Criaturas Extraordinariamente Brilhantes
-
Olivia Newman
-
Remarkably Bright Creatures
-
2026
-
EUA
Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, uma viúva que trabalha como faxineira noturna em um aquário estabelece uma ligação incomum com um polvo gigante. A partir dessa convivência, ela passa a revisitar o desaparecimento do filho, ocorrido décadas antes, em busca de respostas. Drama.
Crítica
Sally Field já havia feito um movimento em sua carreira no intuito de se conectar com uma audiência mais jovem antes. A despeito de sua aparição como tia May no Homem-Aranha de Andrew Garfield e de ter sido uma das tocedoras de um jogador de futebol icônico em 80 for Brady: Quatro Amigas e uma Paixão (2023), em Doris: Redescobrindo o Amor (2015) a atriz vencedora de dois Oscars dividiu a cena com Max Greenfield, ator cuja diferença de idade com ela é de mais de três décadas. Em Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, seu par da vez é Lewis Pullman, e os quase cinquenta anos que os separam fazem sentido na trama. Além disso, o verdadeiro protagonista desta história não é a senhora viúva que trabalha como faxineira em um aquário numa pequena cidade litorânea, nem mesmo o andarilho que chega nesse mesmo vilarejo atrás de um homem que nunca conheceu, mas o polvo que estará entre os dois. Sim, Marcellus está tanto presente visualmente, como o animal que em um momento ou outro da história ambos terão que cuidar, como também por meio da poderosa voz de Alfred Molina, servindo aqui também de narrador. Essa abordagem inusitada é apenas um dos charmes de um longa aparentemente simples, mas capaz de guardar um charme insuspeito e reviravoltas inesperadas, despertando carisma e atenção mesmo por meio de seus mais delicados detalhes.

Shelby van Pelt lançou o livro Criaturas Extraordinariamente Brilhantes (no qual esse longa se baseia) em 2022. O resultado foi um fenômeno premiado como trabalho de estreia que vendeu mais de duas milhões de cópias, superando trinta reedições. Natural, portanto, que uma versão para o cinema fosse encomendada na sequência. É também satisfatório presenciar esse encontro de gerações que o enredo proporciona. Field é uma veterana que faz parte da história de Hollywood. Pullman, por sua vez, tem recentemente feito trabalhos de imensa repercussão – como sua passagem pelo universo cinematográfico Marvel em Thunderbolts (2025) – além de ser mais um nepobaby de sucesso (é filho de Bill Pullman). Num primeiro momento, a reunião de duas figuras tão distintas parece fadada a não funcionar. Mas logo começa a se tornar nítido o quanto em comum um tem com o outro. Ambos estão à procura de alguém. O vazio os consome. E a maneira que encontrarão para preenchê-lo está onde menos esperam.
Numa comunidade na qual todos se conhecem, o drama de um rapidamente é compartilhado pelos demais. Tova Sullivan (Field, com a mesma composição determinada que se acostumou a entregar ao longo de sua filmografia) não apenas perdeu o marido há pouco, vítima de uma doença que terminou por consumi-lo, como ainda carrega a dor de ter tido um filho perdido no mar. Sim, o rapaz, ainda que acostumado a velejar, após uma discussão com a mãe partiu em um passeio e nunca mais voltou. O corpo – assim como sua embarcação – foi encontrado somente dias depois, e numa conjuntura que poderia indicar um eventual suicídio. A dúvida sobre o que de fato teria acontecido consome a senhora que acredita não estar essa resposta a seu alcance. Assim, enquanto tenta se ocupar tricotando entre velhas amigas e durante as noites que passa limpando as paredes de vidros dos muitos aquários do oceanário, também se vê tendo que decidir se irá, ou não, vender a casa onde mora e partir para uma residência para idosos, plano que foi idealizado e deveria ser realizado pelo casal, e não apenas por ela.
Por outro lado, quem cresceu acostumado a não ter referência, qualquer um pode servir de exemplo. Cameron Cassmore (Pullman, mais uma vez encarnando um homem genérico capaz de coisas fora do comum) mal sabe de onde vem, e menos ainda para onde está indo. Quando a van que dirige – e onde também mora – para de funcionar, o lugar em que estaciona parece ser tão bom quanto qualquer outro. Afinal, é daquela região também o homem pelo qual procura e que acredita ser o pai que nunca conheceu. Não por um motivo austero ou emocional, mas porque deseja cobrar todos os anos de pensão que nunca recebeu. Está na estrada desde a morte recente da mãe, e para pagar o conserto do veículo terá que arrumar um emprego temporário, e a vaga que lhe oferecem como limpador – no lugar da antiga funcionária que machucou o pé e terá que tirar alguns dias de repouso – parece ser ideal. O contato – e posterior convívio – entre os dois, num primeiro momento, será ruidoso. Mas logo essas diferenças serão superadas. A revelação do real motivo que os une, no entanto, não estará nas mãos nem dele, menos ainda nas dela – será Marcellus o responsável pela descoberta. E acompanhar tal jornada nessa posição de observador privilegiado faz da aventura que está a se desenrolar algo único e bastante especial.

Contar com uma realizadora – Olivia Newman, de Um Lugar Bem Longe Daqui (2022) – parece ter sido essencial para atingir a sensibilidade que essa história demanda. Mas o entendimento do roteiro só foi alcançado em quatro mãos, as dela em parceria com as de John Whittington (que apesar de contar com várias animações e projetos infantis no currículo, se envolveu com relações humanas adultas em Quando nos conhecemos, 2018). A combinação dos dois garantiu atenção tanto para a protagonista feminina, quanto para o seu parceiro masculino, proporcionando um desenho emocional aos dois, ao mesmo tempo em que a conexão com o espectador vai sendo fomentada com cuidado e detalhamento. Nos seus instantes finais, Criaturas Extraordinariamente Brilhantes pode dar a impressão de ser um quebra-cabeças no qual tudo foi perfeitamente encaixado, sem que nenhuma peça tenha sido esquecida – ou uma que outra aresta necessitando ajuste. Este pode ser o ponto que separa a fantasia da realidade, e tal fórmula, se aponta para um escapismo fácil, também confirma seu potencial de encantamento e simpática ilusão.
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Toy Story 5 - 17 de junho de 2026
- Dia D - 16 de junho de 2026
- O Afinador - 15 de junho de 2026
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Miguel Barbieri | 6 |
| MÉDIA | 6.5 |

Deixe um comentário