Crítica


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Sinopse

Dois casais se encontram em um elegante restaurante de Amsterdã. Enquanto a comida vai e vem, eles começam a conversar, passando por banalidades da vida até assuntos mais complicados. A discussão chega ao seu limite quando falam sobre seus filhos adolescentes, dois rapazes que estão envolvidos em uma complicada investigação policial.

Crítica

Os dilemas morais estão no cerne do trabalho do cineasta de origem israelense Oren Moverman, que despontou como um dos roteiristas mais promissores do cinema norte-americano da primeira década dos anos 2000 – escrevendo longas como Não Estou Lá (2007), de Todd Haynes, e Vida de Casado (2007), de Ira Sachs – antes de se dedicar à direção, com O Mensageiro (2009), Um Tira Acima da Lei (2011) e O Encontro (2014), obras nas quais a característica citada inicialmente se faz mais evidente. Em O Jantar, o realizador mantém essa predileção, tomando como base o best-seller homônimo do holandês Herman Koch – já adaptado para as telas em duas oportunidades. Porém, se seus três longas anteriores focavam em questões específicas, trabalhando outros elementos de modo complementar, aqui, Moverman procura transformar todos os tópicos em prioridade.

O enredo acompanha dois casais: o ex-professor de história Paul (Steve Coogan) e sua companheira, Claire (Laura Linney), e o congressista Stan (Richard Gere), irmão de Paul, e sua atual esposa, Katelyn (Rebecca Hall). Os quatro se encontram para jantar num luxuoso restaurante, com o intuito de discutir o futuro de seus filhos, Michael e Rick, que juntos se envolveram em um terrível episódio. Em meio às interrupções causadas pela agenda atribulada de Stan, que concorre ao cargo de governador e busca angariar votos para a aprovação de um projeto, e pelos surtos comportamentais de Paul, a noite segue trazendo novos confrontos e revelações. Dentre o quarteto, Paul surge como a figura central, o narrador, apresentando a trama sob seu ponto de vista, que se torna mais problemático e vacilante à medida que sua condição – sofrendo com distúrbios mentais – é exposta.

Tendo uma premissa estruturada para a criação de um drama de câmara, acentuando a claustrofobia e o confinamento espacial, Moverman segue na direção oposta, buscando as mais diversas maneiras de deslocar a ação do restaurante. Inserindo uma série de flashbacks, situados em momentos distintos, e nem sempre determinados com precisão, para estabelecer o passado e os traumas dos personagens, o cineasta realiza uma fuga que deprecia a boa ambientação até então elaborada. A fotografia requintada de Bobby Bukowski e o belo trabalho de iluminação imprimem um misto de intimismo e ostentação ao restaurante/mansão, envolvendo-o numa intrigante atmosfera que permite espaço simultâneo para o insólito, o humor mórbido e a tensão. Toda essa expressividade do ambiente, todavia, se esvai devido aos constantes desvios propostos por Moverman, que terminam não se justificando, mesmo que tenham o intuito de representar a confusão mental de Paul.

O mesmo enfraquecimento ocorre com a divisão em capítulos espelhando as etapas do jantar – aperitivo, entrada, prato principal etc. – e com o artifício de quebrar o tom dramático através das empoladas apresentações dos pratos feitas pelo maître (Michael Chernus). Com o pouco tempo dos personagens, de fato, à mesa, o jantar se torna algo quase simbólico, perdido entre o estilismo, por vezes caótico, da construção narrativa de Moverman. O registro dos flashbacks retoma a estética próxima à documental dos títulos anteriores do diretor, mas carregando traços quase oníricos em determinadas passagens, como toda a montagem sobre imagens e fatos da Guerra Civil Americana, com Paul e Stan visitando o local da Batalha de Gettysburg. O tema, obsessão do ex-professor, se insinua como a grande metáfora catalisadora do longa, porém, Moverman não a define com clareza: Uma representação do conflito interno de Paul? Da situação da sociedade contemporânea?

Na ânsia de abraçar o maior número possível de assuntos, o trabalho de Moverman se asfixia pelo excesso, já que todos possuem gravidade elevada: a doença de Paul e seus surtos, a doença de Claire, a relação conturbada entre os irmãos e a mãe, preconceito racial (na presença do filho adotivo negro de Stan), impunidade, ética política, privilégio de classes, necessidade de superexposição nas mídias sociais etc. Além de disputarem espaço entre si, tais elementos acabam encobrindo o conflito principal, a resolução do caso envolvendo os filhos, que só é devidamente debatido no terceiro ato. Navegando nesse mar de motivações, o competente elenco se empenha para encontrar a essência dos personagens. Ocultando seu sotaque britânico, Coogan assume o protagonismo e se entrega à composição do perturbado Paul, conseguindo, a princípio, gerar uma identificação com seu humor ácido e atitude misantrópica, mesmo que depois essa conexão se perca com as transformações do personagem.

Como o contraponto a Paul, Gere se mostra seguro num papel que chega a subverter positivamente certas expectativas, já que Moverman faz do político a voz aparentemente mais sensata e equilibrada em cena. As figuras femininas, por sua vez, sofrem mais com a demasia dramática.  Enquanto Chloë Sevigny surge deslocada como a primeira esposa de Stan, Hall e Linney só encontram espaço para se destacar próximo ao desfecho, quando exibem seu poder e se impõem sobre os maridos, justamente no momento em que Moverman se concentra no embate mais íntimo entre os quatro. A força dessas passagens evidencia que a opção por um escopo menor – temática e espacialmente – poderia conferir a O Jantar a contundência almejada. Contudo, a ambição de Moverman exerce o efeito contrário e, ainda que provocações e questionamentos sejam apresentados com a mesma pompa dos pratos servidos no restaurante, a digestão dos mesmos não se mostra das mais agradáveis, deixando um sabor pouco memorável.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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