O Ônibus Perdido

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Sinopse

Em O Ônibus Perdido, durante os incêndios florestais mais mortais da história dos Estados Unidos, um motorista de ônibus escolar à deriva e uma professora dedicada unem forças para salvar 22 crianças presas em meio ao inferno em chamas que os cerca. Thriller.

Crítica

Lançado de forma discreta direto no streaming, O Ônibus Perdido viu o interesse a seu respeito ser renovado após receber uma singela indicação ao Oscar, justamente numa categoria que parecia reservada aos blockbusters acostumados com audiências gigantescas e bilheterias milionárias: Melhores Efeitos Visuais. Mais curioso ainda é descobrir que esse título possui méritos suficientes em seus créditos para validar uma investida: o vencedor do Oscar Matthew McConaughey como protagonista, a estrela America Ferrera, como coadjuvante, em seu primeiro trabalho após ter participado do fenômeno Barbie (2023) – que, aliás, lhe rendeu uma indicação ao prêmio da Academia – e na direção o respeitado cineasta britânico Paul Greengrass, conhecido pela saga Bourne (e também já indicado ao Oscar). Portanto, por qual motivo esse longa não teria recebido a devida atenção em sua estreia? Bastam alguns minutos de trama para que os motivos venham à tona. Aliado a uma destreza visual de fato impressionante, há uma trama piegas, redundante e que exagera no melodrama. A excelência verificada de um lado é quase anulada pelos equívocos confirmados no outro âmbito.

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Baseado em uma história real, O Ônibus Perdido se concentra no esforço de um motorista de transporte escolar em se manter vivo, e ao grupo de crianças que estava levando para casa, em meio a um dos maiores incêndios florestais recentes ocorridos nos Estados Unidos. Este episódio foi transformado primeiro em livro pela escritora Lizzie Johnson. O relato é uma combinação de abordagem jornalística – afinal, a autora é repórter do San Francisco Chronicle – com dramatização destes eventos, tendo como ponto de partida a trajetória desse homem que atravessa por um ponto crítico de sua vida e encontra na missão de garantir a segurança destes estudantes um paralelo com a sua própria busca por salvação. Se o romance tem como nome Paradise: One Town’s Struggle to survive an American Wildfire – algo como Paraíso: A luta de uma cidade para sobreviver a um incêndio florestal americano – entende-se que a escolha por se concentrar apenas na batalha pessoal desse homem seja uma opção cinematográfica, ao invés de investigar como foi o trabalho de toda a população local para lidar com as consequências de um desastre que de natural teve muito pouco – para não dizer absolutamente nada.

Porém, se Greengrass optasse por estabelecer seu foco apenas no embate homem versus fogo, e em como ele, a despeito de todas as probabilidades, conseguiu vencer a ameaça e permanecer vivo em meio ao desastre, certamente sua perícia imagética teria garantido um espetáculo à parte. Mas isso não lhe parece ser suficiente. E, assim, trata de inserir flashbacks e debates paralelos sobre conflitos familiares pessoais, como se esses adendos fossem capazes de fazer do personagem um ser não unidimensional, mas com camadas além daquela do herói como se tornou conhecido. Então toma discussão no telefone com a ex-mulher, bate-boca superficial com o filho ao chegar em casa, desentendimento contido com a mãe por incapacidade de lidar com as limitações impostas a ela por causa da doença. E como se isso não bastasse, o roteiro insiste em fazer do protagonista um tipo digo de aplausos por ser capaz de lidar com todo tipo de pressão, quando na verdade essas são as mais básicas possíveis: obedecer às ordens da chefe, comprar um remédio na farmácia, pagar o aluguel. Algo que em tese muitas mulheres se veem obrigadas a tirar de letra, mas que aqui, como se trata de um homem, é encarado como superação.

Conta contra ainda o fato de uma narrativa tão linear levar quase 130 minutos para desenvolver algo que não deveria ocupar nem mesmo dois terços disso. Pois do que se trata, afinal? Kevin (McConaughey) está ansioso para terminar mais uma jornada de trabalho. Quer voltar para casa, pedir desculpas ao filho que está passando uns dias com ele após o divórcio recente, dar uma olhada na mãe que passou a emitir os primeiros sinais de Alzheimer e finalmente descansar um pouco. Um último chamado, no entanto, o obriga a um desvio de rota que tinha tudo para ser de alguns minutos, mas acabará transformando sua vida para sempre. Como motorista escolar, recebe rotas a cada dia para buscar crianças e adolescentes em diferentes instituições. No entanto, um alerta de emergência sobre um incêndio de proporções gigantescas que se aproxima com rapidez da área onde se encontram obriga a um término das aulas mais cedo e a uma busca dos estudantes fora do horário planejado. Kevin se vê, então, com umas duas dezenas de pequenos sob seu cuidado, tendo ao seu lado apenas a professora deles (Ferrera). Tudo o que querem é sair dali vivos. Mas as chamas estão cada vez mais próximas. E atravessar por um verdadeiro inferno parece ser o único caminho.

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A concepção estética que acompanha a trajetória desse ônibus em busca de sobrevivência é realmente de impressionar os sentidos. É de se questionar o impacto que tais imagens teriam em uma tela grande. Visto na televisão ou no computador, muito desse esforço se dissipa, mas não o suficiente para passar desapercebido pelos votantes da Academia, felizmente. Porém, um filme deve ser mais do que apenas um coletivo carregado de inocentes enfrentando uma adversidade de proporções históricas. Por mais que seja esse um relato de sobrevivência – e também de sorte, pois em grande parte do tempo os personagens não tinham muita noção do que estavam fazendo – há todo um viés de denúncia e crítica que acaba esmaecido, frente ao excesso de melodrama percebido numa dinâmica que pouco colabora com o resultado. O Ônibus Perdido exige de sua audiência mais do que entrega, e perceber que um filme poderia ser resumido a um verbete de wikipedia não é, definitivamente, a melhor as impressões. Palmas ao aspecto técnico do conjunto, mas nem esse é suficiente para salvar o todo do desastre – tanto em cena, quanto no lado de cá da ficção.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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