Crítica

Joe vive com a filha e a neta, e sabe que a pensão que recebe todo mês é parte fundamental do orçamento da casa. Albert e Willie moram juntos, e enquanto o primeiro parece já ter desistido dos grandes prazeres da vida, o segundo ainda sonha com o dia em que conseguirá juntar os trocados suficientes para pegar um avião e atravessar o país para, enfim, matar a saudade dos filhos e netos. Joe, Albert e Willie foram colegas de trabalho por décadas, e agora precisam lidar com o lado cruel da globalização: a empresa que deveria garantir o futuro tranquilo de seus empregados está fechando as portas e se mudando para a China, deixando para trás um rombo nos planos de aposentadoria. Lutar, ir à justiça ou buscar seus direitos parece ser o destino de cada um dos afetados. Ou, simplesmente, assaltar o banco da esquina. A questão, muito mais complexa do que se tenta fazer acreditar, é a base do argumento deste Despedida em Grande Estilo, projeto que, como o título adianta, parece já ter feito a sua escolha.

Quando lançado originalmente, Despedida em Grande Estilo (1979) era uma comédia aparentemente inocente que tentava refletir a desilusão de um país entregue ao fracasso da Guerra do Vietnã e que se preparava para cair nos braços do neoliberalismo prometido pelos republicanos da era Reagan. Pois bem, quase quarenta anos se passaram, e o cenário pode ter mudado, mas aqueles mais atentos perceberão que, bem, nem tanto. Afinal, troca-se os conflitos bélicos e os presidentes na Casa Branca, mas permanece o mesmo sentimento de desilusão com promessas vazias e a vontade de acreditar em slogans fáceis e de apelo tão instantâneo quanto passageiro.

George Burns (vencedor do Oscar por Uma Dupla Desajustada, 1975), Art Carney (oscarizado por Harry, O Amigo de Tonto, 1974) e Lee Strasberg (criador do Método Strasberg de atuação e indicado ao Oscar por O Poderoso Chefão II, 1974) saem de cena e abrem espaço para um trio igualmente célebre: Michael Caine (Oscar por Hannah e suas Irmãs, 1986, e por Regras da Vida, 1999), Morgan Freeman (Oscar por Menina de Ouro, 2004) e Alan Arkin (Oscar por Pequena Miss Sunshine, 2006). A maior diferença entre o primeiro e o segundo filme, portanto, talvez esteja na direção: Martin Brest, indicado ao Oscar de Melhor Filme e Direção por Perfume de Mulher (1992), foi substituído por Zach Braff, protagonista da série cômica Scrubs (2001-2010), responsável também pelo simpático, porém discreto, Hora de Voltar (2004). Braff faz pouco com o que tem em mãos, preocupando-se apenas em abrir espaço para o seu elenco brilhar. Decisão sábia até certo ponto, pois se por um lado aposta nos talentos envolvidos, por outro transfere para os atores a responsabilidade de defender um texto, no mínimo, duvidoso.

Criou-se um fácil e rápido consenso a respeito desse Despedida em Grande Estilo, como se ele fosse apenas e não mais do que uma “brincadeira com a terceira idade”. Afinal, quem não estaria curioso em observar como três velhinhos iriam driblar o sistema e dar um golpe de milhões que iria garantir uma total tranquilidade até o fim dos seus dias? Ledo engano, afinal, não temos aqui nada sequer semelhante ao discurso conciso e contundente de um A Qualquer Custo (2016), por exemplo. O que se tem, sim, é um deboche pouco respeitoso como reflexo de uma sociedade que ignora seus idosos e na qual estes, para se fazerem válidos e serem, enfim, ouvidos, devem apelar para a velha justiça pelas próprias mãos, independente do quão equivocada ela seja. Sintomática a cena em que Joe (Caine), uma das testemunhas do primeiro assalto – o qual servirá de inspiração para o próprio plano dele com os amigos – é repetidamente desprezado pelo policial (Matt Dillon) que deveria interrogá-lo. Velhos são invisíveis, ao menos até que um – ou mais – se faça notar.

O roteiro de Theodore Melfi (indicado ao Oscar neste ano por Estrelas Além do Tempo, 2016) ameniza esse tipo de discussão, restringindo-se ao aspecto pitoresco do episódio que já era destaque no filme original. Mas Despedida em Grande Estilo não consegue negar suas próprias origens. Joe, Willie e Albert estão errados, e sabem disso, mesmo que esse pareça ser o único caminho a ser seguido. Glorificá-los, portanto, revela mais sobre quem os aprova do que a respeito dos próprios. Eles, afinal, não estão se despedindo de ninguém, muito menos saindo ‘por cima’, como se poderia dizer. Estão, de fato, abdicando de seus direitos e deveres, defendendo uma realidade em que cada um luta apenas por si, esquecendo-se do outro. São resultados de um momento em que um fanfarrão como Donald Trump representa o poder, em que o importante é se fechar aos demais e pensar, sempre, no próprio umbigo. Michael Caine, Morgan Freeman e Alan Arkin estão acima disso, e mereciam mais respeito. Tanto eles quanto nós, no lado de cá da tela.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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