Crítica

Os ritos de passagem da adolescência para a vida adulta são uma fonte inesgotável para as artes. Isto porque causa marcas indeléveis que acabam influenciando o resto de nossas vidas. Um dos mais utilizados no cinema é a primeira desilusão amorosa. Na Carne e Na Alma, último filme dirigido por Alberto Salvá (1938-2011), um catalão radicado no Brasil, é sobre isso. E mais: é sobre o lado feio do desamor. O comum, o não-cinematográfico é o que importa no filme. Seu protagonista é Rodrigo, um mulherengo que foge do estereótipo de galã. Dependendo da preferência do público, pode até ser tachado de feio. Mas sua lábia e disponibilidade o permite levar para cama, todos os dias, uma garota diferente. Na narração em off, entrega sua técnica do sedutor. Segundo ele, é a teoria do girassol. Você incide luz sob uma mulher e ela se volta inteira para você. Não funciona na vida real, mas no universo paralelo criado por Salvá, ela é certeira.

Rodrigo vê seu cotidiano de sexo casual desabar ao conhecer Mariana, sua colega na faculdade cara que frequenta mais para sair do tédio do que para conseguir um diploma. O que era mais uma transa torna-se uma paixão avassaladora. Pelo menos no sentido que o roteirista entende do tema. Rodrigo chama de amor algo que pode ser melhor definido como compulsão sexual, já que suas declarações para Mariana sempre envolvem partes do corpo. Ele quer o baço, o fígado, o ânus, a boca, enfim, quer sua amada inteira. E acha que isso é amor, ao ponto de trocar confidências com um amigo com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança. As brigas do casal sempre são resolvidas na cama. Óbvio que o sexo é parte importante de uma relação, mas entre Rodrigo e Mariana não há mais nada além dele, por mais que Na Carne e Na Alma tente convencer do contrário.

Além do machismo contido no roteiro, o filme tem problemas técnicos nítidos até pelo mais novato dos espectadores. Realizado em digital, não há nenhuma preocupação em transformar Niterói, cenário da história, em cartão-postal, mas também não há jogo de câmera que sustente a tal complexidade que o protagonista tenta passar. As atuações são medíocres e a caracterização também não ajuda a diminuir o problema. Mariana aparenta ter entre 25 e 30 anos, mas o figurino é de adolescente no Ensino Médio. Em uma das cenas, ela diz que foi ao psicanalista. Mas e a menina fútil, onde se meteu? A presença de livros como Os Irmãos Karamazov e Noites Tropicais em cena dão a entender que Rodrigo é um garoto culto, mas basta o primeiro diálogo para descobrirmos que algo está falho na construção do personagem.

Na Carne e Na Alma não tem pudores em mostrar o sexo, o que é um trunfo em meio a algumas produções puritanas do nosso cinema. Mas de nada adianta exibir peitos e pênis e esquecer do que existe além do corpo. Citar autores e ouvir chorinho não bastam para que se acredite que Rodrigo é um garoto inteligente. A produção chega ao fim e só conseguimos defini-lo como alguém que não superou a fase anal ou mais um idiota que acredita que amor de verdade é penetrar todos os buracos de sua parceira. Se fosse melhor desenvolvido, talvez tivéssemos uma releitura interessante das melhores produções da Boca do Lixo paulistana, como o clássico A Mulher que Inventou o Amor (1979), de Jean Garret. Mas Na Carne e Na Alma não arrepia e o que podia ser um tesão de filme, torna-se uma decepção inesquecível.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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