Crítica

Giacomo Casanova (Vicenç Altaió), figura histórica, famoso conquistador de mulheres, está preparando suas memórias, um livro pouco afeito a fofocas, segundo ele mais inclinado a narrar o ocaso dos impérios, os grandiosos eventos e, sobretudo, a realidade. A literatura é um espectro constante em História da Minha Morte, filme escrito e dirigido pelo espanhol Albert Serra. O protagonista, um homem letrado, sorve as palavras para delas adquirir o conhecimento essencial à sua concepção de verdade e beleza. A analogia que Casanova faz entre as sementes da romã e os capítulos de sua vindoura autobiografia expõe uma relação que unifica as diversas formas de garantir subsistência, seja ela do corpo ou do espírito, este aqui entendido mais como uma dimensão do intelecto. A prosa libertária de Casanova mira os valores religiosos, mais que isso, afronta o cristianismo, instituição de influência tentacular na Europa de então. Intelectualidade e instinto, antes de se chocarem, se complementam.

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O fato de, lá pelas tantas, Serra fazer questão de nos mostrar Casanova defecando e depois expondo seu criado à humilhante função de recolher as fezes, mostra, em consonância com outros procedimentos semelhantes ao longo do filme, a completude dos ciclos. Assim como vida e morte, sendo esta sucessora natural daquela, a evacuação nada mais é que a consequência natural, portanto ordinária, do ato de alimentar-se, que, por sua vez, possui em História da Minha Morte uma perspectiva metafórica. Casanova é um produto das experiências, a soma de tudo que viveu até ali, dos amores, das leituras e das conversas, por exemplo. A verossimilhança dessa história passada no século XVIII é evocada fantasmagoricamente pela iluminação, cujo artificialismo é mínimo. À noite, vemos mais vultos que rostos, definimos as pessoas somente por suas silhuetas difusas.

Pompeu (Lluís Serrat), fiel escudeiro de Casanova, semelhante ao Sancho Pança criado por Cervantes para acompanhar Don Quixote em sua batalha contra os moinhos de vento, é um criado lacônico, que, no mais das vezes, responde apenas quando solicitado. Personagem subaproveitado, torna-se praticamente desimportante em meio ao desenrolar penoso do filme. Os pontos de maior interesse de História da Minha Morte estão na fricção entre a erudição de Casanova e o entorno empobrecido, inclusive de significados, que se desnuda na sua frente. O libertino, porém, não parece sentir o peso da discrepância, por entender a desilusão como parte indissociável do existir, bem como do saber-se finito. Chegando numa propriedade simples, na qual moram um pai e suas três filhas jovens, os viajantes se deparam com Conde Drácula, egresso literário que Serra utiliza para contrapor racionalismo e desejo.

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História da Minha Morte sai-se muito bem quando apela ao intelecto, mas falha ao evocar a plenitude do primitivismo residente nos anseios humanos. Sustentado nessa ambivalência, de constituição prejudicada, o transcorrer se esvazia gradativamente, respirando melhor aqui e acolá por conta de segmentos específicos, tais como o que mostra Casanova masturbando uma camponesa. Ainda que haja todos esses percalços, com o filme perdendo sensivelmente o poder de interessar na medida em que prescinde da representatividade oral – um de seus pilares principais até ali – em detrimento das sensações pretensamente não suscitadas verbalmente, há muito a ser apreendido nessa realização errática, mas não banal de Albert Serra. Prova disso é o papel conferido à literatura, e, por conseguinte à ficção no geral, tanto na forma como no conteúdo, o de essência narrativa das civilizações, nutriente vital a leitores e escritores ao longo dos séculos, arcabouço que permite a História.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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