A Noiva do Ano

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Sinopse

Em A Noiva do Ano, após ver seu sonho de formar uma família desmoronar, Lienkie decide traçar um plano para participar do maior concurso de matrimônios do país. Ao entrar na competição, ela transforma a própria frustração em estratégia, enquanto lida com sentimentos de vingança e reconstrução pessoal. Comédia.

Crítica

Há uma zona de conforto nas comédias românticas que parece viver em eterno piloto automático. Trocam-se cenários, mudam-se nacionalidades, surgem novos rostos… mas quase tudo continua exatamente no mesmo lugar. A Noiva do Ano, dirigido por Joshua Rous, chega ao streaming sem qualquer intenção real de reinventar o gênero. Seu elemento mais curioso talvez esteja justamente fora da trama: trata-se de uma produção sul-africana ligada à cultura afrikaner, grupo étnico descendente, majoritariamente, de colonizadores holandeses, alemães e franceses que ajudaram a moldar parte da identidade branca conservadora do país ao longo do século XX. Há um interesse antropológico inicial nesse recorte, claro. Mas ele rapidamente se dilui em filme colorido, cheio de piadinhas e embalado como entretenimento leve de catálogo. Tudo muito fácil, rápido e, sobretudo, passageiro.

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Na trama, Lienkie (Carine Rous) foi criada em orfanato e sempre sonhou em construir a família perfeita. O problema é que esse conto de fadas desmorona quando ela flagra o noivo com outra mulher pouco antes do casamento. Ainda assim, surge uma última chance de participar da prestigiada competição “Noiva do Ano”, espécie de torneio nacional que premia o casamento ideal. Sem marido disponível, ela faz acordo com Frank (Bouwer Bosch), homem com quem inicialmente não se entende, para fingirem relacionamento perfeito diante dos jurados. A partir daí, o filme mergulha sem medo na cartilha mais clássica das comédias românticas: convivência forçada, trocas de farpas, aproximação gradual e sentimentos que nascem onde antes havia irritação.

O problema é que tudo isso soa como um grande desfile de clichês reciclados. A excitação inicial do casal preso em uma mentira conveniente, os conflitos artificiais, os diálogos que parecem sempre caminhar para a frase de efeito mais pronta possível. Nada realmente respira autenticidade. É um cinema de platitudes, recheado de lições fáceis e emoções mastigadas, incapaz de sustentar perguntas mais profundas sobre os próprios personagens. Ainda assim, Carine consegue manter parte do interesse vivo. Há entrega genuína em sua interpretação, principalmente quando o texto permite pequenas brechas de vulnerabilidade. Porém, mesmo ela não escapa completamente de um arquétipo bastante antiquado: o da mulher que ainda parece sonhar afetivamente sob códigos emocionais de outro tempo, quase como se o século XXI jamais tivesse chegado às relações dessa narrativa.

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Mas existe outro desconforto pairando sobre A Noiva do Ano, e esse talvez seja mais difícil de ignorar. Embora seja um filme profundamente ligado à cultura afrikaner e claramente pensado para esse público, chama atenção a ausência quase completa de pessoas negras em cena. Segundo dados do South Africa Gateway, mais de 81% da população sul-africana é negra. Ainda assim, o país retratado pelo filme parece existir em espécie de bolha isolada dessa realidade. Não se trata de exigir cotas narrativas ou transformar toda obra em manifesto político, mas há algo estranhamente artificial nesse apagamento constante. E, curiosamente, isso acaba gerando mais ruído do que a própria previsibilidade da história. Porque, no frigir dos ovos, A Noiva do Ano até cumpre os requisitos básicos de uma comédia romântica de fácil consumo – só não consegue esconder o vazio que existe por trás de sua embalagem simpática.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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