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Sinopse

Um irmão e uma irmã vão passar uma semana na fazenda de seus avós. À medida em que aumenta a desconfiança das crianças sobre seus avós estarem envolvidos em algo perturbador, aumenta o medo de que talvez não consigam voltar para a casa de seus pais.

Crítica

Num primeiro instante, A Visita pode parecer uma tentativa oportunista do cineasta M. Night Shyamalan de surfar nas ondas nem sempre frutíferas, mas geralmente lucrativas, dos filmes de terror cujas imagens emulam o registro caseiro. Dois irmãos, a garota (Olivia DeJonge) e o garoto menor (Ed Oxenbould), preparam-se para conhecer seus avós. Desconfortável com a situação, pois não fala com os pais desde que saiu de casa para casar-se com um homem mais velho que adiante lhe abandonou com os dois filhos pequenos, a mãe dá os primeiros depoimentos para o documentário de sua primogênita obviamente interessada no cinema e em suas possibilidades. O filme dela é sobre os meandros desse encontro que pretensamente lhe permitirá tomar contato com os nãos ditos da história familiar, acessando um lugar até então protegido pelo silêncio e a ausência. A imagem trêmula, falsamente descompromissada, passa com precisão a sensação de amadorismo.

Enquanto a mãe descansa num cruzeiro com o atual namorado, os filhos chegam à casa do avô (Peter McRobbie) e da avó (Deanna Dunagan), pessoas cordatas que demonstram felicidade em finalmente conhecer os netos. Ela cozinha a todo o momento, mimando-os como talvez sempre quisesse ter feito, e ele alterna os afazeres da fazenda com a atenção aos visitantes muito desejados. A menina segue documentando cada passo desse cotidiano que se estenderá por uma semana, procurando os lugares da infância da mãe, tentando vez ou outra tirar dos avós algo que permita entender a contenda responsável pela ruptura do passado. M. Night Shyamalan insere pequenos fragmentos de perturbação nessa convivência nova, como a macabra intrusão da avó no local propício à brincadeira de esconde-esconde ou o mistério que o avô guarda no celeiro. Nosso olhar é mediado pelas reações infanto-juvenis dos protagonistas, eles que passam do leve incômodo à curiosidade e mais tarde ao pavor.

Gradativamente, A Visita ganha contornos terríficos, com o adensamento do clima de insegurança que rege a interação dos avós com os netos. A decupagem é inteligente, M. Night Shyamalan torna bastante verossímil a dinâmica de filmagem baseada apenas nas imagens captadas pelas câmeras dos personagens principais, evitando a falsidade que prejudica tantos filmes similares formalmente, mas que não possuem a mesma perspicácia e cuidado com a construção visual. O quarto passa a ser um esconderijo relativamente seguro aos jovens, sobretudo durante os surtos da avó acometida por uma síndrome de ordem psiquiátrica. Eles não se colocam no papel de vítimas, mesmo que sejam latentes suas vulnerabilidades, sintomas da pouca idade e do estranhamento natural de não estar em casa.  O medo é potencializado na medida em que as coisas ficam mais nebulosas e até violentas. Contudo, os danos psicológicos decorrentes da separação dos pais se insinuam com tão ou mais força.

A Visita é, assim, uma mescla muito eficiente de terror/horror e drama. Se por um lado, o diretor consegue criar uma atmosfera genuína de apreensão, principalmente com a exposição da crescente anormalidade do comportamento dos avós, por outro, evidencia os efeitos devastadores do desmantelamento doméstico nos irmãos. Manias e impossibilidades são as marcas mais claras, expostas em ocasiões de distinta brutalidade, como no choro da menina confrontada pelo inquérito do irmão, ou nas palavras por ele pronunciadas quando em extremo estado de estresse. M. Night Shyamalan, antes de simplesmente pegar carona em algo que muitas vezes faz bem somente aos cofres dos produtores, subverte expectativas, ocultando sob a superfície aparentemente banal, longe de ser ordinária, uma trama contundente centrada nos traumas causados pelas nem sempre pacíficas e boas relações familiares.

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Jornalista, professor e crítico de cinema membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Ministrou cursos na Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, na Academia Internacional de Cinema/RJ e em diversas unidades Sesc/RJ. Participou como autor dos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros" (2016), "Documentários Brasileiros – 100 filmes Essenciais" (2017), "Animação Brasileira – 100 Filmes Essenciais" (2018) e “Cinema Fantástico Brasileiro: 100 Filmes Essenciais” (2024). Editor do Papo de Cinema.
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