Crítica

Não é novidade que tudo neste mundo tem começo e fim. Até os mais esperançosos já pensaram, em algum momento, que a rotina vai acabar e teremos de tomar novos caminhos. Mas, e quando o dito final chega sem aviso prévio e de forma violenta? O documentário Cidades Fantasmas, dirigido por Tyrell Spencer, tem como personagens determinados lugares da América Latina que, com diferentes durações, praticamente extinguiram-se, restando deles apenas escombros e alguns moradores insistentes.

Em pouco mais de uma hora, Cidades Fantasmas mostra com poesia visual e depoimentos sinceros como uma comunidade ou um grande empreendimento, que já foram cenários de prosperidade, podem ser transformados em ruínas que pouco aludem aos dias de glória. As primeiras cenas mostram um cemitério à beira-mar, onde fica visível que, há muito tempo, ninguém vai reverenciar seus mortos. Tão sem vida quanto os túmulos é Humberstone, cidadezinha chilena que já foi um dos pólos de beneficiamento de salitre, chamado de ouro branco. Não fossem as lembranças dos moradores, contadas entre lágrimas, seria difícil acreditar que aquelas paredes incompletas faziam parte do lar de centenas de famílias. Mais emocionante ainda é ver um senhor relembrar o auge de Fordlândia, distrito da cidade de Aveiro, no estado do Pará, onde a companhia americana Ford construiu um complexo a fim de explorar o látex das seringueiras, matéria-prima à fabricação de pneus. Hoje, não passam de galpões abandonados. Algumas casas ainda não caíram porque o único morador as conserva como pode, lutando contra o governo para manter-se no local.

A fotografia em tom de cinza, que acentua o clima fantasmagórico do documentário, ganha ares de realismo fantástico quando a câmera foca as cidades de Armero, na Colômbia, e Epecuén, na Argentina. A primeira foi arrasada pela erupção do vulcão Nelvado del Ruiz, nos anos 80, evento que pegou a população desprevenida. O relato de Esperanza Fierro, que perdeu os pais e os dois filhos no mar de lodo que cobriu toda a região, é emocionante e vem seguido de revolta, pois o governo foi alertado sobre a possibilidade de uma tragédia meses antes. Já Epecuén, que era um dos locais de águas termais mais famosos da Argentina, passou duas décadas submerso e ressurgiu com resquícios de sua era de ouro. Escorregadores, pedaços de muros e balanços enferrujados. Tudo que um dia movimentou o turismo, agora traz curiosos pela localidade que estava embaixo d´água. Um passeio melancólico que Cidades fantasmas mostra por meio do olhar de um idoso que circula diariamente de bicicleta pelos restos de Epecuén. Uma solidão optativa que o torna, apesar de forte e lúcido, um espectro.

Cidades Fantasmas faz com que o público saia da sessão pensativo, em especial aqueles que vivem a reclamar dos problemas do lugar onde moram e cogitam mudar-se algum dia. Imagine se todos tivessem a mesma ideia? Ou que, pela força da natureza ou má administração do homem, nossos lares fossem destruídos, sobrando apenas as lembranças? É de se pensar que o chão hoje pisado amanhã pode se encher de ervas daninhas e passar a integrar a lista de cidades silenciosas e assustadoras.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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