Onde Assistir
Sinopse
Em Exit 8, um homem se vê preso em um corredor de metrô aparentemente infinito e precisa seguir regras rígidas para escapar. Atento a qualquer anomalia, ele deve decidir quando avançar ou retornar, sabendo que um único erro o fará recomeçar do início. Horror/Suspense.
Crítica
Mesmo quando rendem cifras consideráveis, adaptações de games para o cinema costumam se afastar de suas propostas originais e terminar em caricaturas do que poderiam ser. A saga Resident Evil sempre estará aí para exemplo recorrente. Felizmente, Exit 8, de Genki Kawamura, segue caminho distinto. Baseado em The Exit 8, jogo indie lançado em 2023, o longa transforma uma premissa minimalista em exercício de tensão e atmosfera, articulando suspense, metáforas espirituais e inquietações contemporâneas com rigor incomum. É também a confirmação de um realizador em ascensão, cujo nome tende a circular com mais força no circuito internacional nos próximos anos.

Na trama, acompanhamos um homem identificado apenas como “Lost Man”, que retorna para casa em um dia aparentemente banal. Ao atravessar uma estação de trem, enquanto lida com conflitos íntimos ligados à possibilidade iminente de se tornar pai, ele percebe que algo está fora do lugar: corredores se repetem indefinidamente. Uma placa estabelece as regras: “siga em frente; ao notar uma anomalia, retorne”. A lógica é simples, quase lúdica, mas impõe um jogo psicológico de atenção constante. Cada erro representa retrocesso. Preso nesse labirinto, lhe resta observar, interpretar e decidir.
Mas não se engane, não há aqui o espetáculo explícito de franquias como Jogos Mortais, nem a materialização imediata do perigo. A ameaça se constrói de forma mais abstrata, muitas vezes alojada na percepção do próprio protagonista. Com tintas Lynchianas, Kawamura aposta em terror de sugestão, que encontra eco em referências como “Bolero”, de Maurice Ravel, peça baseada na repetição progressiva de um mesmo tema, que cresce até atingir um clímax quase inevitável. A lógica é semelhante: repetir, acumular tensão e deslocar gradualmente o espectador para estado de inquietação contínua.

Essa estrutura dialoga ainda com conceitos do budismo, especialmente a ideia do Samsara, ciclo de repetição condicionado por ações e desejos. Não se trata de “errar até acertar”, mas de permanecer preso a padrões que impedem o avanço. A ruptura desse ciclo, o cobiçado nirvana, exige interrupção, não aperfeiçoamento. Em Exit 8, essa lógica se conecta diretamente ao conflito central: o medo da paternidade. O protagonista não apenas percorre corredores idênticos, mas revisita responsabilidades que não sabe se está pronto para assumir. Há, por vezes, leve inclinação ao moralismo, mas nada que comprometa o conjunto.
Muito do que funciona passa pelo equilíbrio entre direção e atuação. Kazunari Ninomiya, conhecido por Cartas de Iwo Jima (2006), sustenta o filme com interpretação contida, em que o olhar comunica mais do que qualquer fala. Sua presença convida à empatia imediata, mesmo quando suas decisões são questionáveis. Ao redor dele, Kawamura demonstra domínio de ritmo e espaço, potencializado pela montagem precisa de Sakura Seya. Com poucos elementos, se constrói experiência imersiva e inquietante ao longo de pouco mais de uma hora e meia.

Já reconhecido na indústria japonesa – seja pela direção de Hyakka (2022) ou pela produção de Monster (2023), de Hirokazu Koreeda – Kawamura consolida, em Exit 8, sua habilidade de transformar premissas simples em narrativas densas. Há aqui um domínio de linguagem que ultrapassa o exercício de estilo e aponta para um olhar autoral em amadurecimento. Nesse cenário, é difícil imaginá-lo restrito por muito tempo ao circuito japonês.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Victor Hugo Furtado | 9 |
| Alysson Oliveira | 4 |
| MÉDIA | 6.5 |

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