Máquina de Guerra

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Sinopse

Em Máquina de Guerra, uma equipe de elite dos Rangers do Exército dos EUA participa de um intenso treinamento em área isolada quando uma ameaça inesperada surge. O que começa como um exercício estratégico rapidamente se transforma em uma batalha real contra uma força alienígena desconhecida e letal. Ação.

Crítica

Os Estados Unidos ainda sustentam, com insistência, a ideia de “terra da liberdade”. Nesse pacote simbólico, o alistamento militar voluntário sempre ocupou lugar curioso: se não é obrigação, torna-se escolha – e, como tal, precisa ser constantemente legitimado. Hollywood, há décadas, cumpre esse papel com eficiência. Se há obras que tensionam esse imaginário – como Glória Feita de Sangue (1957) ou Nascido em 4 de Julho (1989) – o volume de produções que glorificam o heroísmo militar é incomparavelmente maior. Máquina de Guerra, dirigido por Patrick Hughes, se encaixa sem esforço nesse segundo grupo. E, em tempos de desgaste da imagem do exército americano no cenário internacional, a solução encontrada parece sintomática: deslocar o inimigo para fora do próprio planeta.

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Na trama, Alan Ritchson interpreta 81, fuzileiro de elite moldado para o combate e marcado por trauma pessoal – a perda do irmão, vivido por Jai Courtney. Em busca de ascensão, ele retorna a um ambiente de treinamento que remete diretamente ao imaginário militar mais tradicional: gritos, disciplina extrema e a lógica do “limite como virtude” – lembram do “pede pra sair!” em Tropa de Elite (2007)? Esse primeiro movimento ancora o filme em terreno conhecido. No entanto, a virada não tarda: o que começa como drama bélico rapidamente incorpora elementos de ficção científica, quando ameaça de origem desconhecida passa a exigir resposta à altura.

A transição de gênero, em tese, poderia ampliar as possibilidades do projeto. Há, inclusive, algo instigante nesse deslocamento – algo que remete à quebra abrupta vista no recente – e multipremiado – Pecadores (2025), quando uma narrativa aparentemente estável se reinventa de forma inesperada. Aqui, porém, a mudança funciona mais como justificativa do que como reinvenção. A primeira meia hora se dedica a reafirmar valores clássicos: superação física, obediência irrestrita e culto à hierarquia. Quando o inimigo surge, ele já não precisa ser compreendido – apenas eliminado. E talvez resida aí o ponto mais revelador: em um mundo onde conflitos reais se tornaram politicamente complexos, o adversário ideal passa a ser aquele que não pertence a este planeta.

Nesse contexto, o filme pouco se interessa por seus próprios personagens. 81 carrega dores, traumas e dilemas, mas tudo isso é rapidamente absorvido pela engrenagem narrativa que o transforma em instrumento. Hughes, que já havia flertado com esse tipo de espetáculo em Os Mercenários 3 (2014), aposta novamente na fisicalidade como motor principal. O corpo de Ritchson importa mais do que qualquer construção psicológica. Não por acaso, seu personagem resiste, apanha, levanta – mas raramente evolui. E se houve alguma inspiração na atmosfera da saga Predador, vale ressaltar que nenhuma sequência de ação aqui é memorável – até porque o oponente é um tanto esquecível.

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Ao final, Máquina de Guerra se revela menos como narrativa e mais como vitrine. Há um fiapo de história, mas ele serve sobretudo para sustentar uma lógica já conhecida: a de que o sacrifício individual encontra sentido na defesa de algo maior. Resta, então, o desconforto inevitável. Em um cenário onde o heroísmo militar já foi tantas vezes questionado, ainda há espaço para esse tipo de exaltação? E, mais importante, até que ponto essa escolha – voluntária, vale lembrar – precisa ser constantemente romantizada? Talvez o filme não tenha interesse em responder. Mas as perguntas permanecem.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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