Crítica


7

Leitores


Sinopse

Leo, um menino de 11 anos, não está tendo uma infância nada feliz. Internado em um hospital por conta de uma doença, ele não pode brincar como as outras crianças, mas, em contrapartida, tem um poder que nenhuma outra tem: pode levitar no ar sem ser visto ou tocado, enquanto seu corpo físico permanece deitado e imóvel. Usando suas habilidades, ele irá ajudar um policial de cadeira de rodas numa difícil missão.

Crítica

O apreço pelo ato de fabular e o fascínio pela atmosfera dos filmes policiais, dois dos elementos primordiais da trama de Garoto Fantasma, e que refletem as características da personalidade de seu protagonista, o jovem Léo, ficam evidentes logo na sequência que abre a nova animação dos franceses Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol. Na cena em questão, uma perseguição policial revela-se, na verdade, uma história dentro da história, extraída de um dos livros de aventuras detetivescas de Léo, e narrada por ele à sua irmã mais nova, Titi. O garoto, que sonha em se tornar um agente da lei, sofre com uma grave doença e acaba de ser internado para iniciar o tratamento. É durante a estadia no hospital que Léo descobre ser dono de uma extraordinária habilidade: fazer com que seu espírito abandone o corpo e flutue livremente pelo ar.

Ao mesmo tempo, o tenente Alex Tanguy, preso a uma cadeira de rodas, tenta encontrar o esconderijo de um misterioso vilão de rosto deformado que ameaça provocar o caos espalhando um vírus por todos os computadores da cidade. Para detê-lo, Tanguy precisará recorrer à ajuda da destemida repórter Mary Delauney e aos poderes de Léo. Com tais elementos em mãos, Felicioli e Gagnol mesclam a fábula infantil, que trata da realização dos sonhos e da superação, ao imaginário do cinema noir norte-americano. A começar pela ambientação em Nova York, a dupla se apropria dos símbolos típicos do gênero – o antagonista que veste sobretudo e chapéu, sempre acompanhado de seus capangas, as emboscadas nos estacionamentos, nas docas etc. – inspirando-se não apenas em filmes, como também nos quadrinhos, na literatura pulp e radionovelas, responsáveis por apresentar personagens icônicos, como Dick Tracy, O Sombra e The Spirit.

A figura de Tanguy surge como a representação, atualizada para a realidade contemporânea, desse universo vislumbrado e idealizado por Léo. Um universo mais sombrio que contrasta com o tom geral do longa, marcado pela leveza e até mesmo pela ingenuidade. Na missão de fundir esses pólos, Felicioli e Gagnol atingem um resultado bastante satisfatório, entregando a fantasia, o humor e a aventura sem deixar de lado o senso de gravidade que envolve os dramas expostos, como o da doença de Léo, por exemplo. Essa carga emotiva pode ser sentida no modo como os diretores constroem a delicada relação do garoto com os pais e a irmã, da qual são extraídos momentos tocantes, como aquele em que, por um instante, Léo acredita que Titi seja capaz de enxergar e ouvir sua “versão fantasma”.

Esteticamente, Felicioli e Gagnol recorrem ao mesmo estilo de animação tradicional, em 2D, visto no premiado Um Gato em Paris (2010). Trabalhando com traços estilizados, de formas assimétricas, a dupla imprime grande personalidade aos cenários, ricos em detalhes, e aos personagens, sobre os quais é lançada uma iluminação peculiar, que transmite a sensação de um movimento constante das sombras, evocando ares do cinema mudo, quase expressionistas. O vilão, cujo rosto deformado remete às pinturas de Pablo Picasso, sintetiza essa qualidade, sendo também um ótimo exemplo do tipo de humor do longa – há uma piada recorrente com suas tentativas de revelar a origem trágica de sua feição incomum. A fluidez dos movimentos também contribui para o encantamento exercido pelas imagens, especialmente nos planos aéreos noturnos de Léo sobrevoando a cidade. Entre as luzes dos edifícios, carros e telões publicitários, e a recriação de paisagens nova-iorquinas imediatamente reconhecíveis, são inseridas também várias citações cinematográficas – de Mary Poppins (1964) a Pacto Sinistro (1951), passando por Manhattan (1979), de Woody Allen.

A busca por mesclar tantos mundos, temas e referências em um curto espaço de tempo, contudo, gera algumas inconstâncias. Uma delas é o estabelecimento apressado de relações secundárias, como aquela entre Tanguy e Mary, que parece ser continuada de um ponto prévio desconhecido do público. A já referida ingenuidade de certas resoluções, em particular no que se refere à parcela policial da trama, é outro fator que pode soar como fragilidade. Ainda assim, esses pequenos deslizes não se impõem sobre as qualidades de Garoto Fantasma, que se mostra capaz de sustentar sua magia, tanto através do aspecto visual quanto da conexão emocional com seus personagens, complementados pelo ótimo trabalho do elenco de vozes - Édouard Baer, Jean-Pierre Marielle, Audrey Tautou, Gaspard Gagnol. Exaltando o poder do lúdico, como forma de enfrentar as adversidades, Felicioli e Gagnol moldam seu acervo de inspirações em algo muito particular, que faz com que sua obra se apresente como algo realmente distinto dentro do cenário das animações.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
avatar

Últimos artigos deLeonardo Ribeiro (Ver Tudo)

Veja também

Comentários