Meu nome é Agneta

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Sinopse

Em Meu Nome é Agneta, uma mulher de 49 anos, presa a uma rotina estagnada e sentindo-se invisível, decide mudar radicalmente de vida ao aceitar um trabalho como au pair na França. O plano, no entanto, toma outro rumo ao descobrir que o suposto garoto é, na verdade, um idoso excêntrico, dando início a uma convivência improvável que a leva a repensar suas escolhas. Comédia.

Crítica

Esse filme já foi feito antes. Não uma, nem duas, mas diversas vezes. Então, e a questão é mais do que válida, por qual razão a mesma história de superação, autodescoberta e mudança pessoal segue sendo contada? O motivo é simples: tratam-se de elementos básicos e de fácil identificação, com os quais qualquer espectador, em maior ou menor grau, consegue se relacionar. Em Meu Nome é Agneta, pouco importa o batismo da protagonista. O que faz diferença é ela, após anos de apagamento, tanto por parte dela como por todos aqueles que se habituaram a estar ao seu redor sem nem ao menos percebê-la, é finalmente conseguir se ver, se entender e se valorizar. Quem não almeja isso para si? E se os desdobramentos narrativos no campo da ficção se mostram previsíveis e até mesmo frágeis em suas nada elaboradas construções, ao mesmo tempo são simpáticos o suficiente para garantir uma audiência atenta e interessada.

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Baseado no romance homônimo de Emma Hamberg – campeão de vendas na Suécia, onde vendeu mais de 200 mil cópias e ganhou até uma sequência, mas ainda indisponível no Brasil – Meu Nome é Agneta tem como protagonista a personagem-título, vivida por Eva Melander. A atriz, conhecida apenas pelos cinéfilos brasileiros mais radicais, é uma artista consagrada na Escandinávia. Indicada ao European Film Awards por Border (2018), é dona de nada menos do que três Prêmio Guldbagge – o “Oscar sueco”, por assim dizer. No entanto, por muitos dos seus trabalhos anteriores, percebe-se ser ela afeita a um modelo externo de composição, geralmente fazendo uso de recursos de apoio, como maquiagem, perucas e sotaques diferenciados para dar vida aos muitos tipos que já defendeu. Dessa vez, no entanto, seu percurso é outro. Agneta é uma mulher que, antes de se renovar, precisa demolir aquela imagem envelhecida que tinha de si mesma. É preciso colocar abaixo o que não mais serve para dar espaço a algo novo. E assim ela se mostra, desnuda, desprovida de muletas e entregue por completo. Uma demonstração de coragem e desprendimento que é recompensado por uma performance solar.

Agneta é uma mulher de 49 anos que pensa já ter desistido da vida. Possui um emprego medíocre no departamento de trânsito, o único contato regular que mantém com os filhos é para lhes enviar dinheiro e com o marido leva um sistema de casa compartilhada, cada um tendo sua existência à parte – até em quartos separados os dois dormem. O que lhe falta é um empurrão. E esse chega ao ser demitida, sem razão ou causa aparente. Sem saber o que fazer, tranca-se no seu dormitório e, entre taças de vinho e pedaços de camembert, se candidata a uma vaga de au pair – babá para crianças pequenas, atividade geralmente ocupada por jovens e adolescentes em intercâmbio – no interior da França. Ao acordar, porém, a boa notícia: sua solicitação foi aceita. E mesmo a despeito da reação contrária do esposo, faz sua mochila e parte para essa aventura inesperada. Ela não fala a língua de lá , nunca viajou para outro país e não tem ideia do que lhe espera. O homem que está deixando para trás aposta que voltará em questão de dias. Seguir, portanto, se torna uma questão de honra.

Mas nem tudo é como sonhado. Logo ao chegar esquece a bolsa de mão – inclusive com o celular – no ônibus, e sem comunicação, terá que se virar sozinha (ou quase isso). Sim, pois nada é muito difícil no filme escrito por Isabel Nylund (que trabalhou por anos como consultora de projetos como Queime Todas Minhas Cartas, 2022, e está estreando agora como roteirista) e dirigido por Johanna Runevad (ela também novata no formato, após ter se envolvido até então basicamente com projetos para televisão). É importante essa observação a respeito de quem está nos bastidores para que se perceba ser esse um filme feito majoritariamente por mulheres – quase uma raridade na indústria – mas não direcionado apenas a elas. A comunicação é voltada a um público maior. Por isso, não se demora tanto em pormenores como os desdobramentos das ações descritas, mas sim nos efeitos dessas nos personagens. Quando desembarca no vilarejo francês, Agneta é recebida sem estranheza pelos locais. Rapidamente descobre que houve um engano, e ao invés de cuidar de um bebê, ficará responsável por um senhor octogenário e homossexual. Esse contato contínuo servirá de chave tanto de aprendizado, como de transformação. Tanto para um, quanto para o outro.

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A temática queer, por mais que uma vez ou outra soe um tanto provocadora, é por demais leve para despertar interesse real – é mais uma curiosidade pontuada, somente. Ao ajudar o homem idoso a retomar contato com o filho que não vê há anos, a protagonista se dá conta que também tem muitos laços que precisam ser refeitos – e a maior parte deles consigo mesma. Se livrar das bagagens – emocionais, físicas e psicológicas – faz parte de um processo maior, e se Meu Nome é Agneta desenha esse processo por meio de uma simplicidade reducionista, ao menos o faz com tanto carinho e preocupação com os indivíduos desenhados de forma que cada um deles termina por representar diferentes aspectos de uma mesma personalidade. Há a possibilidade de um novo amor, a senhora capaz de ensiná-la a se olhar no espelho, o exemplo de uma vida colorida e repleta de alegrias. Sabe-se bem que não basta acreditar para que tudo se transforme ao seu redor – como por vezes a trama dá a entender – mas nada muda sem um movimento inicial. E se o exemplo de Agneta servir para um primeiro passo, muitas das suas intenções originais terão sido atingidas.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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