Crítica


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Sinopse

Luca deixou sua cidade natal há doze anos, apesar de ainda manter laços com o lugar e as pessoas. Eventualmente, regressa para ir ao médico que acompanha sua transição de gênero ou para visitar o irmão e os amigos. Desta vez, no entanto, voltou também para rever Ana, seu primeiro amor. Eles não se veem desde a época em que Luca ainda era uma menina.

Crítica

Quando se fala num projeto sobre homens transexuais, o imaginário coletivo costuma acender o alarme do exotismo: eles se parecerão com homens cisgênero? Com qual idade “se descobriram”, ou pior, “viraram”, homens? O que têm no meio das pernas? A imagem média da transexualidade, ainda marcada por preconceito e desinformação, se associa ao fetiche mórbido da anormalidade. Por esta razão, é um prazer se deparar com Eu, um Outro, documentário que retrata protagonistas transexuais em sua rotina de fácil identificação com qualquer espectador cis: o trabalho, o almoço em família, a academia, as paqueras. Embora tenham as suas particularidades, destrinchadas ao longo da narrativa, eles não são definidos por elas.

Este olhar igualitário, e bastante plácido, se torna a marca do projeto dirigido por Sílvia Godinho. Luca Scarpelli, por exemplo, é apresentado ao público quando chega a Belo Horizonte numa viagem, arrastando sua mala pela avenida, tomando um táxi, abrindo um apartamento vazio, conversando com a mãe ao telefone, fazendo exercícios numa academia de ginástica. O filme demora a abordar a questão da identidade de gênero, revelada apenas quando o protagonista decide conversar a respeito com outro garoto. Na ausência de depoimentos para a câmera, narrações em off, letreiros ou demais ferramentas explicativas, Eu, um Outro assume a interessante postura de observador atento. A estética busca o tom mais comum possível – planos de conjunto, imagens dessaturadas, som ambiente – para construi um humanismo singelo, distante do tom de denúncia. Questões envolvendo nome social, cirurgia e hormônios são abordadas apenas quando os personagens sentem a necessidade de fazê-lo.

O principal foco, neste caso, se encontra no afeto, ao invés do corpo trans. Se a representação respeitosa de indivíduos transexuais é rara no cinema, são ainda mais raros os filmes a retratarem as paixões, o sexo, os jantares em casal, a manhã em que acordam enroscados no corpo das namoradas ou namorados. Luca, Raul Alvim Capistrano e Thalles Rocha mantêm relacionamentos amorosos expostos por eles e retratados pela câmera sem pudores. Em meio a tanta curiosidade quanto à identidade e orientação das pessoas trans, o ato mais ousado torna-se o retrato dos beijos, do flerte, do carinho, especialmente quando a cisão cis-trans não se torna mais um conflito. Apenas a partir do momento em que enxergamos no outro um equivalente de nós mesmos que podemos de fato criar empatia. Neste sentido, o título cumpre a sua função ao brincar com a dicotomia entre o ser e a alteridade.

Por mais louvável que seja o filme em seu aspecto político e social, o resultado é prejudicado por algumas escolhas, especialmente quando se ficcionaliza demais o procedimento. A conversa de Raul com a mãe, deitado na cama, soa despojada e realista, porém a ruptura de Luca com a ex-namorada, em som estranhamente destacado do ambiente (seria dublagem, problema de sincronização?) e câmera próxima demais dos personagens impede qualquer forma de naturalidade da cena, que soa roteirizada. A conquista de Luca na balada é retratada em plano e contraplano, instrumento típico das ficções, enquanto os documentos segurados por uma escrivã são vistos em planos de detalhe – mais uma forma de controle típica da ficção. Em diversos momentos, a câmera está próxima demais para passar despercebida (o jantar romântico de Raul, o sexo de Thalles com a namorada), sugerindo que as ações foram desempenhadas para o filme, de modo programado às necessidades do discurso, o que contradiz a estética realista.

Por esta razão, se algumas falhas de captação de som e luz passam despercebidas dentro do registro espontâneo do documentário, elas se tornam evidentes na ficção – a qualidade do som das cenas em que Raul usa o computador em casa, à noite, está bastante prejudicada, por exemplo. Do mesmo modo, o final soa abrupto demais, como se o entrelaçamento eficaz das três histórias não tivesse encontrado uma imagem forte o bastante para representar um desfecho simbólico destas experiências. Depois de 110 minutos, a narrativa se suspende sem se concluir. Mesmo assim, Eu, um Outro efetua um belo trabalho ao dar protagonismo e voz a indivíduos trans sem olhá-los de fora, como “objetos de estudo”, e sim indivíduos próximos do olhar cis. Os três homens são muito mais complexos do que a esfera de sua identidade de gênero, algo que Sílvia Godinho consegue captar com clareza e tranquilidade. 

Filme visto no 27º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em novembro de 2019.

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Crítico de cinema desde 2004, membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III. Passagem por veículos como AdoroCinema, Le Monde Diplomatique Brasil e Rua - Revista Universitária do Audiovisual. Professor de cursos sobre o audiovisual e autor de artigos sobre o cinema. Editor do Papo de Cinema.
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