Máquina de Guerra
-
Patrick Hughes
-
War Machine
-
2026
-
Reino Unido / Austrália / Nova Zelândia / EUA
Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em Máquina de Guerra, uma equipe de elite dos Rangers do Exército dos EUA participa de um intenso treinamento em área isolada quando uma ameaça inesperada surge. O que começa como um exercício estratégico rapidamente se transforma em uma batalha real contra uma força alienígena desconhecida e letal. Ação.
Crítica
Os Estados Unidos ainda sustentam, com insistência, a ideia de “terra da liberdade”. Nesse pacote simbólico, o alistamento militar voluntário sempre ocupou lugar curioso: se não é obrigação, torna-se escolha – e, como tal, precisa ser constantemente legitimado. Hollywood, há décadas, cumpre esse papel com eficiência. Se há obras que tensionam esse imaginário – como Glória Feita de Sangue (1957) ou Nascido em 4 de Julho (1989) – o volume de produções que glorificam o heroísmo militar é incomparavelmente maior. Máquina de Guerra, dirigido por Patrick Hughes, se encaixa sem esforço nesse segundo grupo. E, em tempos de desgaste da imagem do exército americano no cenário internacional, a solução encontrada parece sintomática: deslocar o inimigo para fora do próprio planeta.

Na trama, Alan Ritchson interpreta 81, fuzileiro de elite moldado para o combate e marcado por trauma pessoal – a perda do irmão, vivido por Jai Courtney. Em busca de ascensão, ele retorna a um ambiente de treinamento que remete diretamente ao imaginário militar mais tradicional: gritos, disciplina extrema e a lógica do “limite como virtude” – lembram do “pede pra sair!” em Tropa de Elite (2007)? Esse primeiro movimento ancora o filme em terreno conhecido. No entanto, a virada não tarda: o que começa como drama bélico rapidamente incorpora elementos de ficção científica, quando ameaça de origem desconhecida passa a exigir resposta à altura.
A transição de gênero, em tese, poderia ampliar as possibilidades do projeto. Há, inclusive, algo instigante nesse deslocamento – algo que remete à quebra abrupta vista no recente – e multipremiado – Pecadores (2025), quando uma narrativa aparentemente estável se reinventa de forma inesperada. Aqui, porém, a mudança funciona mais como justificativa do que como reinvenção. A primeira meia hora se dedica a reafirmar valores clássicos: superação física, obediência irrestrita e culto à hierarquia. Quando o inimigo surge, ele já não precisa ser compreendido – apenas eliminado. E talvez resida aí o ponto mais revelador: em um mundo onde conflitos reais se tornaram politicamente complexos, o adversário ideal passa a ser aquele que não pertence a este planeta.
Nesse contexto, o filme pouco se interessa por seus próprios personagens. 81 carrega dores, traumas e dilemas, mas tudo isso é rapidamente absorvido pela engrenagem narrativa que o transforma em instrumento. Hughes, que já havia flertado com esse tipo de espetáculo em Os Mercenários 3 (2014), aposta novamente na fisicalidade como motor principal. O corpo de Ritchson importa mais do que qualquer construção psicológica. Não por acaso, seu personagem resiste, apanha, levanta – mas raramente evolui. E se houve alguma inspiração na atmosfera da saga Predador, vale ressaltar que nenhuma sequência de ação aqui é memorável – até porque o oponente é um tanto esquecível.

Ao final, Máquina de Guerra se revela menos como narrativa e mais como vitrine. Há um fiapo de história, mas ele serve sobretudo para sustentar uma lógica já conhecida: a de que o sacrifício individual encontra sentido na defesa de algo maior. Resta, então, o desconforto inevitável. Em um cenário onde o heroísmo militar já foi tantas vezes questionado, ainda há espaço para esse tipo de exaltação? E, mais importante, até que ponto essa escolha – voluntária, vale lembrar – precisa ser constantemente romantizada? Talvez o filme não tenha interesse em responder. Mas as perguntas permanecem.
Últimos artigos deVictor Hugo Furtado (Ver Tudo)
- Verdade e Traição - 2 de abril de 2026
- A Mulher Mais Rica do Mundo - 2 de abril de 2026
- Máquina de Guerra - 30 de março de 2026

Deixe um comentário