O Rei da Internet

Crítica


3

Leitores


2 votos 8

Onde Assistir

Sinopse

Em O Rei da Internet, Daniel Nascimento se destaca como um dos principais hackers do Brasil e passa a integrar uma organização criminosa que movimenta milhões. Cercado por ostentação, ele entra na mira da Polícia Federal ainda na adolescência, quando suas escolhas começam a cobrar consequências. Biografia.

Crítica

Alguém aí na audiência já ouviu falar de Daniel Nascimento? Pois se é bastante provável que a maioria retorne com uma resposta negativa diante dessa questão, é fato também que o filme O Rei da Internet pouco tem a fazer para mudar essa realidade. Afinal, o longa que se apresenta como uma eventual cinebiografia do “maior hacker brasileiro de todos os tempos” – fala do protagonista, baseada apenas na sua própria experiência – mostra-se o tempo todo ao lado do personagem, evitando contradições, armadilhas, revelações ou mesmo provocações mais intensas. Quando dessas se aproxima, recorre a um humor debochado que, se no início parece inovador e interessante, logo perde a graça, resvalando numa repetição que tem como único efeito esvair qualquer toque de originalidade. E termina por confirmar uma vontade da figura real, de fazer valer seu anonimato por meio de mais uma versão ficcional tão sólida quanto as muitas mentiras com as quais se acostumou a difundir ao longo de sua vida. Menos investigação e mais passatempo despreocupado, portanto.

20260526 o rei da internet 2026 papo de cinema

Daniel Nascimento tinha apenas 15 anos quando passou a ser procurado pela Polícia Federal Brasileira por meio da Operação Ponto Com, que visava justamente interromper crimes online – como roubo de senhas de contas bancarias e de cartões de crédito – no país. Foi preso um ano depois, mas como era de menor, acabou tendo uma pena atenuada. Colaborou também para isso ter se tornado ajudante da força policial, oferecendo aos investigadores um know how que esses nem chegavam perto de alcançar. Desde então, tem levado uma vida aparentemente discreta, o mais longe possível dos holofotes, ainda que vez ou outra esse seu passado seja resgatado. Mas não que ele seja santo. Afinal, este filme é parcialmente inspirado no livro DN Ponto Com: A Vida Secreta e Glamourosa de um Ex-Hacker, escrito por quem? Pelo próprio Daniel, em parceria com Sandra Rossi. Ou seja, concedendo munição suficiente para não ser esquecido de vez.

Até porque o relato pontuado neste filme impressiona mais pela época durante a qual a trama se passa – início dos anos 2000 – do que pelos feitos em si. Basicamente, eis a história de um garoto inconsequente, de rala formação moral, que decide se vingar do mundo pelo bullying que sofria na escola por meio de um talento até então insuspeito: sua habilidade com a informática. De perfil curioso e com muito tempo em mãos para dispor, o adolescente rapidamente irá dominar a linguagem online em um momento de imenso pioneirismo pela “grande rede mundial”. Primeiro, começa a testar suas habilidades invadindo as estruturas de segurança de grandes empresas, causando um mal que, se comparado com o que viria a seguir, ainda se mostrava tímido. Ao poucos essas transgressões vão aumentando, assim como sua visibilidade em um meio no qual poucos eram os que se destacavam. Ou seja, Daniel era o melhor, sim, mas de uma vastidão de ninguém. Como diz o ditado, em terra de cego, quem tem um olho é rei.

A despeito de um desenrolar sem maiores surpresas, O Rei da Internet peca de fato por duas escolhas que determinam seu naufrágio frente a qualquer pretensão de ir além de uma bolha de interesse já pré-determinada. Pra começar, a escolha do dublê de ator e cantor João Guilherme para viver o protagonista. Sua escolha se mostra equivocada não pelo physique du rôle – que pouco importaria no caso – mas pela aparente apatia que ele empresta ao personagem. O que deveria soar como inocência, imaturidade e jovialidade (veja sua idade!), termina por se confirmar como desinteresse, irrelevância e casualidade. Ele não consegue transmitir emoção nem nos momentos em que o enredo exige algum tipo de tensão, como na descoberta do primeiro amor ou quando passa a ser chantageado pela própria polícia. E como o espectador fica ciente disso? Pelo segundo deslize: uma intensa e constante narração que serve para pontuar, explicar e direcionar cada passo visto em cena. Nada se dá, portanto, de forma natural, pois é antecipado por declarações em off com antecedência suficiente para eliminar qualquer dúvida ou envolvimento.

20260526 o rei da internet papo de cinema

Fabrício Bittar está longe de se mostrar um cineasta revolucionário, mas tem se revelado, vez que outra, capaz de certas ousadias. Após um início de filmografia claudicante por demais calcado em rebeldias juvenis, passou pelo documentário, pelo cinema infantil e até mesmo por histórias de cunho religioso, o que indicaria se não versatilidade e competência, ao menos um ímpeto por se aventurar por outras paragens. Durante a pandemia entregou o inquieto Como Hackear Seu Chefe (2021), que compartilha com O Rei da Internet a temática, ao mesmo tempo que abusava de algo que esse seu trabalho mais recente carece por completo: bom humor, dinâmica e vontade de sair de um lugar-comum. Sendo incapaz de aproveitar os talentos reunidos – nomes como Caio Horowicz e Marcelo Serrado pouco tem a fazer, enquanto que Emílio De Mello faz o que pode com o tipo unidimensional que lhe é entregue – e contentando-se com o carisma inexistente das figuras centrais – tanto o ficcional, quanto o intérprete que deveria defendê-lo – eis, portanto, um conjunto que falha em mais de um nível de leitura, não se valendo nem mesmo como curiosidade histórica (o que talvez fosse seu último refúgio).

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
3
Celso Sabadin
6
MÉDIA
4.5

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *