Crítica


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Sinopse

Casey vive com sua mãe em uma cidade pouco conhecida e assombrada pela promessa de modernismo. Jin, um visitante do outro lado do mundo, visita seu pai que está quase falecendo. Sobrecarregados pelo peso do futuro, eles encontram refúgio um no outro e na arquitetura que os rodeia.

Crítica

Conhecido por seus vídeos-ensaios sobre cinema, produzidos para sites e revistas como Sight & Sound e The Criterion Collection, que investigam as características formais da obra de nomes como Stanley Kubrick, Richard Linklater e Yasujiro Ozu, o sul-coreano radicado nos EUA, Kogonada, realiza uma estreia na direção de longas que exala, a cada plano, a influência dos citados autores, seus objetos de estudo. O perfeccionismo estético kubrickiano, o apreço pelos diálogos fluidos carregados de meditações filosóficas e culturais à la Linklater e a construção dos enquadramentos estáticos baseados na geometria espacial – paredes, portas, janelas – para emoldurar os personagens, inspirada em Ozu, se fazem presentes em Columbus, título que se refere à cidade do estado norte-americano de Indiana, notória pela grande concentração de exemplares da arquitetura modernista, e que se configura quase como uma coprotagonista da trama.

É em Columbus que vive Casey (Haley Lu Richardson), jovem que trabalha na biblioteca local e suprime o sonho de estudar arquitetura, sua paixão, por medo de abandonar a mãe (Michelle Forbes), ex-viciada em metanfetamina. Seu caminho acaba cruzando com o de Jin (John Cho), homem de origem sul-coreana cujo pai, renomado arquiteto que visitava a cidade a fim de realizar uma palestra, foi acometido por um mal súbito e se encontra em estado de coma. Do encontro desses dois estranhos, de personalidades aparentemente opostas, porém complementares – ele, aquele que vem de fora, que retorna, sem demonstrar ter uma conexão mais profunda com o pai, e ela, que não se permite partir justamente pela ligação íntima com a mãe – Kogonada extrai, e mescla, elementos das jornadas de amadurecimento dos jovens adultos, por meio de Casey e os questionamento sobre seu futuro, de dramas existencialistas e de romance.

Esses componentes são modelados com extrema sutileza pelo cineasta, tal qual a comida preparada com pouco tempero por Casey – para “ser melhor saboreada” – evitando o convencionalismo e apostando mais no que é implícito do que na literalidade. Envolta pelo formalismo rigoroso do registro, sobre o qual Kogonada exibe pleno domínio, a dramaticidade é trabalhada em chave intimista, apresentando variações leves, sem nunca, contudo, soar mecânica ou distante. Entre as formas racionais e matemáticas das construções de vidro, aço e concreto, há sempre um sinal de humanidade, que não se limita a discursos sobre a função do arquiteto e de suas obras num processo de cura, por exemplo, nem a conceitos enigmáticos, como o “modernismo com alma” defendido pelo pai de Jin, mas, sim, pela integração das pessoas aos espaços retratados.

Ao mostrar um mesmo cenário ora vazio, ora habitado, Kogonada realça a qualidade transformadora da presença humana, capaz de trazer novos significados e sensações a um ambiente. Essa noção é ainda mais enriquecida devido à realidade peculiar da cidade Columbus, onde o requinte arquitetônico, o legado cultural e histórico, contrasta a vida proletária humilde de boa parte de sua população, vide os funcionários das fábricas, como a mãe de Casey. Kogonada se aproveita de tal particularidade para explorar também a questão da percepção, já que, por estarem imersos nesse universo de edificações modernistas, por vivenciarem-no todos os dias, a beleza que cerca os habitantes se torna algo trivial. Eles a olham, mas não a enxergam, de fato. E, por meio de Casey e seu fascínio pela arquitetura, o cineasta busca resgatar justamente a valorização do olhar.

Fortalecendo o aspecto humano, Kogonada conta com um elenco inspirado – que inclui também Rory Culkin e Parker Posey – tendo na dupla protagonista um porto seguro. Richardson, encantadora, e Cho, preciso, fazem da relação de Casey e Jin uma troca mútua e enriquecedora, na qual a atração física se insinua de modo ambíguo – como na cena em que a garota acorda no quarto de hotel de Jin sem que seja revelado por completo o que ocorrera na noite anterior. Mais do que um vínculo romântico, se estabelece um vínculo intelectual, que jamais parece pretensioso, entre os personagens, sempre acompanhado de uma carga afetiva genuína. Dessa interação derivam os mais belos momentos do longa, sequências delicadas como o choro reprimido de Casey ao lembrar dos problemas da mãe, ou a dança em que extravasa sua angústia em frente ao antigo colégio, que lembra uma prisão – reforçando seu desejo por se libertar.

Responsável também pela montagem de Columbus, Kogonada utiliza seu evidente apuro visual sempre em favor da construção dramática. A passagem em que Jin questiona Casey sobre o que a emociona em uma de suas construções favoritas ilustra bem essa capacidade. Ao privar o espectador do som, filmando de dentro do edifício, através de uma parede de vidro, o cineasta capta os sentimentos contidos na resposta puramente pela expressão facial da garota, que busca nas obras arquitetônicas o equilíbrio ausente em sua vida pessoal atribulada ao lado da mãe – não à toa, a personagem surge em cena pela primeira vez observando a igreja projetada por Eliel Saarinen, com seu projeto marcado pela assimetria dos elementos, mas, ainda assim, equilibrado. Essa relação simbólica com a arquitetura, força motriz de todo o longa, é sustentada até o último plano, na imagem de uma ponte, representação da passagem para um novo caminho, para novas possibilidades, para o início de um novo capítulo de uma história.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
7
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7
MÉDIA
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