Crítica


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Sinopse

Vinte anos depois do sucesso meteórico do grupo Chocante com o hit Choque de Amor, Téo, Tim, Tony e Clay se reencontram. Entre as lembranças de um passado de sucesso e o presente sem nada a perder, surge a ideia de fazer um novo show, para a felicidade da eterna líder do fã-clube, Quézia. Orientados pelo empresário Lessa, os amigos retomam os ensaios com o novo integrante, Rod, vencedor de um decadente reality show. O resgate desse grupo trará situações divertidas e uma nova fã: Dora.

Crítica

Seguindo a onda nostálgica que se abate sobre uma parcela considerável da produção cinematográfica mundial, Chocante, dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, parece, ao menos a princípio, oferecer uma proposta diferente dentro do cenário das comédias brasileiras, por meio da história de um grupo musical que tenta retornar aos holofotes após vinte anos de hiato. Tal impressão, contudo, nunca se concretiza, com a película terminando por se contentar com esparsos lampejos de originalidade. Na trama, Téo (Bruno Mazzeo), Tim (Lúcio Mauro Filho), Tony (Bruno Garcia) e Clay (Marcus Majella) formam o quarteto de ex-integrantes da boy band noventista que dá nome ao longa, responsável pelo hit “Choque de Amor”. Após se reencontrarem durante o funeral de Tarcísio, quinto elemento da formação original do conjunto, os quatro rememoram os tempos áureos e decidem voltar aos palcos.

Através dessa busca por recuperar a notoriedade de outrora, impulsionada não só pelo aspecto financeiro, mas também pelo da realização pessoal, Araújo e Bonafé remodelam levemente a temática da ascensão social que domina as chamadas neochanchadas nacionais. A trajetória, da queda ao vislumbre da volta por cima, oferece espaços para que sejam inseridas questões diversas, como a do panorama econômico atual do país, por exemplo. Assim, exceção feita a Tim, um oftalmologista do DETRAN do Rio de Janeiro, temos os outros três protagonistas exercendo profissões periféricas ou autônomas: Clay trabalhando como locutor de promoções de um supermercado, Téo como cinegrafista de eventos particulares (casamentos, batizados e afins) e Tony como motorista do Uber. Outros tópicos como a efemeridade da fama, a superexposição midiática e a obsessão por likes, views e seguidores, ou ainda a distinção entre ser celebridade e ser artista, também povoam a narrativa.

Tudo, porém, é desenvolvido de modo superficial, ficando bem aquém de seu potencial, especialmente as piadas extraídas do cotidiano de trabalho dos personagens. Estas acabam sendo repetitivas, apresentando variações de uma mesma situação – como as montagens que mostram Clay ensaiando, frente ao espelho, as desculpas que dará ao seu chefe, que soam como mera desculpa para dar vazão à capacidade de improviso de Majella. A mesma fragilidade é encontrada na construção dos arcos dramáticos, que incluem a relação problemática entre os irmãos Tim e Téo, bem como os conflitos familiares particulares de cada um, sendo que a dinâmica entre segundo e sua filha, Dora (Klara Castanho), ganha um destaque especial. Há ainda a tentativa, falha, de criar certo mistério sobre os motivos que levaram ao fim do grupo e do casamento de Téo, que esbarra numa revelação totalmente previsível.

A previsibilidade, aliás, dá o tom ao texto creditado a quatro roteiristas, incluindo Mazzeo e Pedro Neschling, que interpreta Rod, vencedor de um reality show que acaba incorporado ao Chocante para preencher a vaga de Tarcísio. Ainda que possua a virtude de não recorrer a um teor apelativo, o roteiro se mostra pouco inspirado na criação de gags e personagens secundários, como a fã obcecada pelo grupo, vivida por Débora Lamm. Talvez um dos poucos acertos esteja na figura do empresário Lessa, papel de Tony Ramos, que parece se divertir genuinamente com sua composição caricatural, mas possui pouco tempo de tela. Tais inconsistências vêm embaladas pela realização extremamente convencional de Araújo e Bonafé, calcada numa estética televisiva, limitada a planos médios e fechados que pouco exploram os ambientes ou objetos de cena.

Até mesmo a iconografia da década de 1990, da maneira como é trabalhada, atinge um efeito nostálgico apenas moderado. Todas as boas sacadas e referências parecem ser gastas de uma só vez na divertida sequência inicial, que traz uma espécie de retrospectiva da carreira do conjunto, com imagens de apresentações no Programa do Gugu, das capas dos discos e de revistas adolescentes, construída a partir da divulgação da notícia da morte de Tarcísio pela apresentadora Sônia Abrão. A cena também representa um dos raros momentos em que a experiência de Araújo no meio musical – tendo dirigido dezenas de videoclipes exibidos e premiados durante o período do auge da MTV Brasil – se faz notar. Algo que, ironicamente, não se sente no vídeo da música “Choque de Amor”, exibido durante os créditos finais, que não consegue emanar a aura dos anos 90, soando claramente como um pastiche artificial.

Como apelo à memória afetiva, restam citações – aos Menudos, ao quadro da banheira do Gugu, à musas como Cristina Mortágua – e participações especiais um tanto aleatórias, como as do cantor Anderson, do Grupo Molejo, ou a do produtor musical Nelson Motta. Renegando a vocação ao exagero inerente a esse universo musical específico, hoje tratado como trash, dos anos 80/90 – uma característica que acaba restrita a passagens isoladas, como a sequência em que os protagonistas entoam o sucesso “Tô P da Vida”, do Dominó – Chocante caminha para um desfecho de certo modo mais realista, em favor de uma redenção particular, e não coletiva. Uma escolha que afasta o longa ainda mais da promessa contida em sua premissa, levando a um resultado que não entrega a diferenciação esperada, arrancando apenas alguns risos tão fugazes quanto o sucesso meteórico do grupo fictício.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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