Crítica

Hollywood pode ser a terra dos sonhos, mas há aqueles que a conhecem por ser também o lar dos paraísos destruídos. M. Night Shyamalan que o diga. Alçado a posição de revelação do ano e menino de ouro ao ver seu terceiro longa, O Sexto Sentido (1999), receber seis indicações ao Oscar – inclusive a Melhor Filme e, a ele, como Melhor Direção e Roteiro Original – o jovem de origem indiana acompanhou, na década seguinte, seu nome ir, literalmente, do céu ao inferno. O ponto mais baixo de sua carreira foi com o malfadado Depois da Terra (2013) – ficção científica veículo para o astro Will Smith e seu filho, Jaden Smith, que foi indicado a Pior Filme, Pior Direção e Pior Roteiro nas Framboesas de Ouro. Parecia, portanto, que tínhamos aqui mais um caso de uma promessa não cumprida. Porém, é admirável a capacidade do ser humano – e do artista, principalmente – de se reinventar. E assim ele fez, primeiro no discreto A Visita (2015) – que arrecadou em todo o mundo quase 10 vezes o valor do seu orçamento – e, agora, com esse Fragmentado – cujo retorno nas bilheterias mundiais está em quase 30 vezes (!) o seu custo. E como ele fez isso? Sabiamente, voltando-se a si próprio.

E a tarefa não foi das mais simples. Isso porque o protagonista, aos moldes do clássico Psicose (1960), não é o mocinho – e, sim, o vilão. James McAvoy – ocupando a vaga deixada em aberto por Joaquin Phoenix – é Kevin Wendell Crumb, mas não só. Ele é também Patricia, uma jovem de sotaque britânico e fã de golas rolê, Hedwig, uma criança de 9 anos, Barry, um estilista sempre ligado no ‘último grito da moda’, ou Orwell, um rapaz diabético. Ao todo, Kevin convive com 23 personalidades diferentes dentro de si. Diagnosticado com um sério distúrbio comportamental, sua condição nunca foi levada muito à sério, ao menos até ele encontrar a Dr. Karen Fletcher (Betty Buckley, de Fim dos Tempos, 2008), que parece não só entendê-lo, mas compreender a real dimensão do seu poder. Sim, pois essa é a palavra chave aqui: “poder”. Afinal, como é dito em cena, e se aqueles que passam por eventos traumáticos, ao invés de serem considerados “menos” por todos os outros fossem, de fato, “mais”? E se uma tragédia, um desastre, uma desilusão, ao invés de trancar o afetado em si mesmo, o abrisse a novas opções, realidades e, principalmente, possibilidades?

Sim, pois esta é a teoria por trás de Fragmentado: Kevin não é uma pessoa qualquer, pois, apenas com a força do pensamento, consegue se transformar em outra pessoa – desde que essa já habite nele ou, como insiste em afirmar, abra-se espaço para que mais uma surja e, enfim, “venha para a luz”. E com o anúncio de uma vigésima quarta persona – a Besta – com características ainda mais imprevisíveis, algo precisa ser feito. E qual a atitude dele? Sequestrar três garotas no estacionamento de um shopping center. Uma vez trancafiadas, elas não poderão ser vistas, tocadas e nem molestadas – ao menos pela maioria deles, é claro. Tem-se dois filmes, portanto: um thriller de enclausuramento, bem aos moldes do recente Rua Cloverfield 10 (2016) e outros tantos similares, e um outro, ainda mais denso e controverso, sobre esse homem que se diz não ser um só, abrindo uma porta para o inesperado – tão ao gosto de Shyamalan – que dificilmente poderá ser contida.

Caso se decidisse por um caminho ou outro, é bem provável que o diretor fosse bem sucedido – e só. Ele deseja mais, no entanto, e isso é evidente. Não por acaso a referência inicial ao clássico de HitchcockShyamalan não quer ser apenas um autor, ele busca ser também uma ‘assinatura’. Quer ser reconhecido, esperado, aplaudido até mais que suas histórias ou personagens. Neste ponto, acaba voltando-se a outro colega de profissão, este mais contemporâneo – e competente – Quentin Tarantino. E as semelhanças entre os dois vão além. Sim, pois se Tarantino já afirmou que as tramas de seus filmes se passam num mesmo universo, com ligações e referências espalhadas por todos eles, Shyamalan dá, aqui, seu primeiro passo nesse sentido. Ele dirigiu, no início de sua carreira, um longa sobre a criação de um super-herói – quem aqui lembra de Corpo Fechado (2000), um dos melhores – e mais subestimados – dos seus trabalhos? Uma vez percebida essa conexão, verifica-se aqui uma vontade oposta, de revelar o nascimento de uma força do mal, talvez igualmente poderosa, mas ainda assim problemática. E ele não poderia ter sido mais explícito neste retorno às origens.

Fragmentado, dessa forma, ganha corpo além do mero entretenimento descartável justamente em sua cena final, quando em uma reviravolta o diretor oferece uma nova dinâmica ao conto narrado. Até esse ponto, no entanto, há muito a ser relevado, caso o espectador tenha boa vontade. As vítimas compram de imediato as múltiplas personalidades do sequestrador, o trânsito social e profissional deste se dá sem nenhum distúrbio e qual a razão de oferecer tanta densidade psicológica a algo que é, mais do que qualquer outra coisa, barato e descartável? Há uma suspensão da realidade que perdura por todo o desenrolar da história, e se James McAvoy entrega uma das suas melhores performances e a novata Anya Taylor-Joy (A Bruxa, 2015) sustenta o confronto com seu antagonista de modo exemplar, o que segura ou não a atenção é o quanto estamos dispostos a adentrar nesse mundo proposto por Shyamalan. Uma jornada nem sempre à altura das expectativas, como já se provou anteriormente, mas turbulenta o suficiente para deixar qualquer um de olhos bem abertos.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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