Crítica

Há duas grandes forças na animação hollywoodiana: a Disney e a Pixar, que na verdade são uma só desde que a primeira decidiu comprar a segunda. Todos os demais estúdios são não mais do que aventureiros no gênero que, quando conseguem um sucesso, se agarram com todas as forças a ele, o esgotando até a última gota. Bons exemplos disso é o que a Dreamworks fez com Shrek e Kung Fu Panda ou a Fox com A Era do Gelo. É por isso, também, que a Sony não iria abandonar não facilmente os carismáticos Smurfs. E ainda que este Os Smurfs e a Vila Perdida possa soar como um recomeço, nada mais é do que apenas uma nova forma de minimizar custos e seguir explorando os personagens naquilo que são melhores: brinquedos, jogos, parques de diversões e muito mais. O cinema, em casos como esse, nada mais é do que a ponta de um iceberg.

Se tanto Os Smurfs (2011) quanto Os Smurfs 2 (2013) tiveram orçamentos superiores aos US$ 100 milhões e causaram estranheza ao combinar atores reais – Neil Patrick Harris, Hank Azaria – com desenhos animados, ambos também estiveram longe de resultarem em fiascos financeiros (mesmo com o segundo tendo faturado bem menos do que o primeiro, os dois títulos juntos arrecadaram quase US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais). Em Os Smurfs e a Vila Perdida, a cirurgia foi drástica: eliminou-se os ditos ‘problemas’ (atores e altos custos) e, como resultado, obteve-se um filme que custou quase a metade dos anteriores, mantendo o mesmo espírito alegre e descontraído destes seres minúsculos e azuis, invariavelmente fugindo de uma armadilha ou outra do mago Gargamel. Perde-se a magia do cinema no processo, é inegável, mas se o foco está em um público cada vez mais infantil, quem irá reclamar?

Em resumo, deixou-se de mirar em invenções minimamente originais como Encantada (2007) – com o universo dos contos de fadas se misturando com a pretensa vida real – e assume-se tão leve e passageiro como o recente Trolls (2016) – aliás, a maior diferença entre uns e outros parece, mesmo, ser as cores de suas peles. Afinal, por mais simpáticos que sejam em histórias curtas, parece ser uma tarefa e tanto conseguir manter a atenção por mais de uma hora diante de tipos tão unidimensionais: o gênio, o ranzinza, o atrapalhado, o esfomeado. Suas características básicas os definem, assim como suas motivações e anseios. Qual a única que foge à regra? Smurfette, é claro. E, assim como foi em Os Smurfs 2, ela volta a ser o centro das atenções.

Insatisfeita por destoar dos demais, Smurfette se verá indecisa entre continuar como a exceção dentre os Smurfs ou voltar àquele que a criou, ninguém menos do que o malévolo Gargamel. Entre um extremo e outro, surge a pista que irá levá-los a um outro destino, aquele que os conduzirá à tal Vila Perdida do título. E o que este novo e desconhecido lugar terá de especial? Nada, a não ser pelo fato de ser exatamente como a vila Smurf, só que com meninas ao invés de meninos. Até o Papai Smurf ganhou sua contrapartida – espaço para a Mamãe Smurf, cortesia vocal de Julia Roberts. Entre desconfianças naturais, interesses afins recém descobertos e novos talentos a serem explorados, volta-se ao velho conto de sempre: na guerra dos sexos, há muito mais em comum entre os dois lados do que qualquer desavisado poderia imaginar.

Dirigido por Kelly Asbury, que já havia trabalhado com seres minúsculos em Gnomeu e Julieta (2011), esse Os Smurfs e a Vila Perdida ao menos é eficiente o bastante para manter em alta os personagens criados pelo belga Peyo, neste que é o primeiro longa-metragem totalmente animado baseado em seus desenhos desde Os Smurfs e a Flauta Mágica (1976) – excetuando-se os telefilmes feitos neste período. E mesmo quatro décadas depois, o charme destes pequenos atrapalhados segue firme e forte – ainda que sigam carentes de um entorno que os levem além da condição de borrão azulado descrito por apenas uma palavra. Smurfette, ainda que loira, já se deu conta que isso não é o bastante. Quando que os donos dessa mina de ouro também irão perceber o mesmo?

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar

Robledo Milani

é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

Comentários