Zico, O Samurai de Quintino

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Sinopse

Zico, O Samurai de Quintino mergulha no arquivo pessoal inédito do eterno camisa 10 rubro-negro para revisitar momentos marcantes de sua trajetória. A partir de imagens e memórias guardadas pelo próprio ídolo, o filme reconstrói sua história no Clube de Regatas do Flamengo, na Seleção Brasileira de Futebol e em sua passagem pelo futebol japonês. Documentário.

Crítica

Não conheça os seus ídolos, a menos que o seu ídolo seja o Zico”.

Antes das transferencias adoidadas, dos ingressos caríssimos e dos jogadores com a vida financeira pronta aos 15 anos de idade, houve um tempo mais simples no futebol. A era dos camisas 10. Em geral, eles partilhavam características muito claras: articuladores, eixo criativo das equipes, donos de técnica acima da média, cobradores de falta e, não raro, decisivos dentro da área. Havia também algo menos mensurável: o carisma. Pelé e Diego Maradona são os maiores representantes desse arquétipo. Em Zico, O Samurai de Quintino, de João Wainer, está o provável terceiro nome dessa linhagem. Aos domingos, o Galinho de Quintino era garantia de invenção, mesmo quando a vitória não vinha. O filme fala, sobretudo, aos convertidos, mas há ali um coração pulsante que sustenta o interesse.

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Para o público brasileiro, as cartas estão dadas. Trata-se do eterno camisa 10 do Flamengo, revisitado em pouco mais de 100 minutos. O que se vê é figura já conhecida: sorriso fácil, postura conciliadora e papel central na conquista do mundo em 1981. Quem perde, talvez, seja o espectador de fora, pois a narrativa pouco se preocupa em dimensionar o que ele representa para além de Rio de Janeiro, Brasil e Japão, limitando seu alcance simbólico. É uma escolha consciente, mas que restringe o potencial universal da história.

Como dizia Arnaldo Cezar Coelho, “a regra é clara”: não há documentário que se sustente se o biografado não estiver disposto a se expor. Curiosamente, a chegada do filme coincide com a de produções recentes sobre outros ídolos, como Ronaldinho Gaúcho, cujo material mais recente revela imensa contenção do personagem diante das câmeras. Aqui, o movimento é oposto. Zico se entrega. Fala de amores, frustrações, vitórias e fragilidades. É livro aberto. Diante disso, Wainer assume postura discreta: menos autor e mais condutor, organizando esse fluxo sem interferir em excesso.

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Outro acerto está na dinâmica das conversas. As mesas-redondas com jornalistas e ex-jogadores, ainda que breves, funcionam como espaço de troca genuína. Ali, o ídolo se coloca entre iguais, revisita episódios marcantes e humaniza a própria trajetória. Surgem histórias de início difícil, da relação com a família e do impacto do sucesso. Nesse ambiente, Zico deixa de ser estátua e se aproxima do espectador, não como mito inalcançável, mas como alguém cuja grandeza nasce também de uma certa simplicidade no modo de estar no mundo.

Ainda assim, há lacunas evidentes. O recorte exige bagagem prévia do espectador. Quem não acompanhou de perto o futebol entre os anos de 1975 e 1995 pode sentir falta de contextualização. A passagem pela Udinese, a experiência como treinador na Àsia ou mesmo o impacto de sua carreira fora do Flamengo surgem de forma lateral, quando não ausentes. Para gerações mais jovens, formadas sob a hegemonia do futebol europeu, fica a pergunta: qual era, de fato, a dimensão de Zico no cenário global? O filme sugere respostas, mas raramente as desenvolve.

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Zico, O Samurai de Quintino é retrato afetuoso e bem conduzido. Funciona como celebração e, nesse sentido, cumpre o que promete. Mas a concisão cobra seu preço. Falar de alguém dessa estatura em espaço tão limitado implica escolhas, e nem todas parecem as mais generosas com a complexidade do personagem. O resultado agrada e reafirma a importância de seu protagonista. Porém, permanece a sensação de que havia mais jogo a ser jogado.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]
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