Crítica

O grande desafio de filmar em plano-sequência só se justifica quando tal método é intrínseco ao conceito amplo da encenação. Em Estamos Vivos existem porquês da ausência de cortes, da gravação ininterrupta de um reencontro familiar repleto de conflitos e sentimentos vindo à tona. Miguel (Maskin Oliveira), protagonista que, em virtude da morte do pai, regressa para ver os seus após mais de dez anos de ausência, traz consigo a esposa e o filho pequeno. A câmera do garoto captura tudo, desde a chegada. É intrigante a noção de vermos somente o que chama a atenção supostamente sem amarras da criança. Inicialmente, o diretor Filipe Codeço explora bem essa curiosidade que inadvertidamente espelha a nossa. Muitas vezes, ao passo em que os adultos acertam os pontos, falando em off, o cinegrafista corporificado pela imagem se detém em detalhes aparentemente insignificantes, mas que, ladeados, formam um conjunto imprescindível para entendermos mais sobre a convivência entre os presentes.

Diversas subtramas se desprendem dessa mescla de matar saudade e remoer velhas feridas. Enquanto o nosso olhar é direcionado a essa investigação, com ares pueris, de um espaço completamente novo, as falas, ao fundo, dão conta dos problemas residentes sob a superfície. Estamos Vivos se insere abertamente no filão de filmes centrados numa acalorada lavagem doméstica de roupa suja. Um manancial de ressentimentos sobrevém às tentativas de demonstrar cordialidade, confirmando as mágoas que óbvia e abertamente estão ali instauradas. Drica (Patricia Niedermeier), que permaneceu com o pai doente até seu derradeiro suspiro, oscila entre a hospitalidade e a agressividade. Os demais irmãos discutem a opção de internar a primogênita. Já no momento subsequente, celebram o fato de ela ir à cozinha para preparar o brigadeiro que tanto gostam. Essa flutuação de humores é muito bem engendrada por Codeço. O efeito é uma sensação de veracidade, perturbada apenas eventualmente.

Nem sempre Estamos Vivos consegue sustentar como imprescindível o seu itinerário de emulação imagética. Em determinadas passagens, Codeço pretere o personagem invisível em função da possível expressividade da cena que ele estaria registrando. De qualquer maneira, embora incorra ocasionalmente numa centralização contraproducente, relegando certos partícipes dessa ciranda sentimental às bordas não somente do enquadramento, mas também da trama, o longa possui vigor. Visualmente falando, os instantes mais inspirados são aqueles em que diretor realmente confere importância às idiossincrasias do personagem infantil. Continuamos conectados ao desenvolvimento dos assuntos familiares enquanto o foco literalmente se estreita na chama do fogão, na borboleta morta na piscina, em destinos aparentemente banais, mas que fornecem outras chaves de entendimento às ocorrências entre quatro paredes. O acúmulo desses fragmentos sutis robustece o enfrentamento.

No que tange ao trabalho dos atores, Estamos Vivos exibe uma irregularidade que não chega a prejudicar. Patricia Niedermeier é o destaque desse time de intérpretes. Guiados pela direção que camufla muito bem a rigidez das marcas com as tintas de suposta naturalidade, eles conseguem gerar empatia no espectador. O autismo do menino, que mira sua lente no tumulto avolumado à medida que os ânimos se exaltam, não é utilizado substancialmente, senão como forma de adicionar outro elemento passível de combustão naquele espaço já tão inflamável, e para fundamentar as bem-vindas dispersões oculares. O longa-metragem tem fragilidades estruturais, especialmente ligadas à reincidência de alguns procedimentos e tons anteriormente utilizados com melhores efeitos, mas nem por isso perde a capacidade de expressar os dramas vigentes. Contrariando ligeiramente a máxima do escritor Liev Tolstói, de que “todas as famílias felizes se parecem; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”, Filipe Codeço mostra, em linhas gerais, o potencial incendiário de quase toda reunião entre consanguíneos.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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