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Sinopse
Em O Fim da Rua, um misterioso evento cósmico transforma o bairro Oak Street e transporta a família Platt para um lugar desconhecido. Diante de um ambiente completamente diferente daquele que conheciam, eles precisam deixar as diferenças de lado e unir forças para encontrar uma maneira de sobreviver. Mistério/Thriller.
Crítica
Uma família feliz. O cinema já explorou em mais de uma ocasião a desconstrução da ideia da “felicidade do comercial de margarina”, ou seja, aquilo que hoje poderia ser adaptado para o que é vendido por meio das redes sociais – realidades perfeitas, mas que não sobrevivem a um escrutínio detalhado. Porém, talvez difícil seja imaginar uma reação tão fortemente contrária a esse sentimento quanto a que pode ser percebida em O Fim da Rua, longa escrito e dirigido por David Robert Mitchell e estrelado por dois dos nomes mais confiáveis da Hollywood atual: Anne Hathaway e Ewan McGregor. O que se tem é uma fábula cuja premissa é tão absurda que o recomendado é não se ater muito a ela e nem às supostas explicações que o roteiro tenta oferecer, e sim no desenrolar dos acontecimentos a partir do momento em que a situação se instala. O mundo, pelo jeito, teve que virar de ponta cabeça para que esse casal volte a se unir. Uma verdadeira montanha-russa que deverá prender o espectador na cadeira de modo como nenhuma das sequências de Jurassic World (2015) conseguiu. Papai Steven Spielberg deve estar orgulhoso – ou com inveja, ao se dar conta de que a concorrência alcançou indo direto ao ponto tudo aquilo que seus pupilos não chegaram nem perto, ainda que tivessem a seu favor toda a parafernália de uma das maiores sagas do cinema moderno.

A história começa justamente reiterando essa imagem consagrada pela publicidade e pelo marketing. Em uma festa comunitária do bairro, famílias brincam entre si, preparam churrascos e se sentam uns juntos aos outros para trocar conversas, lembranças e momentos de afeto. Porém, basta se aproximar um pouco para que as rachaduras comecem a se manifestar. Pode ser algo simples, como o vizinho que insiste em reclamar do cachorro alheio que, alegadamente, volta e meia aparece no seu quintal. Mas também pode apontar para algo mais sério, como um marido que segue fazendo bicos como entregador de pizza às escondidas da esposa, ou essa que opta por passar suas noites no porão escrevendo um livro que pode ou não ser baseado nas suas próprias memórias, expectativas e frustrações. E se algo não está bem entre eles, este mesmo cenário pode ficar ainda pior – e de uma maneira literal e transformadora – quando um clarão interrompe essa aparente tranquilidade no meio da noite.
O que acontece é uma troca de realidade. Não só a casa dos Platt, mas todo o bairro é transportado para o passado. E não uma questão de anos ou décadas, ou mesmo séculos, mas fala-se aqui de milênios. Eles vão parar em meio a era mesozoica, que ocorreu entre 245 e 66 milhões de anos atrás. E não serão apenas espécies vegetais que se manifestarão entre eles da noite para o dia, mas também criaturas aladas, gigantes selvagens, anfíbios gosmentos, répteis de todos os tipos e tamanhos. De topo da cadeia alimentar, o ser humano – ao menos aqueles que se encontram como vítimas dessa ‘pegadinha temporal’ – se verá como a presa mais fácil de ser abatida por essas ameaças que não se cansam em se impor ao seu redor. E assim a luta pela sobrevivência terá início.
Robert Mitchell chamou atenção dos cinéfilos pela primeira vez com seu segundo longa-metragem, o terror Corrente do Mal (2014), trama que também não se apoiava em uma explicação lógica, mas cativava por um sentimento de angústia e descontrole. Essa mesma sensação é almejada em O Fim da Rua por meio do pânico crescente que passa a tomar conta das decisões e estratégias imaginadas por Denise (Hathaway), Greg (McGregor) e os filhos Audrey (Maisy Stella, de Meu Eu do Futuro, 2024) e Brian (Christian Convery, vencedor do Emmy por Sweet Tooth, 2021-2024, e que há pouco apareceu no oscarizado Frankenstein, 2025). A escolha dos atores jovens se mostrou fundamental, pois muito do que acontece se dá apenas entre eles – a partir de certo momento, os dois irão se desgarrar dos pais, e terão que descobrir como se manter vivos sem a ajuda dos adultos. Isso é providencial, uma vez que eles parecem mais convictos do que precisa ser feito do que seus pais. Denise não sabe se vai ou se fica, cansada de lidar com um marido instável tanto em casa (ele bebe, não se mostra interessado em dialogar sobre os problemas que estão enfrentando maritalmente) quanto no trabalho, enquanto que Greg está cada vez mais cansado de se deparar com a insatisfação da esposa. Mas o que fazer, seguir discutindo problemas tão pessoais, ou se unir para manter cada um que deles dependem com o pescoço sobre os ombros?

Abrindo mão de uma profundidade mais complexa, O Fim da Rua investe tanto na ação que irá guiar seus personagens – e nisso, alguns absurdos seguirão ganhando espaço, por mais que se tente evitá-los – como também em seus conflitos pessoais, criando oportunidades até mesmo para outros tipos de discussões (a identidade sexual de um dos personagens nunca chega a ser um problema, ainda que seja levada em conta em suas escolhas a partir de um entendimento coletivo). Nada a ponto de significar um hasteamento panfletário de bandeiras que mais atrapalhariam o conjunto do que colaborariam com o todo, mas o suficiente para se revelar atento a esse tipo de debate. Assim como McGregor consegue transitar da fragilidade ao espanto e Hathaway confirma um amadurecimento dramático que se encaixa ao que aqui lhe é exigido, o filme cumpre o que promete, alinhando entretenimento com consistência sem apelar para grandes heroísmos, fazendo uso de uma lógica interna que é tanto respeitada, como desenvolvida. E se por um lado não consegue sustentar seu maior ato de coragem – uma concessão em nome de um “final feliz” – ao mesmo tempo se mostra atento às repercussões das provocações desenhadas, imaginando (é claro) até mesmo eventuais sequências. Nada mais Hollywood do que isso, afinal.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Ailton Monteiro | 7 |
| Chico Fireman | 6 |
| Daniela Pedroso | 7 |
| Ticiano Osorio | 7 |
| MÉDIA | 6.8 |

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