Enzo

Crítica


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Sinopse

Enzo, de 16 anos, rompe com as expectativas de sua família burguesa ao escolher ser aprendiz de pedreiro, um caminho muito distante da vida que haviam imaginado para ele. Na luxuosa e ensolarada mansão da família, no sul da França, as tensões se intensificam sob o peso das perguntas e das pressões constantes sobre o futuro do garoto. Já nos canteiros de obras, Vlad, um carismático colega ucraniano, transforma o mundo do garoto. Drama.

Crítica

Curioso, ainda mais por se tratar de uma produção francesa, mas certamente o título Enzo não será visto como mera coincidência por grande parte do público brasileiro. O protagonista vivido pelo estreante Eloy Pohu é o típico representante de uma leva de “enzos e valentinas”, ou seja, um jovem da Geração Z que sempre teve tudo de mão beijada sendo oferecido pelos pais que, na hora que a vida real começa a lhe bater à porta, se depara com indecisão, insegurança e incertezas. No meio dessa confusão imensa – que vai além da questão profissional, atravessando um debate familiar e até mesmo de orientação sexual – o adolescente acaba por assumir as piores opções, meio entre não sabendo o que quer para si, uma vontade legítima de rebeldia em contrariar ordens paternas e uma sensação de que assumir riscos – e, eventualmente, se arrepender – não será tão grave, pois a rede de segurança que a vida inteira esteve à sua disposição mais uma vez se mostrará presente. Em meio a um conflito tão íntimo quanto universal, o diretor e roteirista Robin Campillo se propõe a estabelecer um desenho delicado, mas não superficial, de uma realidade cada vez mais urgente.

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Por mais que tenha alcançado uma repercussão internacional com o intenso 120 Batimentos por Minuto (2017) – premiado no Festival de Cannes, indicado ao Critics Choice, Satellite, Independent Spirit e em dezenas de outras premiações ao redor do mundo – Campillo deve seus primeiros passos na indústria cinematográfica a uma bem-sucedida parceria com o já falecido cineasta Laurent Cantet (1961-2024). Enzo deveria ter sido o sexto projeto da dupla, mas quando o veterano responsável pelo oscarizável Entre os Muros da Escola (2008) morreu deixando o roteiro praticamente pronto, seu antigo parceiro assumiu a condução do projeto, desta vez contando com o apoio fundamental de Gilles Marchand – que colaborou tanto na finalização do roteiro como também na função de diretor assistente, ele que possui no currículo um César e um Leão de Prata no Festival de Veneza, ambos como roteirista. O resultado é uma abordagem que lembra em parte o olhar incisivo de Cantet, porém a partir de uma narrativa que tende a se encaixar com maior precisão a um tipo de discurso familiar à obra de Campillo.

Enzo tem 16 anos e é o filho caçula de uma família burguesa. A mãe até ganha mais que o pai, e ambos estão sempre cercados por livros, discussões sobre a vida e a morte e envoltos por questões tão profundas, quanto incapazes de serem resolvidas durante um jantar. Enquanto o primogênito parece ter tudo encaminhado – namorada, estágio, estudos – de acordo com o esperado, o mais novo se revela avesso a essa ideia de pré-determinação. É quando toma a mais inesperada das decisões: abandona a escola e passa a trabalhar como peão em uma construção. É quando, portanto, começa a se envolver com um trabalho pesado – levantar paredes, derrubar escombros, carregar sacos de cimento, obedecer ordens – e, assim, ao mesmo tempo em que se vê obrigado a, aparentemente pela primeira vez na vida, ter que obedecer alguém, também consegue ocupar seu tempo sem ter que lidar com as questões que, de fato, carecem de sua atenção. Isso, é claro, até que outras passem a se mostrar imperativas a partir das conexões que irão surgir.

A mudança de paradigma a qual o personagem se verá tendo que experimentar vai além de um ato de criança mimada – por mais que essa impressão exista num momento inicial. Há a resistência dos pais – expressada entre a falta de tato do pai (o gigante Pierfrancesco Favino, que transita com propriedade entre a indecisão do homem bruto que tenta conter seus instintos enquanto busca dar voz à razão de uma modernidade mais imposta do que lhe possa ser natural) e uma aproximação incerta da mãe (Élodie Bouchez cria uma mulher que confunde respeito com maternidade, indecisa entre esses dois lados, por mais que se esforce em não aparentar) – há ainda um rapaz tentando entender a si mesmo. Nesse processo, a admiração que percebe despertar em si direcionada a um colega imigrante torna tudo ainda mais confuso. Não apenas pelos dois serem de classes sociais distintas, mas pelas origens, intenções e orientações também diversas. Enzo vê nessa eventual proximidade – algo entre amizade, paixão e teimosia – a chance também de se entregar. Mas esquece que mais do que uma eventual conexão, há a necessidade de olhar para si antes de buscar nos outros aquilo que lhe falta.

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Em meio a um terreno tão propenso ao conflito e à explosão dos sentimentos, Campillo consegue domar as rédeas dos acontecimentos que, paulatinamente, vai explorando, evitando atitudes drásticas e posturas radicais. Haverão decepções e surpresas. Embates incontornáveis precisarão ocupar seus espaços e, portanto, lições terão que ser aprendidas, menos no que diz respeito às visões de mundo de cada um dos envolvidos, mas em como superar tais diferenças em busca de um meio termo para que ambos possam seguir adiante. O garoto beira a irracionalidade em algumas das confusões que acaba aprontando para si mesmo, mas é preciso entendê-lo não como apenas aquilo que apresenta e entrega, mas também como fruto de um meio e a soma daquilo com o qual vem se abastecendo ao longo de sua formação. Um debate complexo, distante de respostas fáceis e imediatas, que Enzo e seus envolvidos apresentam sem falsas promessas, mas por meio de uma leveza e acessibilidade que cabe a esse tipo de discussão, ainda mais em tempos tão severos quanto os pelos quais hoje se atravessam.

Filme visto durante a 49a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2026

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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