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Sinopse
Em Homem-Aranha: Um Novo Dia, quatro anos após os eventos que apagaram sua identidade da memória de todos, em Sem Volta para Casa, Peter Parker vive sozinho em Nova York e se dedica integralmente ao combate ao crime. Enquanto enfrenta uma nova onda de ameaças, ele lida com mudanças físicas inesperadas e com o peso crescente de uma vida isolada.
Crítica
Sentimentos contraditórios dominam a experiência do espectador de Homem-Aranha: Um Novo Dia. Se por um lado é bom perceber que o herói está, enfim, amadurecendo e enfrentando outros tipos de desafios, agora numa esfera pessoal, e não apenas tendo que lidar com vilões que ameaçam acabar com o mundo, dessa vez Peter Parker se apresenta disposto a percorrer uma jornada de transformação e autoconhecimento. Se fosse apenas isso, o longa de Destin Daniel Cretton poderia ser visto até mesmo como revolucionário. Mas, calma, não é bem o que está sendo entregue. O subtexto existe, sim, mas há tantas distrações pelo caminho que por vezes chega-se a quase esquecer o que teria, de fato, ocorrido para que se chegasse até a esse ponto. Não mais um adolescente, o protagonista é um homem solitário, recluso e sem expectativas de melhora. Mas, como em tudo em sua vida, as coisas podem se alterar em um instante. E dessa vez, será um tanque de guerra desgovernado pelas ruas de Nova Iorque que proporcionará o início dessa mudança. Algo ao qual ele reage, veja bem. E este é o grande fato a ser observado: apesar de estar no título, o Amigão da Vizinhança é quase um coadjuvante de uma história que, fosse o contexto menos machista e misógino, teria o nome de uma mulher – uma heroína – à frente dos demais. Ela, enfim, é quem tem algo a alcançar de forma factível. Porém, falar mais do que isso seria um gigantesco spoiler.

Assim como Thomas Anderson precisou aceitar quem ele de fato é, lidar com sua mais profunda natureza, se transformar em Neo e liberar todo o seu potencial em Matrix (1999) – filme que, curiosamente, Tom Holland afirmou à época do lançamento de Um Novo Dia nunca ter assistido – Peter Parker também está frente a essa processo de mudança. Seu sexto sentido parece estar descontrolado, as teias estão se manifestando de forma orgânica e cada aventura pela cidade parece conter mais surpresas do que velhos inimigos. A inteligência artificial que o auxilia em sua vigilância o questiona: “você tem enfrentado algum tipo de estresse recentemente?”. A pergunta é óbvia, e é justamente dela que o rapaz está fugindo. Após quatro anos da morte da tia May e do feitiço lançado pelo Doutor Estranho que apagou da memória de toda a população terrestre que Peter Parker e Homem-Aranha são a mesma pessoa (eventos ocorridos em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, 2021), o jovem se tornou uma pessoa cada vez mais sozinha e isolada. Ned, seu melhor amigo, e MJ, sua antiga namorada, estão agora se formando na faculdade, felizes, com novos projetos, relacionamentos e conexões. Estão, enfim, avançando em suas vidas. Apenas ele parece ter ficado estagnado.
Mas como a grama do outro lado da cerca parece sempre ser mais verde, a realidade que Peter Parker está enfrentando também não é tão ruim quanto a de uma outra pessoa, igualmente dona de poderes muito especiais, e que acaba tendo importância fundamental para os acontecimentos aqui presenciados. Sem entrar em detalhes de sua identidade, suas motivações, perdas e intenções, pode-se dizer que Um Novo Dia marca o início de uma fase inédita não apenas para o Homem-Aranha, mas para todo o Universo Cinematográfico Marvel, abrindo a porta para toda uma leva de personagens – inclusive nos seus próprios conceitos de heroísmo – que a partir de agora passarão a fazer parte destes eventos. Parker, portanto, é pego quase que ao acaso no meio de uma missão de vingança. Ele, até mesmo por sua índole, verá aquela estranha como alguém a ser confrontado, cerceado e impedido. Porém, a dor provoca as piores reações, e isso não diz respeito apenas ao atirador de teias. Ela também foi (muito) machucada, e está apenas reagindo ao que lhe foi feito.
Eis algo válido de debate, portanto. Até que Parker perceba que havia se equivocado em sua interpretação e decida retornar à ação para reparar seus feitos, o roteiro escrito por Chris McKenna e Erik Sommers (a mesma dupla dos três longas anteriores do herói) sofre um baque considerável, apontando para uma perda de energia que levará um tempo para ser recuperada. Ter que manobrar dois clímaxes não é pouca coisa, e Cretton (em seu terceiro projeto dentro do UCM, após Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, 2021, e a minissérie Magnum, 2026) faz o melhor que pode dentro de tão desfavoráveis condições. Conta a seu favor o carisma crescente de Holland como protagonista – um caso feliz de intérprete com personagem que funciona em mais de um grau – as interações pontuais dele com Zendaya e Jacob Batalon (como MJ e Ned, respectivamente, as duas presenças que ele mais sente falta), e participações reveladoras de Bruce Banner (Mark Ruffalo, sempre competente) e Frank Castle (Jon Bernthal, mais leve do que de costume). As produções para streaming continuam revelando talentos, e os acréscimos de Liza Colón-Zayas (vencedora do Emmy por O Urso, 2022-206), Tramell Tillman (premiado com o Emmy por Ruptura, 2022-2026) e, principalmente, Sadie Sink (um dos destaques de Stranger Things, 2016-2025) oferecem tanto um ar contemporâneo ao conjunto, como agregam uma energia renovada às dinâmicas propostas.

Homem-Aranha: Um Novo Dia pode não ser o filme definitivo do herói (Homem-Aranha 2, 2004, segue ocupando esse posto), mas é certamente a melhor aparição do personagem dentro do UCM. Não apenas por lidar com perdas e consequências – algo bastante referente até mesmo às histórias em quadrinhos – mas também por uma complexidade recorrente durante o desenrolar da história. Pode não estar necessariamente no centro dos acontecimentos, mas se mostra relevante o bastante para justificar uma atenção detalhada. Sem apresentar inimigos facilmente reconhecíveis e tirando muito da pompa e circunstância que certas introduções há muito esperadas costumavam fazer jus, Cretton e a turma aqui reunida oferecem um olhar mais íntimo, quase corriqueiro, sobre o que de fato o extraordinário pode provocar – e interferir – quando em contato com vidas comuns, até mesmo banais, mas não desprovidas de respeito, sentimentos e aspirações. Como é dito por uma outra participação especial, isso tudo pode não ser mais do que “batatas pequenas”. Mas são coisas insignificantes do cotidiano que, mesmo sem dizer respeito a todos, alteram de vez àqueles com os quais seus caminhos se cruzam. O detalhe, invisível aos demais, que acaba por fazer toda a diferença.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Lucas Salgado | 7 |
| Ailton Monteiro | 7 |
| Chico Fireman | 7 |
| Ticiano Osorio | 6 |
| Leonardo Ribeiro | 7 |
| MÉDIA | 6.8 |

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