Crítica

A Qualquer Custo, de David Mackenzie, é atravessado por imagens de uma América desolada, decadente, quebrada no longo day after da crise econômica que se iniciou em 2008. Fincando claramente raízes no western – lembrando um pouco, no tom e nas paisagens, a obra-prima Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) –, o filme se interessa não apenas por contar uma história dentro desse gênero, mas também por comentar criticamente as consequências sociais do que aconteceu nos Estados Unidos nos últimos anos. Aqui, uma boa comparação pode ser feita com O Homem da Máfia (2012), de Andrew Dominik, também claramente filiado a um gênero cinematográfico estabelecido, mas muito preocupado em passar uma mensagem política contundente – em alguns momentos, até se excedendo nesse sentido.

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A vantagem de A Qualquer Custo é que esses comentários sócio-políticos estão verdadeiramente intrincados na história criada pelo roteirista Taylor Sheridan, também autor de Sicario: Terra de Ninguém (2015), sendo fundamentais para seu desenrolar. A dupla de protagonistas, os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster), roubam uma série de pequenos bancos, responsáveis pela hipoteca da casa de sua recém-falecida mãe, para, com esse dinheiro, pagar as dívidas da família com os próprios bancos e construir um patrimônio sólido. A crise econômica deixa de ser, portanto, mero pano de fundo ou meio de exibicionismo do diretor, para se tornar parte, de fato, da narrativa.

Se a carga política advinda daí dá certo estofo ao filme, é no encontro absurdamente eficiente entre thriller, western e drama que A Qualquer Custo revela suas maiores qualidades. No primeiro aspecto, há a construção cuidadosa de um heist movie, que alterna com precisão os tempos mortos, aqueles momentos em que quase nada parece acontecer (geralmente protagonizados pela dupla de policiais interpretada por Jeff Bridges e Gil Birmingham), com grandes sequências de ação, envolvendo uma incansável perseguição, conduzida por essa mesma dupla, aos irmãos Howard. Já quanto ao western, Mackenzie e Sheridan mergulham em cenários, figuras – novamente o xerife prestes a se aposentar de Bridges, que por sua posição no mundo remete, claro, a tantos equivalentes na história do cinema, mas principalmente ao personagem semelhante interpretado por Tommy Lee Jones em Onde os Fracos Não Têm Vez – e construção cênica típicas do gênero. Vem desse último departamento, aliás, aquela que talvez seja a grande cena de A Qualquer Custo: o duelo final entre o xerife e Toby Howard, que encerra o filme.

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Mas é mesmo como um poderoso drama familiar sobre amor aos seus em meio à absoluta desesperança que A Qualquer Custo gruda na memória. É o carinho meio bruto que não só Toby e Tanner, mas também Marcus (Bridges) e Alberto (Birmingham), nutrem entre si que dá força emocional ao filme, tornando duríssimos os momentos em que ocorrem inevitáveis perdas em ambos os lados. E é a dedicação filial a uma mãe já ausente, à memória dessa mãe, por quem um dos irmãos Howard matou o próprio pai, que faz as ações dos protagonistas plenamente compreensíveis, mesmo quando carregadas de violência.

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é um historiador que fez do cinema seu maior prazer, estudando temas ligados à Sétima Arte na graduação, no mestrado e no doutorado. Brinca de escrever sobre filmes na internet desde 2003, mantendo seu atual blog, o Crônicas Cinéfilas, desde 2008. Reza, todos os dias, para seus dois deuses: Billy Wilder e Alfred Hitchcock.
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