Crítica

A simples divulgação da produção de O Jardim das Aflições causou burburinho. Não era para menos, afinal estamos falando de um documentário sobre Olavo de Carvalho, autointitulado filósofo, entre outras coisas, mais conhecido por ser um ferrenho polemista. O diretor Josias Teófilo não esconde, pelo contrário, escancara a admiração pelo personagem que frequentemente despeja impropérios nas vias públicas de informação, quando não estimula abertamente preconceitos e outras abjeções, disfarçando tudo de fluxo livre de ideias. A câmera acompanha Olavo por entre os cômodos da casa na Virgínia, no sudeste dos Estados Unidos, até chegar emblematicamente a um ambiente em cuja porta repousa o pôster do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan convocando à luta contra o socialismo, numa imagem alusiva àquela do Tio Sam instando os jovens a participarem do conflito do Vietnã.

Josias segue Olavo até os fundos da propriedade. O pensador empunha uma arma de grosso calibre. O diretor faz do tiro o gatilho para trocar de capítulo. É um procedimento cinematográfico que corrobora certa agressividade contida nos gestos e nas palavras aparentemente serenas de um homem movido a ódio e adulação, aliás, esta que O Jardim das Aflições lhe fornece. O protagonista, do alto de sua pretensa erudição incontestável, vai à seara política, mencionando esquerdas e direitas, desembocando, obviamente, numa crítica ao Partido dos Trabalhadores, enquanto Josias, canhestramente, ilustra tudo com gravações da ex-presidenta Dilma acenando (dando tchau) e do ex-presidente Lula sorrindo em contato com o povo. O cunho ideológico do filme é explícito, do qual aqui não se faz objeção. Incômodo ao espectador é o viés propagandístico da narrativa, a mal disfarçada parcialidade.

Com grande potencial soporífero, O Jardim das Aflições, quando não esforçado em utilizar excertos do cotidiano de Olavo de Carvalho para mostrar o aspecto mundano e, portanto, acessível de sua suposta intelectualidade iluminada, é apenas uma aula enfadonha de filosofia. Josias utiliza demasiadamente o recurso de manter a câmera parada, contemplando os dizeres de um homem obviamente esclarecido pelas múltiplas leituras, mas sem carisma para prender a nossa atenção. As cenas domésticas, em que testemunhamos o âmbito familiar do professor orgulhoso de não pertencer à academia, do autodidatismo que, segundo ele, afronta o status quo, reforçam a sensação de estamos diante de uma narrativa fragilizada pela falta de oxigenação, refém da repetição e de um esquematismo flagrante. A participação do entrevistador Wagner Carelli, às vezes em frente ao dispositivo de registro, é outro componente anêmico.

O Jardim das Aflições passa muito longe de observar Olavo de Carvalho por todos os vieses possíveis. Aliás, opta deliberadamente pela via laudatória, excluindo o que deriva das manifestações controversas. Para o filme, não importam as reações inflamadas aos comentários questionáveis do protagonista, o que faz dele uma ilha de onde, segundo o itinerário criado pelo cineasta, emanam conhecimentos indubitáveis. É difícil permanecer atento às falas de Olavo, pois a câmera, enfadonha e plácida, que aprecia, nunca esboçando além de ovação irrestrita, se comporta como um aluno incapaz de questionar o mestre, de afrontá-lo para, então, provocar imersão nas complexidades. O documentário tampouco possui uma linguagem criativa para transmitir sua mensagem, e nem pergunta, pois cego de tanta paixão e carinho, se Olavo é inteligente ou apenas um imbecil bem informado.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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