratégia, no entanto, que parece não dar muito resultado. Damon é um ator competente, já indicado ao Oscar, e também com alguns sucessos de bilheteria no currículo. Este, no entanto, é o seu primeiro herói clássico, no sentido de apresentar uma jornada linear e sem distrações, que vai da conduta condenável à redenção e à conquista dos seus intentos no final. Mesmo o agente Jason Bourne era um anti-herói, envolvido contra sua vontade em conspirações muito maiores do que as imaginadas à princípio, que precisava sobreviver com o que tinha ao seu alcance. Já o mercenário William, o qual assume com visível desconforto, é uma figura plana, sem curvas, que até pode ter segundas intenções no começo, mas logo irá se dobrar em nome de algo maior. No caso, como é de praxe, não apenas o coração, mas também outros sentimentos mais elevados, como honra e respeito. Previsível e entediante, como se percebe.

Ainda que o nome faça referência à Muralha da China, a trama não é sobre ela – ou melhor, não exatamente sobre sua construção e como chegou a se tornar um dos maiores monumentos jamais elaborados pela mão humana. O que se procura descobrir, ao invés disso, seriam as razões de sua existência. Mas até essa investigação não demora muito: logo no primeiro ato somos colocados diante uma batalha impressionante entre os chineses, com sua guarda orquestrada e dinâmica, e um ataque de... monstros. Sim, estamos diante de um épico fantasioso aos moldes de O Senhor dos Anéis. Estima-se a lenda que os Tao Tei – os seres horrorosos e quase imbatíveis – teriam surgido movidos pela ganância humana, e a cada 60 anos reapareceriam para se alimentarem de tudo que encontrarem pela frente. A Muralha, portanto, existiria para impedi-los de irem além e dizimarem a humanidade. Um propósito que, após tantas lutas e combates, pode estar chegando ao fim.

Zhang Yimou não é um profissional qualquer. Diretor da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 – assim como Danny Boyle, em Londres (2012), ou Fernando Meirelles, no Rio de Janeiro (2016) – ele já foi indicado três vezes ao Oscar e teve seus filmes premiados nos festivais de Cannes, Berlim e Veneza. Responsável por sucessos como Herói (2002) e O Clã das Adagas Voadoras (2004), sabe como poucos criar um espetáculo visual. E isso faz com maestria em A Grande Muralha. Porém, o que antes exercia com refinamento e muita criatividade, agora deixa recair quase que por completo nas mãos dos técnicos e engenheiros digitais. É uma explosão de efeitos atrás da outra, a ponto de deixar qualquer um atordoado. Impressiona, é claro. Porém, não permanece. Perde-se o foco e o sentido. Anestesia-se pelo excesso. E, dessa forma, até o final, que merecia uma conclusão apoteótica, encerra em um tom agridoce e forçosamente tão grandioso quanto desnecessário.

A Grande Muralha é uma estreia de peso, e ainda que um tanto tardia, mostra que Hollywood tem muito a aprender com Yimou. Ele, por outro lado, deveria evitar esse exercício de troca e se ater mais às convicções demonstradas em seus trabalhos anteriores. Destes, talvez o passo em falso seja Flores de Oriente (2011) – justamente o único até então estrelado por um astro ocidental, no caso, Christian Bale. Assim como outros cineastas que deixaram suas zonas habituais e se encantaram com as maravilhas dos aparatos hollywoodianos, o consagrado realizador chinês cria um épico sobre o seu povo, mas de acordo com uma visão bem de acordo com as leis do mercado internacional. E quando tudo se reduz aos números, como contradizê-los? No seu lançamento, após o investimento de US$ 150 milhões, o faturamento alcançou o valor pífio de US$ 21 milhões nos EUA e a impressionante quantia de US$ 170 milhões na China. Funcionou, é claro, mas até que ponto e sob quais parâmetros e medidas? Esta é uma conta que faz mais sentido para eles do que para nós do lado de cá desta equação.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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