Crítica


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Sinopse

Crítica

Episódio fundamental na luta contra a ditadura e na pavimentação da democracia sul-coreana, o Massacre de Gwangju, ocorrido em maio de 1980, serve como epicentro da trama de O Motorista de Táxi. É nesse conturbado contexto histórico/político que o cineasta Hun Jang insere sua jornada de um homem comum, um taxista que se vê diante do questionamento de seus conceitos, e da percepção a respeito da realidade de seu país, ao ser inadvertidamente colocado em meio ao fogo cruzado. O personagem em questão é Kim Man-seob (Song Kang-ho), viúvo que dirige um táxi pelas ruas de Seul para sustentar sua jovem filha. Apresentado de modo descontraído, acompanhando uma canção que toca no rádio, Kim deixa transparecer parte de sua visão de mundo já nos minutos iniciais, quando se depara com o congestionamento causado por uma manifestação estudantil.

Ex-combatente do exército, o taxista não compreende o motivo de os universitários protestarem, sempre repetindo que estes nunca saíram da Coreia do Sul, como ele, que trabalhou arduamente na Arábia Saudita, para dar o devido valor à vida que levam em seu terra natal. Apesar da visível tendência conservadora do personagem, Jang toma o devido cuidado para nunca retratá-lo como um extremista de convicções imutáveis, mas sim como alguém pouco informado, levado pelo pensamento da maioria, e que possui uma boa índole. Assim, o olhar lançado sobre ele acaba sendo sempre simpático, revelando seu zelo com a filha, no modo como coloca um laço no cabelo da garota, seu bom-humor – como na negociação com o mecânico – e sua malandragem inofensiva, que o leva roubar a corrida de um colega, e que lhe garantirá dinheiro suficiente para quitar suas dívidas.

O trabalho parece simples: levar o jornalista alemão Peter (Thomas Kretschmann) até Gwangju e retornar antes do toque de recolher. O que Kim não sabe é que a cidade se transformou numa verdadeira praça de guerra por conta das violentas represálias do exército contra o Movimento Democrático, e que Peter pretende registrar esses fatos, omitidos pelo governo sul-coreano. Em toda a primeira parte do longa, o viés cômico predomina, com o diretor explorando a dinâmica contrastante entre o olhar estrangeiro do repórter e o do taxista, uma relação que não se inicia muito amigável, rendendo ótimos momentos de humor, como aqueles gerados pela barreira linguística. Essas passagens servem à construção da humanidade de Kim, resultando na identificação do público e tornando natural, crível, sua futura mudança de postura.

Essa transformação tem início no primeiro contato com um grupo de estudantes que se dirigem ao hospital em um caminhão. Pensando em abandonar Peter, Kim dá meia volta, mas logo se arrepende, pegando como passageira uma mãe desesperada à procura do filho ferido. Ao ser obrigado a permanecer na cidade devido a um problema no motor de seu carro, o taxista começa a se aproximar dos moradores locais e a tomar contato com a realidade que o cerca. O choque que intensifica a quebra de paradigmas se dá quando Kim presencia de perto o confronto brutal entre manifestantes e exército. Perplexo com a atitude dos soldados, que abusam da violência sem razão, o protagonista passa a compreender como a manipulação, através da mídia, o manteve cego por tanto tempo, fazendo com que se envolva mais profundamente com a causa democrática, não tanto pelos aspectos ideológicos, mas pela pura compaixão.

É a partir desse ponto que o trabalho de Jang muda drasticamente de tom, se tornando muito mais grave. Uma transição que não ocorre tão organicamente quanto poderia e que vem carregada de armadilhas sentimentais e excessos, como a caricaturização dos vilões – vide o chefe do serviço secreto de cabelo impecavelmente ajeitado sobre a testa – e o encadeamento de momentos de sacrifício individual, com o registro da tragédia em câmeras lentas embaladas por uma trilha sonora instrumental solene e incessante. Os exageros passam a dominar a narrativa, produzindo sequências bastante improváveis, como o clímax de perseguição na estrada. Uma sequência muito bem montada, que denota o domínio de Jang na condução da ação, exemplificando a grandiosidade da produção, e que faz jus à notória destreza sul-coreana no trato com o cinema de gênero.


Contudo, dentro do contexto que se supõe mais realista de uma trama baseada em fatos, cenas como essa soam demasiadamente forçadas. A extensão do desfecho por meio de um salto temporal, visando focar na questão de amizade entre Kim e Peter, mesmo comovente, também passa a impressão de querer tornar o longa mais palatável ao grande público. O conflito tonal entre as metades de O Motorista de Táxi não o esvazia totalmente de seus méritos, como a cativante atuação de Kang-ho no papel principal, se destacando especialmente nos momentos mais delicados – o jantar com a família do taxista de Gwangju e o estudante de música, a tocante cena em que chora ao falar da filha para Peter. Porém, a atmosfera romantizada da parte final se impõe sobre a inusitada, dada a seriedade do assunto, abordagem humorística que se insinuava inicialmente e que, caso sustentada, poderia fazer com que essa jornada de conscientização política e de combate ao poder alienante do totalitarismo fosse de fato memorável.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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