Michael

Crítica


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Sinopse

Em Michael, a trajetória do Rei do Pop, vencedor de 13 prêmios Grammy, é acompanhada desde os primeiros passos como líder dos Jackson Five até sua consolidação como um dos maiores artistas da música mundial. Explora também os bastidores de sua carreira e a busca constante por inovação e reconhecimento no meio. Biografia.

Crítica

Um dos ensinamentos mais marcantes a qualquer criança que já tenha passado por uma sala de aula é o que aponta as características básicas da água: insípida, inodora e incolor. Bom, a partir de agora estas mesmas definições poderão ser aplicadas a Michael, a cinebiografia do ícone pop Michael Jackson. Se desprovido de cheiro já era esperado, por outro lado esperava-se um gosto nostálgico, tanto de descoberta, quanto de rememoração de passagens marcantes da vida do astro. Porém, assim como o próprio cantor afirmou em sua canção “Black or White” que não importa qual é a sua cor, o diretor Antoine Fuqua parece ter interpretado tal verso ao pé da letra, desprovendo sua leitura de qualquer matiz relevante. Eis, enfim, um filme que é mais do que ‘chapa branca’, como muitos temiam: é praticamente transparente, tão fácil é antecipar qualquer um dos seus movimentos, ao mesmo tempo em que joga do início ao fim pensando apenas em uma plateia cativa, aquela que sabe bem o que quer e está feliz em receber exatamente o esperado. Sem surpresas, sem novidades, sem revelações. Enfim, sem nenhum olhar crítico.

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E isso que está se falando de uma das figuras mais controversas e polêmicas do último século. Falecido aos 50 anos, em 2009, Michael Jackson foi gigante. Muito se fala de Elvis Presley, ou mesmo dos Beatles, e se é certo que estes possuem suas grandezas incontestáveis, é ainda mais impressionante perceber que MJ foi maior do que todos eles. Ainda assim, esse legado é minimizado atualmente, localizando-se à sombra de acusações, denúncias e alegações não comprovadas ou decididas por meio de acordos judiciais feitos nos bastidores. Fuqua, ao lado do roteirista John Logan – este três vezes indicado ao Oscar, inclusive pelo vencedor de Melhor Filme Gladiador (2000) – sabiamente foge deste terreno perigoso, encerrando a trajetória aqui descrita no final dos anos 1980 (mais precisamente em 1987, ano de lançamento de “Bad”). Sim, pois assim como Wicked (2024) também não denunciava no título seu caráter sequencial, da mesma forma Michael reserva apenas para os momentos finais dos créditos de encerramento a revelação de que “the story continues”. Se de fato uma sequência irá acontecer, apenas o tempo – e os números das bilheterias, evidentemente – poderão dizer.

Portanto, o que se tem é uma trama de origem, preocupada em revelar de onde o homenageado veio e como se deu sua ascensão ao posto de “rei do pop”. A questão é que, a partir da decisão em desenvolver a narrativa de modo cronológico, com um passo sendo descrito após o outro, qualquer desvio do já conhecido por milhares se inviabiliza, uma vez que o traçado se mostra previamente determinado. Outro ponto importante é a necessidade de conflito, algo a ser superado, que possa ser identificado pela audiência e compartilhado por essa em sua necessidade de provação e conquista, algo que basicamente inexiste em Michael. Eis, enfim, um filme sem crise, sem instabilidade, sem tensão. O vilão, ou ao menos aquele que mais se aproxima disso, é declarado desde o início: o patriarca Joseph Jackson, aqui interpretado por Colman Domingo. O ator duas vezes indicado ao Oscar faz o que pode com o pouco que lhe é oferecido, mas acaba submerso por uma maquiagem carregada e uma exposição controlada, que tanto o demoniza, como por outro lado ameniza sua influência. Há apenas uma cena de violência contra o filho caçula, e isso ainda na infância – em uma época que “normalizava” pais baterem em suas crianças. Na maior parte do tempo, o que se tem é um embate verbal entre os dois, com o senhor exercendo sua autoridade paternal para controlar o rebento, enquanto que esse se confirmava frágil e inseguro. O pai, portanto, é uma caricatura, e não mais do que isso.

Mas se durante a maior parte do tempo Michael fez parte do conjunto Jackson 5, onde nessa história se encaixam os irmãos Jermaine, Jackie, Marlon e Tito? No fundo da cena, apenas compondo o cenário. Menos do que coadjuvantes de suas próprias trajetórias, os quatro são vistos como não mais do que figurantes. E os demais? La Toya aparece somente para confirmar a superioridade do homem que os controla em uma sequência tão expositiva que chega a causar embaraço (quando o irmão a deixa em seu quarto, para atender a um chamado de negócios, em companhia de uma cobra gigantesca que criava como estimação e que, segundo ele, estaria “com muita fome” – a analogia é imediata e óbvia). E se as ausências de Rebbie e de Randy podem não despertar curiosidade, uma vez que suas carreiras como músicos não chegaram a alcançar repercussão, o que dizer de Janet Jackson, que nem mesmo é mencionada? Ela é a única que chegou a rivalizar com o irmão em termos de vendas e popularidade. Seu apagamento do filme – uma vez que vem da mesma família, morava na mesma casa e provavelmente enfrentou problemas de influência familiar e abuso moral tanto quanto ele – chega a ser vergonhoso.

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Muito tem se falado sobre a semelhança de Jaafar Jackson, o escolhido para interpretar Michael Jackson. Sobrinho do cantor na vida real, representa com exatidão um exemplo de nepotismo: sem nunca ter atuado, ganhou essa oportunidade pelos laços familiares e herança genética. De fato, a reprodução que faz dos olhares, trejeitos e maneiras de se portar do tio impressiona, mas é apenas isso: cópia. Não há criatividade por trás do que apresenta, apenas uma imitação – assustadoramente perfeita, sim, mas desprovida do toque pessoal que somente um artista é capaz de prover. Sobre as participações de Laura Harrier, Miles Teller ou Mike Myers, então, é preferível ignorá-las para não gerar ainda maiores constrangimentos, do tanto de nada que entregam. Esvaziado em sua proposta – mesmo quando essas oportunidades se apresentam, como o caso da MTV se negar a exibir os videoclipes do artista pelo simples fato dele ser negro – e carente de conteúdo, resta apenas uma imensa platitude de cenas antológicas nos palcos, contagiantes e envolventes pelo que Michael Jackson foi, mas não pelo que Michael, o filme, apresenta – afinal, essas mesmas podem ser conferidas a qualquer momento no Youtube. Um presente para os fãs radicais, mas desprovido de atrativos válidos para qualquer um preocupado menos com o cantor, e mais com o cinema.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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