O Drama

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Sinopse

Em O Drama, um casal recém-noivado vê a estabilidade do relacionamento abalada quando uma revelação inesperada surge às vésperas do planejado casamento. A incrível descoberta desorganiza todos os preparativos e coloca à prova a confiança entre os dois. Comédia/Drama/Romance.

Crítica

A despeito das impressões, sentimentos e reações possíveis a partir do principal questionamento proposto pelo filme O Drama – o quão bem você conhece a pessoa pela qual está apaixonada e até que ponto você estaria disposto a perdoá-la? – há de se fazer uma distinção não apenas necessária, mas acima de tudo urgente: o que é fato e o que é intenção. Sim, pois o debate percorrido pelos personagens, em sua quase totalidade, diz respeito a o que um deles pensou em fazer, entre tantos outros atenuantes, e não ao que, de fato, os demais colocaram em prática, com evidentes repercussões de suas ações. Essas, porém, são rapidamente desconsideradas, enquanto que a outra – que, ressalta-se novamente, permaneceu no campo da imaginação – é do início ao fim problematizada, perturbada, indagada, analisada. Como se a pessoa pudesse ser julgada apenas por ter pensado em fazer algo (ecos de Minority Report: A Nova Lei, 2002). Ressalta-se que a pessoa no vértice do debate não apenas é mulher, mas também negra, e abre-se espaço para diversas outras interpretações e dúvidas. Em teoria, eis um filme que se propõe provocador e moderno, mas tudo o que consegue é reafirmar o seu conservadorismo e misoginia (entre outros tantos defeitos).

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Emprega-se na linguagem corriqueira o termo “drama” para algo que não deveria ser levado tão a sério, envolto por exagero ou complicações além da conta. “Nossa, que drama” ou “puxa, você está fazendo muito drama” são expressões quase comuns que apontam justamente para o oposto desse excesso. É quase como um “relaxa, calma, não é para tanto”. E seria uma excelente sacada se o diretor e roteirista Kristoffer Borgli – um homem, portanto – se mostrasse disposto a apontar para o ridículo dessa situação a partir do anacronismo da postura masculina frente ao apedrejamento social experimentado pela mulher. No entanto, não é o que se verifica em cena. Quando, em certo ponto, é ela que, a despeito de tudo o que passou, ainda precisa encontrar forças para perdoar o companheiro e ir ao seu encontro, como num pedido de desculpas, concedendo-lhe uma segunda chance, tem-se de forma evidente no lado de quem a narrativa assume seu lugar.

Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) se conhecem ao acaso. Ele entra num café, a vê concentrada em seu livro, e decide puxar conversa com aquela bela estranha. Logo o envolvimento surge, passam a se ver de forma cada vez mais frequente, e alguns anos depois estão com o casamento marcado. Às vésperas da cerimônia, ao lado de um casal de amigos – e algumas garrafas de vinho – decidem propor um jogo que consiste em revelar “a pior coisa que você já vez”. A ideia, como se percebe, está em testar os limites de tolerância dos demais. Porém, o que se percebe não é bem isso. Três dos presentes – aqueles que aceitaram ser padrinhos e o noivo – relatam coisas que fizeram e geraram traumas em terceiros. Foram atitudes concretas, reais, que tiveram consequências pesadas em outros. E tudo bem. Porém, quando a noiva decide se manifestar, ela foge um tanto da diretriz inicial e relata algo que quase realizou em certo momento de sua vida. E a partir disso passa a ser condenada sem possibilidade de perdão (ou quase isso).

Em nenhum momento tenta-se amenizar as intenções dela. O que pensou, de fato, teria sido horrível, trágico, um horror. Mas foi apenas isso: um pensamento. Não houve repercussões, pois nada foi colocado em prática. E há, sim, atenuantes. Ela se justifica com argumentos sólidos: tal passagem foi há mais de uma década, quando era não mais do que uma adolescente (atire a primeira pedra quem nunca pensou uma bobagem em qualquer fase da vida, ainda mais nessa), envolta por distanciamento familiares e experiências de bullying escolar. Além disso, após ter interrompido os planos – sim, por motivos externos – não só decidiu não mais retomá-los, como passou a agir de forma contrária a eles, assumindo abertamente uma postura de alerta e denúncia ao que por pouco não cometeu. Mas ninguém parece ouvi-la. A amiga passa a ver nela uma monstruosidade inominável. O amigo não mais a reconhece, como se tivesse se transformado em um ser bizarro e alienígena. E o namorado assume todas as preocupações para si, como se ele, sim, fosse a vítima em questão.

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Borgli é um cineasta que se propõe moderno, mas tem esvaziado repetidamente boas ideias em realizações, no máximo, medíocres. Doente de Mim Mesma (2022) questiona o mundo das artes por meio de uma disputa de egos, o curta Willem Dafoe (2023) se apresenta como espirituoso ao mesmo tempo em que incorre em temas como etarismo e culto às celebridades, e O Homem dos Sonhos (2023) parte de uma boa premissa que simplesmente não encontra um desfecho à altura. Em O Drama ele mais uma vez incorre nesse erro, e o básico é a falta de habilidade em lidar com os cenários que levanta. Ao colocar o personagem de Pattinson – exagerado, sempre um tom acima, indo de um extremo a outro, do riso fácil ao sofrimento desmesurado – como protagonista, e não aquela que recebe a maior parte das acusações – Zendaya, que se mostra esforçada, mesmo quando o filme não parece estar interessado em lhe dar ouvidos – o que resta ao final é um homem falho, que erra uma vez após a outra, que insiste na velha lógica de buscar em outros (ou outras) aquilo que ele próprio não consegue agregar ao relacionamento em que se encontra, culpando tudo e todos pelo que ele mesmo não consegue emular. E, mais uma vez, quem oferece o perdão? Um clichê após o outro, disfarçado de sagaz e antenado. O que não poderia ser mais longe da verdade.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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