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Sinopse

Rosália é uma operária de 62 anos que dedicou a vida ao trabalho em um fábrica de reatores da periferia de São Paulo. Ela é demitida, e, deprimida, é consolada pelo irmão José, que resolve levá-la junto em uma viagem de carro até Buenos Aires. No caminho, ela vê pela primeira vez um mundo desconhecido e distante de sua vida cotidiana, começando uma jornada que sutilmente transformará uma parte essencial dela mesma.

Crítica

Magali Biff é, como se convencionou dizer, “bicho do teatro”. Com extensa carreira nos palcos, volta e meia se aventura em participações especiais na televisão. Mas, se faltava algo para conquistar também o cinema, Pela Janela é o filme. Em um desempenho excepcional, em que menos – muito menos – é mais – muito mais – a atriz, com o pouco que lhe é oferecido, carrega nas costas quase que sozinha o longa de estreia da diretora Caroline Leone. E após ter estreado no Festival de Roterdã, na Holanda, chega ao Brasil como parte da mostra competitiva nacional do 45o Festival de Cinema de Gramado, aumentando – e muito – o caráter feminino da edição 2017, compondo um poderoso painel ao lado de títulos igualmente superlativos, como As Duas Irenes (2017) e Como Nossos Pais (2017), entre outros.

Em cena, Biff dá um sopro de vida à Rosália, mulher de vida simples que passa seus dias como chefe de produção em uma pequena fábrica de reatores, na periferia de São Paulo. Demitida após uma ‘reorganização’ gerencial da empresa, se vê sem saber o que fazer. Mais pela inércia, acaba aceitando o empurrão do irmão, com quem mora, para ir com ele até Buenos Aires. Ele é motorista de uma rica família, e está indo até a capital argentina para levar o novo carro da filha dos patrões, que por lá mora e estuda. E pronto, não há muito mais a dizer. No entanto, há, sim, uma imensidão a ser sentida. Este é um filme em que o não expresso e o não visto possuem muito mais significados do que aquilo óbvio que se esfrega na frente do nariz. Tem-se uma jornada pela alma dessa mulher, que aos 62 anos precisa reaprender a viver. Desprendida de tudo, encontrará, talvez, o primeiro vislumbre de uma nova realidade. Possivelmente mais livre, com certeza mais feliz. Mas, acima de tudo, plenamente ela.

Após esse rápido prólogo, no qual nos deparamos com uma Rosália mumificada, que toca uma existência cinza, sem motivações ou esperanças, a vemos sendo carregada pelas mãos fraternas a uma aventura inesperada. Ela reluta num primeiro momento, assim como faz diante qualquer novo desafio que lhe apresente. Mas aos poucos vai cedendo. Nunca foi protagonista, sempre plateia das alegrias e conquistas dos outros. E uma mudança como essa, tão radical, leva tempo para ser assimilada. É por isso que a questão geográfica é também acompanhada por essa transformação interna – onde, de fato, se dá a maior parte da ação deste filme imensamente bonito, dono de uma simplicidade ímpar, que com quase nada a dispor atinge níveis raros de excelência.

Uma panela de pressão, um quadro em um quarto de hotel de estrada, uma camisa um pouco mais chamativa. A vida dessa mulher vai, lentamente, ganhando cor, abrindo espaço para o sorriso, deixando surgir novas expectativas. Um banho é o que lhe falta, e será diante da magnitude das Cataratas de Iguaçu que essa transição encontrará um ponto determinante. De rosto limpo, não haverá mais nada a se lamentar. A queda é livre, e desprovida de qualquer tipo de rede de segurança. Frente a natureza somos nada, mas também podemos ser tudo. E é justamente essa decisão que lhe faz falta – ou ansiava por ganhar forma. Zé (Cacá Amaral, em participação discreta e eficiente) é carinhoso e afetivo, mas sabe que o que lhe compete é apenas a presença, o estar ali, ao lado. A vontade e a urgência precisam vir dela. Algo que somente com paciência e observação será possível alcançar.

Caroline Leone sabe bem o que quer dizer, e encontra em Magali Biff a parceira ideal para essa jornada. Deixando de lado clichês óbvios – a ausência de um viés romântico e/ou sexual é salutar – e concentrando-se apenas nos sentimentos dessa personagem, as duas, criadora e criatura, elaboram um painel de extrema sensibilidade, do qual ninguém na audiência poderá permanecer insensível. Não há grandes feitos, mundos a serem conquistados, missões impossíveis de vitória senão aquelas mesmas com as quais nos deparamos diariamente. O mundo está ao alcance dela, e tanto em casa como diante daqueles que nem o que ela diz compreendem, a certeza é que, para realizar, basta dar o primeiro passo. São pequenas coisas, movimentos quase imperceptíveis, mas que, no final, terminam por fazer toda a diferença. Tanto na na ficção como na realidade vista do lado de cá da tela.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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