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Sinopse
Nosso Segredo acompanha uma família mergulhada no luto que atravessa os cômodos da própria casa em silêncio, cada integrante preso à própria dor. Incapazes de conversar abertamente sobre a perda que os abalou, eles se afastam aos poucos, transformando o lar em um espaço de distâncias e ressentimentos contidos. A dinâmica muda quando o filho mais novo decide revelar um segredo guardado. Drama/Família.
Crítica
Aquilo que se opta por não revelar, por vezes nem para si próprio, pode tanto ser o elemento de união entre os que carecem por pertencimento, como também a origem da cisão que não tardará em se manifestar. Em Nosso Segredo, longa de estreia no formato da diretora e roteirista Grace Passô (ela antes havia codirigido o média Vaga Carne, 2019, ao lado de Ricardo Alves Jr., e o curta República, 2020), privilegia tanto a performance de um elenco que prima pela coesão, evidenciando o histórico da realizadora também como (premiada) atriz, como também a palavra, o texto e os diálogos, estejam estes presentes ou em destaque justamente pela ausência. Há muito, e isso é um fato que lentamente vai ser percebido pela audiência, a ser dito entre os membros dessa mesma família. Aqui, porém, mais difícil do que escolher o que precisa vir à tona, é saber ao certo ainda o quando e o como. Não se trata apenas de derrubar essas barreiras invisíveis que os conectam e afastam. Mas se apropriar do momento, reconhecer qualquer eventual abertura e fazer uso da força que o outro irá reconhecer como apropriada. Um jogo constante e exaustivo, que eleva o conjunto para além de uma condição genérica que por vezes o todo poderia se aproximar.

Trata-se de uma história de e sobre pessoas, acima de tudo. Sobre as que permanecem e resistem. Mas também sobre as que partiram, que não mais estão em cena, aquelas que se sentem, mas também se recusam a ir embora. Nas memórias, mas não somente: as influências que insistem em se manifestar, como fantasmas que evitam o desapego. Elas estão na atenção que o motorista dedica ao seu passageiro, à garota que não consegue se abrir com o namorado, à tia que resiste em assumir o que não mais pode ser disfarçado, ao filho que se mostra incapaz de proferir a mais simples das expressões, a mãe que se isola dos que estão ao seu lado para dar atenção àquela que somente por meio de uma tela consegue se aproximar. E na recusa do caçula em assumir o que dele os demais esperam. Um cumprimento cordial de suas (parcas) obrigações. O menino que a tudo e todos observa. Não como um anestesiado frente a um feed contínuo. Mas tal qual um analista que absorve, reflete e espera pelo passo seguinte a ser dado.
Passô já foi quatro vezes indicada por suas atuações ao Prêmio Grande Otelo, ganhou duas vezes o Candango em Brasília e em outras duas ocasiões levou para casa o Troféu Redentor no Festival do Rio. Uma das mais celebradas atrizes a surgir no cenário brasileiro na última década, ela agora se debruça sobre a artesania do fazer cinematográfico tendo como espaço de exercício os mistérios guardados e escondidos dentro de uma casa na qual sempre parece caber mais um, mas que mesmo assim estes que ali habitam em mais de uma passagem se mostram relutantes tanto em partir, quanto em ficar. O fato da diretora ser também uma intérprete de talento comprovado colabora no alcance que estes por ela selecionados demonstram, tanto em conjunto, como em seus momentos individuais. Não seria exatamente o caso do todo ser maior do que as peças em separado, confirmando-se mais como um exemplo de raro equilíbrio, no qual tanto suas partes alcançam brilho próprio, como também a união que apresentam se confirma mais do que suficiente para dotar o todo de uma personalidade própria.
Robert Frank, que atuou ao lado de Passô em No Coração do Mundo (2019), é o primeiro a surgir em cena, já ganhando pontos por um carisma que logo será compartilhado. Os músicos – e estreantes como atores – Jessica Gaspar e Flip possuem participações pontuais, cada um gerando interesses próprios em relações às jornadas por eles percorridas. Marisa Revert (O Natal dos Silva, 2025) possui luz suficiente para despertar uma curiosidade a respeito de um atalho bastante pessoal, quase responsável por um mini-spin-off. Mas quem ilumina a tela, sendo pelo olhar pesado e repleto de significado que empresta a cada uma das situações nas quais se vê envolvida, como – e muito – pela energia que oferece ao ambiente em cada manifestação, é a matriarca, vivida com sabedoria por Ju Colombo (Narciso, 2026). Ela só não rouba o filme para si pois no centro de todos os acontecimentos – e reflexões – está o pequeno Efraim Santos, um achado particularmente feliz da cineasta que por meio de seus olhos infantis oferece a essa combinação de elementos um ar mágico, mas ao mesmo tempo melancólico, que funciona por meio de num encaixe preciso. Ele é o detalhe, portanto, que termina por fazer a diferença.

De aparência amigável e invariavelmente representado como fofo e exuberante, o hipopótamo é também descrito, por estudiosos e conhecedores da fauna, como um dos mais selvagens e aguerridos animais, capaz de destruir inimigos em poucos movimentos quando se vê ameaçado. Assim também pode ser a família, hábil em reconhecer suas fragilidades e deficiências, mas para si, cuidando de suas feridas e fortalecendo-se para o desafio seguinte (a vida é uma sucessão destes), sem, no entanto, permitir que essa recuperação se torne visível àqueles em condição externa. Como um ciclo que se completa, Nosso Segredo olha para o barro do qual cada um foi feito como matéria-prima para esse levantar da cabeça, seguir em frente e não abrir mão da bagagem que se traz consigo. Não que um filme necessite de manual para ser compreendido, o que por vezes parece ser o caso. O que Grace Passô oferece está mais no campo do sentimento, e menos na razão. Uma vez isso claro, as nuvens, enfim, começam a se dissipar.
Filme visto durante o 54º Festival de Gramado, em agosto de 2026
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