Onde Assistir
Sinopse
Em Nuremberg, um psiquiatra norte-americano é encarregado de avaliar 22 oficiais nazistas à espera de julgamento por crimes de guerra e, ao se aproximar de um deles, mergulha em uma investigação sobre a natureza do mal que passa a afetá-lo diretamente. Guerra.
Crítica
Ao contrário do que se poderia supor, Nuremberg não é uma refilmagem do clássico Julgamento em Nuremberg (1961), assim como tampouco da minissérie de mesmo nome realizada em 2000 – ainda que tenha mais semelhanças com essa última do que com a obra mais conhecida. E isso porque, apesar dos três projetos abordarem julgamentos de nazistas após o final da Segunda Guerra Mundial, todos ocorridos na cidade alemã do título, o longa dirigido por Stanley Kramer, apesar da notoriedade alcançada pelos talentos envolvidos, abordava um episódio posterior, envolvendo mais os julgadores, do que os julgados. Ao contrário desse projeto recente, que tem como foco o alto comando do governo de Adolf Hitler – com exceção do próprio, é claro, pois esse havia cometido suicídio com o desfecho (e derrota) do conflito. A escolha é acertada, e apresenta ao espectador um episódio ainda mais curioso – e pertinente. Porém, o que se evidencia após quase 150 minutos de trama é que de pouco adianta um direcionamento apropriado, se os responsáveis por desenvolvê-lo não forem capazes de se mostrar à altura de tamanha tarefa.

O segundo nome mais importante da liderança nazista é capturado – ou melhor, ele se entrega aos Aliados – e, com isso, uma oportunidade se apresenta: levá-los ao debate público internacional, julgando-os por seus crimes de guerra. Mais do que importante, tal medida se mostrava urgente. Afinal, muitos ainda duvidavam das atrocidades e violências cometidas pelo Reich alemão – como os campos de concentração onde milhares de judeus foram assassinados. Colocar aqueles que deram tais ordens, e que compartilhavam conhecimento sobre tudo que ocorria sob seus comandos, sob avaliação da Justiça, responderia por uma condenação ainda mais ampla e irrestrita, visando não apenas culpabilizá-los pelo ocorrido, como também prevenir por meio desse alerta para que tal tragédia não viesse a se repetir. Mesmo assim, com tantos oficiais nazistas envolvidos e juristas e advogados norte-americanos e europeus conduzindo o processo, o escolhido como protagonista é um… psiquiatra.
Douglas Kelley é interpretado por Rami Malek, ator que até hoje não provou fazer jus ao Oscar recebido por Bohemian Rhapsody (2018). Se antes de aparecer como Freddie Mercury ele colecionava em sua filmografia aparições em franquias como Uma Noite no Museu e Crepúsculo, desde sua conquista mais comentada tem se esforçado para mudar de patamar, porém com resultados no mínimo controversos. Para cada 007: Sem Tempo Para Morrer (2021) – seu único trabalho digno de nota nos últimos anos – tem somado participações equivocadas, inclusive em produções de grande repercussão (sua presença em Oppenheimer, 2023, é tão discreta que muitos nem lembram). Em Nuremberg ele mais uma vez recai em seus próprios maneirismos, alternando entre uma autoconfiança irritante (um meio sorriso constante no canto do rosto acaba com qualquer credibilidade) e uma dramaticidade exagerada (o desespero que exibe a partir do envolvimento com aqueles que deveriam ser seus objetos de estudo e análise evidencia o quão incompetente enquanto profissional ele de fato fora).
Felizmente, no entanto, se de um lado há um Malek perdido e incapaz de encontrar um rumo para seu personagem, no viés oposto se encontra um Russell Crowe disposto a confirmar a enormidade do seu talento. Como Hermann Göring – personagem histórico que na citada versão televisiva foi vivido por Brian Cox, numa composição que lhe rendeu o Emmy – Crowe resgata muito da excelência vista em alguns dos seus trabalhos de maior destaque. A dinâmica que estabelece com esse psiquiatra designado a avaliá-lo tem métricas semelhantes às vistas em O Silêncio dos Inocentes (1991), porém o retrato que levanta é menos o do monstro psicopata e mais o do homem com inteligência acima da média, sempre um passo à frente dos seus opositores. É de se lamentar que o filme não esteja tão interessado nele, pois são os segredos que carrega e as artimanhas que lentamente vai conduzindo que respondem pelas melhores – e mais tensas – passagens do enredo.

James Vanderbilt é não mais do que um operário de Hollywood. Com apenas um longa anterior no currículo, e feito dez anos atrás – Conspiração e Poder (2015), que também prometia mais do que conseguiu entregar – ele tem se ocupado mais como roteirista – indicado às Framboesas de Ouro por Independence Day: O Ressurgimento (2016) – ou como produtor – é dele o recente Casamento Sangrento: A Viúva (2026). Como se percebe pelos perfis tão distintos das obras aqui citadas, eis um cineasta disposto a colocar a mão na massa, independente do que ela se propõe. Em Nuremberg agrega nomes interessantes – há ainda os veteranos Michael Shannon, no piloto automático, e Richard E. Grant, respondendo por uma única grande cena – e um dos it boys do momento, o britânico Leo Woodall (cujo personagem não possui a menor função na trama e poderia ter sido eliminado por completo sem nenhum prejuízo, mas que ainda assim se faz presente apenas para tentar atingir uma parcela mais jovem da plateia) – mas nada chega, de fato, a soltar faíscas. E assim, com condução morna, uma trilha sonora que insiste em ditar as emoções do espectador e uma montagem por vezes confusa, em outras tantas apenas inflada, o que se verifica é um registro histórico que ainda não encontrou uma transposição para o audiovisual de acordo com a sua relevância.
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