Crítica


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Sinopse

Baby é um rapaz misterioso que precisa ouvir músicas o tempo todo para silenciar o zumbido que perturba seus ouvidos. Motorista de uma gangue de criminosos, ele sonha em fazer seu último trabalho e fugir com a garota dos seus sonhos. Mas nem tudo será tão simples quanto ele gostaria.

Crítica

Dentro do cinema de ação e aventura – um dos gêneros mais tipicamente hollywoodianos – aqueles focados em perseguições automobilísticas formam praticamente uma subcategoria. Sucessos como a saga Velozes e Furiosos não nos deixam mentir. Há alguns anos, um exemplar dessa vertente investiu num visual cool, em uma ambientação retrô e na personalidade marcante dos seus protagonistas: Drive (2011), com Ryan Gosling e Carey Mulligan. Pois não é que mais de cinco anos se passaram, e chega agora às telas aquele que, apropriadamente, quase pode ser considerado a versão infantil – ou juvenil, vá lá – deste sucesso cult. E o título não poderia ser melhor: Baby Driver – o que pouco tem a ver com o batismo genérico recebido no Brasil, Em Ritmo de Fuga. Um filme que entretém com momentos ótimos, mas que está longe de ser marcante, revolucionário ou, quiçá, provocador como alguns dos seus predecessores.

Em Ritmo de Fuga é o resultado mais burilado dos esforços do diretor Edgar Wright em realizar algo de corpo e alma intrinsecamente pop. Após a cultuada Trilogia Sangue & Sorvete (que possui poucos, porém fervorosos, fãs e admiradores) e do quase incompreendido Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010) – que atirava para vários lados e acertava apenas nas miras mais precisas – o cineasta inglês parece, enfim, ter encontrado seu lugar na meca do cinema comercial. Pra começar, escalou um elenco de peso, que vai dos vencedores do Oscar Kevin Spacey e Jamie Foxx até revelações da televisão, como Jon Hamm (Mad Men, 2007-2015) e Jon Bernthal (The Walking Dead, 2010-2012, e Demolidor, 2016). Como protagonista, apostou em um queridinho adolescente do momento – Ansel Elgort, visto em sucessos teen como A Culpa é das Estrelas (2014) e a saga Divergente. E para par romântico, conta com a revelação Lily James, que tem se saído bem tanto na telinha – Downton Abbey (2012-2015) – quanto na telona – Cinderela (2015). Uma combinação, como se percebe, calculada em até suas últimas variáveis.

Elgort é Baby, um garoto órfão que viu seus pais morrerem no mesmo acidente de trânsito que lhe deixou duas consequências opostas: uma incrível habilidade na direção e um persistente zumbido nos ouvidos, o que o obriga a ouvir constantemente música através de fones que lhe permitem um pouco de alienação deste incômodo. Tais características lhe permitem ser o condutor ideal de carros em fuga de grandes e intrincados roubos, estes invariavelmente planejados por Doc (Spacey), um tipo que o apadrinha e defende, mas não hesitará em cortar suas orelhas caso se sinta traído. Entre seus companheiros a cada assalto podem estar tipos estourados e irritantes (Bernthal e Foxx) ou relaxados e confiantes (Hamm e Flea, músico da banda Red Hot Chili Peppers). Baby, no entanto, só quer pagar uma antiga dívida e mudar de vida, sonhando com o momento em que poderá cair na estrada sem maiores preocupações, tendo ao seu lado a garota dos seus sonhos (James).

Assim como Drive, Em Ritmo de Fuga também possui como personagem principal um tipo calado e misterioso, que almeja uma paixão quase idealizada e que por ela terá que enfrentar alguns desafios – entre eles, o clichê do “último golpe”. As semelhanças entre os dois filmes até se estendem por outros aspectos, porém em direções opostas. Um bom exemplo é a trilha sonora. Se o anterior era calcado num espírito nostálgico e saudosista, revelando rebeldia e puro instinto, esse aqui aposta em altas doses de adrenalina e numa pegada muito mais leve e descontraída. O visual colorido e a edição em ritmo de videoclipe também são destaques – a sequência de abertura é um destes melhores momentos. No entanto, se começa tão bem, aos poucos vai se tornando repetitivo, não apenas colocando em evidência a carência de uma maior profundidade na trama, como deixando óbvia uma preocupação voltada mais para a forma do que para o conteúdo.

Edgar Wright não é bobo nem nada, e sabe bem o que quer. Baby e Debora terão o final feliz que merecem, independente do que precisarão passar até alcançá-lo. E cada um dos vilões receberá como pagamento exatamente aquilo que estão atrás. E entre atuações pouco surpreendentes – Spacey se acostumou ao mesmo tipo que combina ironia e poder, enquanto que Foxx reproduz com mais violência a figura que viveu na comédia Quero Matar Meu Chefe (2011) – e algumas boas surpresas – Hamm consegue, enfim, deixar de lado o perfil galante que lhe é tão marcante, assim como Elgort, um dos poucos a ir além da superfície que defende – Em Ritmo de Fuga vale por uma montagem frenética, uma narrativa contagiante e dois ou três momentos que deixarão qualquer um literalmente arrepiados. De resto, tem-se uma brincadeira até certo ponto divertida, mas não muito mais do que isso.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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