Crítica


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Sinopse

Crítica

Se me perguntassem sobre yoga há vinte anos, minha resposta seria: algo que as pessoas fazem para sentir melhor”. A história de Michael O'Neill é uma das mais interessantes a serem contadas. Autor de retratos famosos de celebridades como Orson Welles, Martin Scorsese, Paul Newman e Jack Nicholson, o fotógrafo é um dos mais celebrados profissionais dessa arte, tendo trabalhado para publicações como Vanity Fair, Life, Rolling Stone e Time. Foram 35 anos em busca dos melhores ângulos, da luz perfeita, até que o desgaste do ofício fez O'Neill passar por uma cirurgia na coluna que levou à paralisia de seu braço direito. Os médicos disseram que ele nunca mais o moveria. Só que O'Neill não aceitou a ideia de ficar sem poder mexer com sua paixão e buscou a meditação e o yoga para se curar, descobrindo um novo estilo de vida. Seus dez anos tirando fotos de mestres do yoga lhe renderam o livro On Yoga: Arquitetura da Paz, que também dá título a este documentário do brasileiro Heitor Dhalia.

O mais interessante do longa-metragem é não apenas ser o retrato de uma parcela da vida de O'Neill, mas traçar um paralelo com a própria curiosidade do cineasta pernambucano, que percorre com a câmera os mesmos caminhos que o fotógrafo e objeto de estudo atravessou pela Índia. Além disso, traz belas imagens e entrevistas com anciões e praticantes em geral dessa filosofia de vida que busca novas interpretações sobre o ser humano. Ainda que de forma indireta, não deixa fazer outro paralelo, também, com a própria obra de Dhalia, ainda mais se lembrarmos de títulos dirigidos pelo cineasta, tais como O Cheiro do Ralo (2006) e À Deriva (2009), com personagens que acreditam estar no controle o tempo todo, mas sofrem reviravoltas que os fazem repensar o rumo cotidiano.

É também um eco de sua ficção, em que o físico se conecta ao psicológico, como o próprio yoga ensina. Não à toa as passagens por Nova York, entrevistando especialistas empíricos do assunto, fazem uma conexão direta com o que é falado pelos gurus na Índia. Um complementa o outro, como um clique que faz a pessoa estar atenta ao que lhe passa ao redor. É o processo de olhar de dentro para fora, algo que o documentário passa por meio das dissertações entrelaçadas com as tomadas de corpos em exercício, das paisagens do Nepal, do urbanismo de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Como viver numa região onde há tanto estresse, barulho, movimentação, e ainda conseguir paz?  As imagens, sejam as da decupagem de Dhalia ou as das fotografias de O'Neill, passam a energia necessária para se acreditar em tal possibilidade.

Parece complicado? Sim, é uma tarefa difícil para quem não está disposto a aprender. On Yoga: Arquitetura da Paz não é um filme para arrebatar multidões ou atrair qualquer um em busca de documentários sobre tratados históricos. Afinal, aqui não se aborda a gênese do yoga numa narrativa linear sobre os anos da técnica. É o processo de indivíduos que buscam na meditação e nos exercícios algo maior que a pura busca por prazeres transitórios. Como um dos tantos entrevistados diz lá pelas tantas, o que está errado no mundo, a infelicidade, deriva do fato do sujeito estar sempre em desejo constante, sem nunca capaz de satisfazê-lo. Talvez para O'Neill e, principalmente, a Dhalia, tal busca não tenha chegado ao fim. Ao menos, suas obras os fizeram direcionar o olhar para algo além do que parecia à vista. Algo que transcende o aspecto sensorial, muito mais ligado à espiritualidade. E o fato do longa não ser ousado, montado como um exemplar como tantos outros em seu formato (depoimentos/imagens/trilha sonora, numa constante cíclica) também explícita como o ser humano precisa voltar às suas origens para entender o que se passa ao redor. Pode parecer enfadonho para os mais céticos, mas, com certeza, cria questionamentos. Como toda arte deveria fazer. Sendo cinema ou yoga.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
7
Filipe Pereira
6
MÉDIA
6.7

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