Crítica


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Sinopse

Revisita a vida e obra de Maria Martis, uma escultora, gravurista, pintora, desenhista e escritora, conhecida principalmente pelo seu talento aproximado ao surrealismo. Através de entrevistas, o longa apresenta parte da trajetória de Maria desde seus estudos na Europa com Oscar Jespers, em Bruxelas, e sua relação amorosa e artística com Marcel Duchamp, quando foi erradicada nos EUA.

Crítica

A história da arte no Brasil está repleta de nomes que ainda possuem um reconhecimento muito maior no exterior do que internamente. Um caso notório é o da escultora, desenhista e escritora Maria Martins (1894 – 1973), figura-chave do movimento surrealista na década de 1940, cuja importância vem sendo (re)descoberta pelos brasileiros nos últimos anos, através de eventos como a retrospectiva realizada no MAM-SP, em 2013, em memória dos quarenta anos de seu falecimento, e de publicações como a do minucioso e luxuoso livro Maria, lançado pela Cosac Naify em 2010. É também de maneira bastante detalhada que essa personagem invulgar do cenário artístico nacional é investigada pelo documentário Maria: Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos, de Francisco C. Martins.

A trajetória transgressora da mineira Maria começou ainda nos anos 1920, quando se separou do historiador Otávio Tarquínio de Sousa para se casar com o embaixador Carlos Martins. A atitude, inconcebível para os padrões da época, gerou grande polêmica, levando-a a perder a guarda da filha e até o apoio da própria mãe, que tomou partido de Otávio. Ao lado de Carlos, iniciou uma vida peregrina de diplomata, mudando-se para países diferentes com frequência. Foi em sua estadia em Bruxelas/Bélgica que, não sendo capaz de se adequar à posição de submissão esperada de uma embaixatriz, passou a se interessar pela escultura, tendo aulas com o expressionista Oscar Jespers. O mergulho definitivo no ofício ocorre quando Carlos é transferido para os Estados Unidos e Maria finalmente monta seu ateliê em Nova York.

Iniciando o longa com planos de proximidade com a natureza (imagens de troncos e raízes), o diretor evoca as influências de parte da obra de Maria, inspirada pelos mitos e símbolos amazônicos, como Iara. Essa escolha reafirma também a postura da artista que, mesmo sendo uma mulher cosmopolita, nunca renegou suas origens, como denota o próprio título do documentário, retirado de uma de suas esculturas. A narrativa segue uma estrutura cronológica ordenada, apresentando o passo a passo de seu desenvolvimento artístico e pessoal. Assim, acompanhamos a tentativa de uma primeira exposição, frustrada pela intensificação dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, e a consequente concretização da mesma em Nova York que, apesar de não ter sido um grande sucesso, foi suficiente para chamar a atenção de André Breton, responsável por introduzi-la ao círculo dos expoentes surrealistas da época.

Através de Breton, Maria se aproxima de Mondrian e, especialmente, de Marcel Duchamp, com quem inicia um relacionamento amoroso. A partir do ato central, essa relação passa a dominar o foco narrativo, contudo, o realizador o faz sem adotar um tom sensacionalista ou explorando o nome de Duchamp em vão. Ele o faz, sim, para ressaltar uma percepção defendida pelos especialistas, historiadores e artistas, estrangeiros e brasileiros, entrevistados: a de que, ao contrário do que se poderia imaginar a princípio, a influência de Maria sobre Duchamp foi muito mais profunda do que efetivamente a dele sobre a escultora. O caso dos dois se baseava numa troca tanto afetiva – ainda que velada - quanto criativa, algo percebido com clareza na última grande obra de Duchamp, Étant donnés, resultado de um processo de vinte anos e que tem justamente Maria como protagonista: é dela o modelo do corpo feminino nu visto através dos buracos feitos numa porta de madeira.

Étant donnés dialoga diretamente com o cerne do trabalho de Maria, carregado de uma sexualidade exposta abertamente, de um erotismo latente e incomum para o período, ainda mais vindo de uma mulher. Tais elementos são reflexos da personalidade da escultora, lasciva e expansiva, que gerava um fascínio quase unânime, e que também fez dela um símbolo pulsante de uma arte feminista que, hoje, como aponta uma das especialistas entrevistadas, merece ser colocada ao lado de figuras consagradas como Frida Kahlo – a quem Maria visitou no México. Se valendo de um vasto acervo de imagens dos trabalhos, cartas, vídeos e fotografias particulares, o longa transmite com eficácia o olhar instigante e o desejo de subversão da protagonista, externado através da exploração do corpo humano, que tem como exemplo definitivo sua criação mais celebrada, O Impossível, que para muitos simboliza a impossibilidade da plenitude carnal do relacionamento com Duchamp.

Mesclado a este material, o documentário apresenta encenações – protagonizadas pelos atores Celso Frateschi e Lúcia Romano - de artigos escritos por Maria para o Correio da Manhã, da entrevista concedida a Clarice Lispector e de cartas trocadas com Duchamp, além de depoimentos de familiares, com destaque para sua filha, que ajudam a cobrir o campo pessoal da história. Mesmo que seja ligeiramente convencional em sua forma, se tomarmos como base o espírito inovador da biografada, e que a presença de Malu Mader não acrescente muito como interlocutora, Maria: Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos cumpre bem o papel de se aprofundar tanto na figura humana quanto na artista, despertando a curiosidade e reiterando a admiração por uma mulher única e de papel essencial na propagação da arte no Brasil a partir da década de 50 – tendo se envolvido diretamente na organização das três primeiras Bienais. Uma mulher que destroçou paradigmas, estabelecendo uma conexão entre seu país e o resto do mundo, indo infinitamente além de sua posição inicial de “esposa do embaixador”.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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