Crítica


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Sinopse

Rosa, 38 anos, é uma mulher que se encontra em uma fase peculiar de sua vida, marcada por conflitos pessoais e geracionais: ao mesmo tempo em que precisa desenvolver sua habilidade como mãe de suas filhas. Mantendo seus sonhos, seus objetivos profissionais e enfrentar as dificuldades do casamento, Rosa também continua sendo filha de sua mãe, Clarice, com quem possui uma relação cheia de conflitos.

Crítica

A aspereza com que as animosidades se desvelam na primeira cena de Como Nossos Pais é um sintoma de mágoas guardadas, algumas delas na superfície, à vista de todos, outras num recôndito subterrâneo. Rosa (Maria Ribeiro) responde agressivamente ao fato de sua mãe, Clarice (Clarisse Azambuja), tomar a dores do genro, Dado (Paulo Vilhena). No semblante consternado dela fica evidente uma herança antiga de coisas mal resolvidas, prontas a irromper assim que a cordialidade cotidiana der uma brecha. Essa impressão não se restringe às duas, pois os demais consanguíneos à mesa possuem densidade própria e, portanto, relevância dentro desse itinerário habilmente orquestrado pela cineasta Laís Bodanzky. A revelação bombástica que altera os alicerces da família é feita com uma naturalidade desconcertante pela matriarca que despeja segredos como se precisasse urgentemente se libertar de um câncer que lhe carcome as entranhas. Tudo é muito orgânico, sutil e verdadeiro.

Acompanhamos Rosa em sua rotina desgastante de trabalhar sem prazer, ao mesmo tempo em que urgem as demandas domésticas, principalmente as das duas filhas pequenas. Essa carga agrava as objeções ao marido que, geralmente ausente, pouco auxilia no processo diariamente penoso. Como Nossos Pais encara os protocolos sociais como uma decorrência quase inevitável das tentativas de supostamente colocar ordem no caos. As instituições – o casamento, por exemplo – não são mais que muradas erguidas nessa busca inglória pela domesticação das sensações, por vezes selvagens, que nos tomam de assalto constantemente. O primeiro dos componentes que torna abrangente a abordagem de Laís é o roteiro, escrito a quatro mãos com o marido, o também cineasta Luiz Bolognesi. O encadeamento preciso das complexidades, da humanidade patente caracterizada por atitudes nem sempre previsíveis, ocasionalmente intempestivas, deriva da urdidura engenhosa da trama centrada no existir.

Como Nossos Pais toca em pontos universais, com os quais todos nos deparamos ao longo da vida. A tensão geracional estabelecida entre Rosa e Clarisse é tão bem construída que se transforma numa espécie de linha-mestra. No desenvolvimento dessa relação mãe/filha, com senões relativizados espontaneamente, ao sabor das descobertas e da abertura à perspectiva do outro, num exercício de empatia frequente e determinante, Laís fundamenta seu longa-metragem entrecortado por afetos de diversas fontes. Mesmo a coesão do excepcional elenco é fruto de sua direção. Ela demonstra carinho pelos personagens, não importando o tamanho de suas participações. Por lançar a eles um olhar generoso, a realizadora anula quaisquer possibilidades de julgamentos baseados no moralismo vigente. As pessoas do filme são feitas de carne e osso, choram, sangram e riem como se fossem decalques expressivos de uma realidade dura, porém cheia de possibilidades. Independentemente do papel, difícil é ser.

O pai de Rosa, Homero (Jorge Mautner), é uma figura carismática que traz um pouco de poesia a essa verdadeira jornada de reconhecimento. Suas tiradas sempre repletas de uma sabedoria para além da praticidade trazem alento ao cenho nublado da filha em crise. Como Nossos Pais discorre sobre as dificuldades intrínsecas às expectativas que cada espaço simbólico gera. Mesclando habilidade e ternura, Laís Bodanzky expõe o peso que todos carregam, obviamente deslocando o olhar mais à protagonista, mulher que condensa em suas elucubrações, das mais triviais às passíveis de gravidade, dilemas inerentes à existência de quem está num processo de eterno aprendizado. Maria Ribeiro desempenha aqui, talvez, o papel de sua vida, dando alma à Rosa, cuja tensão vai amenizando na medida em que deixa para trás as aspirações à infalibilidade, ou seja, ao se permitir errar. Quando, finalmente, surge a canção de Elis Regina que dá nome a este grande filme, é difícil conter as lágrimas diante de tamanha sensibilidade.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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