Crítica

Há um humor bastante peculiar em boa parte de O Lamento. Embora as ocorrências atendidas pelo sargento Jong-Doo (Kwak Do-Won) sejam de ordem criminal, a maneira como o diretor Na Hong-jin registra o cotidiano do vilarejo sul-coreano dá margem à comédia. O próprio protagonista é representado como um homem atabalhoado, meio desligado do mal que o circunda, um tipo quase infantil. Dessa condução pelo insólito, que relativiza na medida certa a solenidade dos inúmeros delitos praticados na região, se desprende um hibridismo interessante, que torna o filme instigante e curioso. Prova disso é a ótima cena de alguém sendo atingido por um raio em meio à busca, a priori, perigosa. O impacto do fenômeno é mais engraçado que propriamente dramático, embora não perca de todo esse viés de gravidade. No enredo estão presentes e misturadas diversas constantes do horror, a começar pela possessão demoníaca, elemento que, uma vez deflagrado, proporciona uma guinada aos acontecimentos.

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Jong-Doo perde aos poucos a aura de passividade frente aos eventos, sobretudo ao descobrir que sua filha é vítima de um espírito maligno. Desse ponto em diante, O Lamento assume outros contornos, agarrando-se mais firmemente nas possibilidades aterrorizantes. Suspeita-se que o forasteiro japonês, morador isolado nas montanhas das cercanias, seja uma criatura inumana e, portanto, provável responsável pelas anomalias naquele cotidiano. Ao redor desse personagem enigmático se dão as passagens mais violentamente gráficas do filme, com direito ao espancamento de um cachorro de grande porte e um sem número de outros sacrifícios animais em rituais de magia negra. O xamanismo agrega mais uma faceta ao filme, evidenciando a luta do bem contra o mal. Na Hong-jin vitamina a trama, conferindo outras camadas ao seu desenvolvimento, enriquecendo, assim, o que era inicialmente uma narrativa marcada pela singularidade, acima de qualquer coisa.

No que tange ao tom, O Lamento é essencialmente guiado pelo comportamento do protagonista. Não à toa, quando ele passa a se ocupar integralmente da filha, procurando meios de salvá-la das ameaças, nem que para isso seja necessário penhorar sua ética profissional, o longa-metragem deixa de lado o humor, tornando-se mais sério, transição administrada habilmente por um diretor bem-sucedido ao combinar componentes de difícil convivência, exatamente por suas fortes naturezas simbólicas. Não bastassem os dados sobrenaturais já mencionados, Na Hong-jin inclui um zumbi nesse molho já tão saboroso, repleto de bons ingredientes. Acompanhar a progressão da história é prazeroso justamente porque a imprevisibilidade é elevada à condição de imperativo. Quando pensamos que os conflitos estão se encaminhando para uma resolução, lá vem algo novo que torna a bagunçar as coisas, adicionando possibilidades aproveitadas dentro de um contexto aberto a novidades.

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Embora vigoroso do início ao fim, O Lamento perde um pouco de dinamismo quando instalado definitivamente no terreno mais sombrio, com o protagonista enfrentando forças cada vez mais agressivas. Todavia, nada que deponha contra o seu transcorrer empolgante. O diretor Na Hong-jin faz um filme visualmente muito rico, com um aproveitamento significativo do potencial dramático dos espaços. Já a primazia da direção de arte e da maquiagem se encarrega de tornar as situações perfeitamente críveis. A encenação privilegia a construção de uma atmosfera de instabilidade, criando um ambiente em que tudo pode acontecer. A diversão do começo dá lugar gradativamente a uma sensação de perigo e tragédia iminentes, e o absurdo se apresenta como instância determinante num universo em que convivem demônios, xamãs, policiais atrapalhados, mortos-vivos, etc. Como resultado, este ótimo longa, no qual o arrojo e a originalidade são apenas duas entre tantas evidências de qualidade.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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