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Sinopse

Após enterrar sua mãe falecida, o jovem Zino, de 27 anos, descobriu um grande mistério sobre seu passado. Filho de imigrantes argelinos, ele sempre acreditou que seu pai, Farid, quem não vê há 20 anos, abandonou a família e voltou para a Argélia. Agora, inesperadamente, ele recebe a notícia de que o pai nunca voltou para o seu país natal e, para completar, nunca se divorciou.

Crítica

O universo da transexualidade, para muitos, ainda é um terreno tão inóspito quanto curioso. Há vontade de desvendá-lo, porém como saber exatamente por onde dar os primeiros passos? E no mundo do cinema a situação não é diferente. Nem sempre as representações vistas na tela grande desta condição, por melhor intencionadas que sejam, acabam sendo as mais apropriadas. Pois vejamos, portanto, o longa francês Lola Pater, escrito e dirigido por Nadir Moknèche. Seu argumento é bastante simples: após a morte da mãe, rapaz parte em busca do pai, que os abandonou quando o filho ainda era criança. Ao encontrá-lo, descobre que ele, agora, é ela, e atende pelo nome de Lola. Os conflitos que irão surgir a partir dessa revelação não chegam a ser nenhuma surpresa. Frustrante, no entanto, é estarmos em 2017 e nos depararmos com uma mulher no papel da personagem-título, e não com uma transexual – como deveria ser o caso, afinal.

Talvez isso aconteça pelo fato de Nadir, ainda que nascido em Paris, carregar em seu trabalho fortes tintas do seu histórico familiar africano. Filmes como Os Encantos de Paloma (2007), sobre uma cafetina que mora na Algéria, e Goodbye Morocco (2012), sobre uma divorciada que busca sair de Marrocos em busca de uma vida mais digna, já deixavam claro esse viés feminino diante situações de intensa repressão e conservadorismo. Em Lola Pater não é diferente. O curioso, dessa vez, é perceber o choque no jovem e, por isso mesmo, supostamente mais liberal. No entanto, é ele quem carrega a herança cultural de seus antepassados, enquanto que o pai, após tantos anos vivendo como mulher, se encontra inserido em uma nova realidade, como se tivesse zerado a própria existência para dar início a uma nova, livre de amarras e antigos tabus.

Mas é claro, este é apenas um modo de ver as coisas. Lola, ou Farid, abandonou a família por medo. De rejeição, do confronto, de não ter coragem de se assumir para quem mais lhe importava. Foi embora, e começou tudo de novo. Quando o encontramos – e quando Zino, seu filho, bate à sua porta – ela é uma professora de dança, independente, dona do seu nariz e feliz ao lado da esposa. Veja bem: Farid sempre gostou de mulher – tanto que, quando virou uma, percebeu após a transição que havia se transformado, também, em homossexual. Antes hétero, agora lésbica. Por isso, o carinho e estima que sempre sentiu pela mãe de Zino nunca deixou de ser real. E se permanecia apagado sob brasas mornas, com a presença do rapaz se reacende com intensidade. Não estando ela mais viva, cabe aos dois restabelecerem os laços que os uniram, e que talvez ainda sigam no mesmo lugar.

Se a princípio Lola Pater tem essa estranheza de nos depararmos com uma mulher interpretando uma transexual, tal desconforto, felizmente, não persiste por muito, pois a responsável por este desafio é uma atriz acima de qualquer suspeita: a grande Fanny Ardant. Viúva de François Truffaut e uma das maiores divas do cinema francês, cada vez menos tem aparecido na condição de protagonista – seu último grande trabalho, antes deste, havia sido no drama romântico Os Belos Dias (2013), pelo qual foi indicada ao César. É ela que consegue disfarçar bem essa difícil situação que lhe confiam, da mulher que um dia já foi homem, tendo que ser feminina, porém no limite da caricatura, uma vez que também precisa denotar certa masculinidade, eximindo-se, no processo, de qualquer exagero. Uma tarefa árdua, como se percebe. Da qual só alguém com talento de sobra conseguiria se desvencilhar sem nenhum tropeço. Exatamente o que aqui acontece.

Zino (o jovem Tewfik Jallab, de A Marcha, 2013) e Lola se encontram em Paris. Ele ganha a vida como afinador de pianos. Ela, quando pode, adora dedilhar pelas teclas, em busca de alguma melodia. E assim que o espanto entre eles se desfaz, começam a perceber que possuem mais em comum do que poderiam imaginar, mesmo após duas décadas afastados. Afinal, o que importa é o sangue, e o de um corre pelas veias do outro. É de se lamentar, portanto, que uma mensagem bonita e singela, de tolerância e reencontro, não tenha encontrado ressonância também atrás das câmeras. A igualdade de gêneros, afinal, deve estar respaldada não apenas no discurso, mas também nos exemplos práticos. As oportunidades, as ofertas de emprego e os reconhecimentos precisam se fazer válidos a cada demonstração de esforço e mérito. Afinal, como abraçar, de fato, o diferente, se a esse não é dado espaço?

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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