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Sinopse

Na década de 1990, dois irmãos são acusados de assassinarem oito mulheres, um homem e uma criança de forma brutal na região da Serra dos Órgãos. Na cola dos suspeitos, o sargento Téo percebe que o julgamento da imprensa, polícia e sociedade local é fundamentalmente racista, e começa a ter dúvidas sobre a condenação de um deles.

Crítica

Teobaldo (Renato Góes) não é um sujeito muito bacana. Este policial militar atira em moradores negros da favela sem ter certeza de que estejam armados; ele engravida a namoradinha de 13 anos e a abandona, e se recusa a enfrentar a justiça pelo crime cometido enquanto sargento. Desde a primeira cena, Macabro se mostra disposto a perdoá-lo: primeiro, o rapaz demonstra arrependimento por fuzilar um homem segurando uma furadeira, e segundo, a própria montagem torna impossível discernir a arma da ferramenta doméstica. Como se esta clemência não fosse o bastante, o resto do roteiro se dedica a transformar o militar num herói, do tipo que soluciona o crime sozinho, protege a bela mocinha, assume suas responsabilidades paternas e até – vejam só! – se torna um grande defensor da causa negra.

A sinopse pode sugerir que se concentra na história real de dois irmãos condenados por matar mulheres no Rio de Janeiro, e depois fazer sexo com os corpos. No entanto, o caso se limita a um pano de fundo, primeiro porque o diretor Marcos Prado e o roteirista Lucas Paraízo não possuem qualquer intenção de compreender os casos. Diz-se apenas que a dupla apanhou muito na infância, algo que certamente não basta para construir o perfil psicológico de dois necrófilos (ainda que um legista-psiquiatra tente dar uma pequena aula sobre o assunto). Além disso, nunca se acompanha os crimes enquanto acontecem, apenas o pós-crime, a descoberta dos cadáveres que se afirma terem sido violentados. Como a investigação não avança de fato (Teobaldo se limita a perguntar pela região se alguém sabe de alguma coisa), o espectador fica à deriva, esperando pela próxima ligação onde alguma voz dirá que “encontraram o esconderijo dos meninos”.

Ao retirar o foco do caso real, resta a Macabro a trajetória de redenção do bom militar amigo. Renato Góes é um ator competente, buscando atenuar a idealização do protagonista numa mistura de remorso e constrangimento por retornar à cidade de seu passado. Ele faz o possível para tratar com naturalidade os diálogos escritos em registro um pouco estranho à linguagem oral. Como parte considerável do andamento da trama depende de falas explicativas, o suspense recorre a recursos artificiais, como a síndrome de C.S.I., ou “Eu sei, você também sabe”, quando um investigador explica ao outro algo de que ambos já sabem, apenas para informar o público. Mais curiosa ainda é a chegada de um desconhecido no enquadramento, respondendo a uma pergunta não dirigida a ele – caso das aparições do delegado e do tio racista.

Pelo menos, a produção é bastante competente em escolha de elenco, locações e figurinos, bem favorecidos pela direção de fotografia buscando trazer tons quentes e uma aura dourada à maioria das cenas. Exceto pelos estouros de som destinados a produzir sustos em momentos esporádicos – até quando vai se recorrer a esses truques fáceis? – o trabalho de edição de som é competente, bastante limpo, ressaltando a sutileza das composições dos atores. Existe empenho suficiente para uma produção de grande porte, infelizmente prejudicada pela escolha curiosa de ponto de vista. Quem diria que, ao retratar a história excepcional de dois necrófilos, o filme desprezaria a necrofilia, os autores do crime, os moradores da região, confiando o olhar apenas ao forasteiro desinteressado pelo caso e incapaz de desvendar os segredos do crime – até, no terço final, descobrir tudo de que precisa magicamente?

Como se não bastasse a transformação de Teobaldo num justiceiro “do bem” (para quem bandido bom é bandido morto), Macabro ainda traz um olhar contestável a questões sociais, em especial ao racismo. Não basta ter um coadjuvante negro consciente de sua posição social se ele não possui função nenhuma na trama a não ser dar a réplica ao herói branco. Não adianta denunciar o preconceito racial num letreiro final se os criminosos têm suas individualidades ignoradas pelo filme, sendo filmados sobretudo como pedaços de corpos negros sem identidade (um braço ameaçador, uma perna correndo na mata). Além disso, já está mais do que na hora de homens repensarem a representação de personagens femininas: o fetiche da mocinha bela, recatada e do lar, esperando para ser reconquistada pelo príncipe, soa anacrônico no século XXI, algo que também pode ser dito do recurso clichê de jogar duas mulheres sozinhas no escuro, apenas para serem atacadas pelo “monstro”.

Em outras palavras, o filme parte de uma história real, com implicações políticas e sociais evidentes, capaz de refletir muito sobre nossa relação com a raça, o gênero, a religião, sobre a falência da polícia e dos sistemas judiciário e carcerário. No entanto, privilegia uma fábula desconexa do mundo real, como se a intenção fosse criar a sua própria lenda urbana sobre negros perigosos que aparecem e desaparecem magicamente, a exemplo de seres mitológicos, por serem filhos de um “macumbeiro” alcoólatra e de uma mulher com maquiagem exagerada para ressaltar sua feiura e miséria. Ainda estamos bem distantes de um olhar respeitoso diante de um painel destes.

Filme visto na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2019.

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Crítico de cinema desde 2004, membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III. Passagem por veículos como AdoroCinema, Le Monde Diplomatique Brasil e Rua - Revista Universitária do Audiovisual. Professor de cursos sobre o audiovisual e autor de artigos sobre o cinema. Editor do Papo de Cinema.
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