Crítica


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Sinopse

Em 2073, o aumento crescente da população faz com que os recursos naturais da Terra se tornem cada vez mais escassos, especialmente após a América do Sul tornar-se um imenso deserto. A saída é investir em alimentos geneticamente modificados, de forma a ampliar a produção em um espaço físico cada vez mais limitado. Entretanto, tal iniciativa gera como efeito colateral o nascimento cada vez maior de gêmeos, o que aumenta ainda mais o problema da superpopulação. Neste contexto, Nicolette Cayman surge com uma proposta drástica: cada casal pode ter apenas um filho, e os irmãos são confinados em ambiente criogênico para serem despertados quando a situação do planeta estiver sob controle. Todos os países adotam esta proposta, com a criação de uma agência implacável que fiscaliza os cidadãos através de pulseiras eletrônicas. Apesar de tamanha vigilância, Terrence Settman consegue salvar a vida de suas sete netas fazendo com que elas se revezem nos dias da semana, de forma que todas assumam o codinome Karen Settman - o mesmo nome de sua mãe, que faleceu no parto. Trinta anos depois, as sete irmãs seguem esta rígida rotina até que uma delas, Segunda, misteriosamente não retorna para casa.

Crítica

Alfred Hitchcock foi um dos cineastas que melhor souberam utilizar o conceito de doppelganger na história da filmografia mundial. Em sua obra não faltam exemplos de duplos, geralmente personificados como duas faces da mesma moeda, que tentam se destruir. É o caso do tio e da sobrinha Charlie de A Sombra de uma Dúvida (1943), de Guy e Bruno de Pacto Sinistro (1951) ou, o mais emblemático, de Madeleine e Judy de Um Corpo que Cai (1958). Estas duas são interpretadas em momentos diferentes pela mesma atriz, Kim Novak, o que encontra alguns pequenos reflexos no thriller de ficção Onde Está Segunda?, lançado recentemente em streaming pela Netflix. A diferença, nem tão irrisória assim, é que a sueca Noomi Rapace faz nada menos que sete papéis na trama ambientada numa realidade distópica. Ainda que a premissa e o desenvolvimento sejam interessantes, o filme do norueguês Tommy Wirkola falha justamente quando tenta aprofundar esse conceito para além da excepcional técnica visual empregada.

É num futuro não muito distante em que a história se situa. Nicoletti Cayman (Glenn Close) é uma bióloga conservadora que tem uma ideia polêmica para controlar a superpopulação do planeta e, consequentemente, a escassez de recursos naturais, a fim de manter todos vivos. Na Terra deve-se ter apenas um filho, algo a ser controlado pelo Departamento de Alocação de Crianças. Se houver mais de um recém-nascido por família, um deles é enviado à criogenia, devendo ser acordado apenas quando o mundo estiver a salvo. Só que Terrence (Willem Dafoe) não pensa assim. Sua filha morre durante o parto de sete meninas que são batizadas clandestinamente com os nomes de cada um dos dias da semana. Elas são ensinadas a viver exatamente de acordo com seu nome. Na segunda-feira, apenas Segunda pode sair de casa, e por aí vai. As outras devem permanecer enclausuradas no dia determinado. Por 30 anos o projeto pessoal dá certo. Até que um dia a própria Segunda não volta ao lar.

Não demora muito para as irmãs restantes saberem que a farsa foi descoberta. Aí começa um jogo de gato e rato em que elas são perseguidas pelo governo, numa tentativa de manter a ordem. Mas como o segredo foi revelado? Houve alguma falha na rotina? Alguma delas cometeu um erro? Ou foi algo de caso pensado e há um traidor à espreita? O ritmo é frenético e cada personalidade das protagonistas é colocada à prova. Segunda é a workaholic concentrada. Terça, a viciada em maconha, medrosa. Quarta, a lutadora implacável. Quinta, a rebelde que almeja mais que aquela vida. Sexta, a hacker antissocial. Sábado, a festeira que busca curtir todos os momentos. Domingo, a esperançosa de dias melhores. Algumas são capturadas. Outras, infelizmente, morrem para que a ação continue. Porém, o grande mistério (que nem é tão denso quanto aparenta) vai diminuindo à medida em que o roteiro avança entre perseguições pelas ruas, tiros, sangue e explosões. Uma ação de tirar o fôlego. Porém, será o suficiente para manter a qualidade do filme?

Wirkola tem uma filmografia irregular, que encontra em João e Maria: Caçadores de Bruxas (2013) seu título de maior expressão até aqui. Ou seja, nem é um ponto a favor. A boa notícia é que seu trabalho atrás das câmeras está mais apurado, com momentos eletrizantes, de tirar o fôlego do espectador. Porém, o roteiro é falho. Especialmente no terceiro ato. Se até então entendemos um pouco a criação das meninas, e a sua fuga é repleta de belas sequências, o clímax se torna enfadonho ao incorrer numa solução fácil, tanto para a resolução do filme como para o mistério que cerca as diversas faces de Noomi Rapace. A atriz é o principal motivo para se assistir ao longa. Seu trabalho na composição de cada uma das irmãs salta aos olhos. Além das diferenças físicas (uma tem cabelo mais curto, outra é loira, e etc.), a intérprete confere personalidade própria a elas, ainda que nem todas tenham a psique bem desenvolvida para o público.

É como se a tentativa de trazer tantas personagens para a mesma tela desgastasse o diretor. Não à toa ele encontra algumas soluções fáceis demais para sumir com cada uma delas, como se fosse O Caso dos Dez Negrinhos, livro de Agatha Christie. Sim, teremos mortes entre elas. Algumas sentidas, outras não. Ao contrário do citado mestre do suspense, o norueguês não consegue manter-se firme em suas decisões no que tange à exploração das garotas. Inclusive a preguiça parece que vai tomando conta da produção à medida que ela avança, especialmente nos diálogos. Se eles já não são brilhantes desde o início, mais próximo do fim há um show de canastrice em determinadas falas. A cena do confronto no banheiro é uma das piores nesse sentido, ainda que esteticamente seja um deleite para os olhos.

É o que parece, mesmo. Um filme extremamente plástico, coberto com tons de verniz para disfarçar suas fraquezas. Se Rapace comprova aqui, novamente, o seu talento, ela não consegue extrair mais de algumas personagens uma complexidade exigida, pois muitas são rasas. Há belas cenas no início que mostram cidades vivendo na pobreza, com a superpopulação lotando as ruas e até alguns momentos em que a alimentação situa o espectador no meio daquela miséria. A carne de ratazana é um dos acertos. Porém, não há maiores discussões por aqui. Nem ambientais ou humanistas. Seria interessante se o diretor tivesse optado por outro caminho, em que ele questionasse até que ponto os seres humanos podem sofrer pela falta de perspectiva de vida, a ética moral do governo e, principalmente, como essa existência em sete parcelas pode incomodar cada uma das garotas. Onde Está Segunda? diverte, mas é extremamente raso – principalmente em seu clímax. Um passatempo grandioso, mas que passa voando. Uma pena que tente alçar voos maiores que suas possibilidades. Tivesse se focado em seu desenvolvimento textual, e talvez se tornasse uma obra-prima de ficção e espionagem. Da maneira que foi concebido, é apenas um bom entretenimento de ação. Infelizmente, será esquecido logo que os créditos começarem a subir.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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