Crítica


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Sinopse

Partes importantes da história do cinema brasileiro são revisitadas através de um símbolo da preservação do cinema nacional: Alice Gonzaga. Filha do fundador do primeiro estúdio de cinema do Brasil, Adhemar Gonzaga, ela relembra momentos marcantes da carreira do pai nos anos 1930 e de sua própria trajetória.

Crítica

Alice Gonzaga se nega a ser vista como herdeira da Cinédia. Ainda assim, poderia ser considerada ela mesma o arquivo vivo do cinema brasileiro. Filha de Adhemar Gonzaga, fundador do primeiro estúdio cinematográfico do Brasil, aberto em 1930, no Rio de Janeiro, Alice é personagem e tema deste documentário essencial que resgata a memória da sétima arte no território nacional. Dando destaque ao seu importante trabalho de produção e manutenção de um amplo banco de dados referente a produções fílmicas que datam dos anos 1930 em diante, a cineasta Betse de Paula acompanha Alice nesse retorno às raízes do segmento audiovisual brazuca para retomar um período cultural desconhecido da maior parte do público.

Com apoio dessa senhora simpática e divertida, Betse apresenta um longa repleto de documentos oriundos do próprio trabalho hercúleo de Alice, que desde os sete anos de idade tem predileção pelo processo de arquivamento de material gráfico. Da paixão infantil pela organização à consolidação de um dos mais importantes arquivos do cinema nacional, o público persegue os trajetos da sétima arte por meio de publicações especializadas, como a revista Cinearte, dirigida por Adhemar, bem como fotografias, panfletos, cartazes, relatórios, anuários, filmes antigos e, claro, muita vivência pessoal.

Portanto, as lembranças de Alice têm papel tão importante quanto a farta documentação pinçada dos arquivos. É por meio de sua fala que descobrimos informações variadas como as diversas vezes em que Adhemar quase faliu, não devido ao amor pelo cinema, mas sim pela avidez em produzir filmes sob condições das mais adversas em um contexto de estruturação do segmento audiovisual. Dessa problemática surgiram necessidades específicas como importação de equipamentos, formação de atores, instrumentalização de produtores, diretores e montadores.

Com isso, Adhemar Gonzaga e a Cinédia se colocam como importante pólo na gênese do cinema no Brasil, resultando em produções de valor histórico e cultural como Lábios Sem Beijos (1930), o longa mais antigo realizado no Rio de Janeiro ainda a manter-se completo, e Ganga Bruta (1933), ambos de Humberto Mauro, além de Limite (1931), de Mario Peixoto, Alô alô Carnaval (1936), musical do próprio Adhemar marcado pela marchinha Cantores de Rádio, interpretada por Aurora e Carmen MirandaBonequinha de Seda (1936), de Oduvaldo Vianna, Onde estás, felicidade? (1939), de Mesquitinha, que lançou atores como Oscarito, Grande Otelo e Dercy Gonçalves, bem como O Ébrio (1946), de Gilda de Abreu, o maior sucesso de público da Cinédia.

Adhemar investia bastante no cinema, e muitas vezes não tinha retorno financeiro com seus lançamentos. Porém, sempre manteve a produção fílmica. Foi durante uma discussão entre pai e filha sobre a real importância dos longas que Adhemar situou Alice sobre o impacto das obras da Cinédia na cultura brasileira, o que a levou a assumir definitivamente o arquivo do estúdio. Entretanto, boa parte dos filmes originais, à base de nitrato, foi consumida pelo fogo na histórica queima oficial do acervo cinematográfico da Cinédia em 1986 (veja o convite para esse evento bizarro evento aqui). A medida foi tomada por Alice no intuito de evitar o perigo de incêndio inesperado devido à química das películas antigas, fato que ainda hoje se configura como um dos maiores arrependimentos dela.

Felizmente, os longas haviam sido previamente copiados em acetato pela equipe do arquivo, o que evitou perdas maiores. De toda forma, tanto a queima controlada de filmes quanto o valoroso e constante trabalho de Alice em seu banco de dados labiríntico destacam a importância da preservação da memória de um estúdio de cinema que registrou, entre 1930 e 1951, os costumes sociais e os perfis culturais de um país que ainda luta tanto pela produção de arte quanto pela sua manutenção.

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é jornalista, doutorando em Comunicação e Informação. Pesquisador de cinema, semiótica da cultura e imaginário antropológico, atuou no Grupo RBS, no Portal Terra e na Editora Abril. É integrante da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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