Crítica


6

Leitores


3 votos 7.4

Onde Assistir

Sinopse

Um dos eventos mais tradicionais do audiovisual brasileiro, o Festival de Brasília resiste há décadas enquanto uma das principais vitrines do cinema autoral e politizado. Esta história é contada por meio de dezenas de entrevistas com diretores, atores e produtores que tiveram seus filmes aclamados ou vaiados no lendário Cine Brasília.

Crítica

A quem se destina o documentário Candango: Memórias do Festival (2020)? Qual ponto de vista o diretor Lino Meireles adota para representar a história do evento em Brasília? Estas são as duas perguntas mais importantes, e também as mais difíceis de responder diante do projeto de duas horas de duração, que oferece um apanhado generoso das muitas décadas do Festival de Brasília. Para os jornalistas e críticos habituados àquele espaço, talvez o projeto não traga qualquer revelação ou descoberta – o filme evita se valorizar pela raridade ou pelo extenso trabalho de investigação. As características estruturais estão ausentes: conhece-se pouco sobre a dificuldade de organizar uma edição, a partir de qual verba, em quais circunstâncias. O discurso assume a postura de um cinéfilo para quem o festival constitui um templo de celebração à arte. Felizmente, Meireles possui senso crítico em relação aos testemunhos e imagens disponíveis: junto das esperadas falas elogiosas (“Paulo Emílio tem todas as qualidades que um ser humano deveria ter”), nota-se a abertura a ponderações sobre a identidade do evento e as mudanças – positivas e negativas – ao longo dos anos.

Ao invés de mero objeto de estudo, o festival se converte em organismo vivo por meio das vozes de dezenas de pessoas. O documentário foge à armadilha de explicar o evento para quem o vê pela primeira vez, assim como escapa ao didatismo de dados, datas e outras ferramentas pedagógicas. O filme se preocupa com as vivências estimuladas pelas exibições ou em consequências destas, o que inclui romances, inimizades, bebedeiras, prêmios aclamados e vaiados. O caráter oficial se dilui em meio às conversas amigáveis, como se os personagens estivessem sentados numa mesa de bar. Eles adotam a posição de admiradores, trazendo despojamento às falas e evitando a necessidade de revelarem uma “verdade” sobre as edições. Valorizam-se tanto os fatos quanto os mitos associados ao festival no imaginário popular. Meireles se dirige a um espectador amante de cinema, porém não especializado. Ele acredita na capacidade do interlocutor em compreender o funcionamento do cinema brasileiro sem sublinhar as principais obras, nem as evidentes dificuldades de realização. Percebe-se o cinema enquanto algo que vai além do conjunto de filmes, num olhar enriquecedor em contraste com a cinefilia colecionadora de redes sociais. A ideia do cinema e a memória afetiva se tornam tão importantes quanto os títulos em si.

Uma das principais ferramentas de legitimação da obra se encontra na quantidade e qualidade dos entrevistados. Quantos filmes reúnem Júlio Bressane, Neville d’Almeida, Luiz Carlos Barreto, Walter Carvalho, Sara Silveira, Anna Muylaert, Cláudio Assis, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Helena Ignez, José Eduardo Belmonte, Paulo Caldas, Adirley Queirós, Sílvio Tendler, Domingos Oliveira, Suzana Amaral, Tizuka Yamasaki, Jean-Claude Bernardet e outros? Esta riqueza se torna tão expressiva quanto retórica, afinal, eles sustentam o mesmo discurso. A edição aproxima as falas pelas semelhanças em tema e ponto de vista, resultando numa costura de mais de cinquenta depoimentos muito próximos sobre a importância do Festival de Brasília, as histórias memoráveis das festas, a resistência diante de pressões políticas, a relevância de ter seu filme selecionado e premiado. O material bruto talvez permitisse reforçar as discordâncias quanto a episódios marcantes. No entanto, o diretor privilegia a noção romântica de uma classe artística que se expressa em uníssono, sem graves divergências políticas ou de linguagem.

Por este motivo, a montagem se apressa em incluir a maior quantidade de pessoas possível. Cada fala ocupa poucos segundos em tela antes de ser substituída pela seguinte, encarregada de completar a anterior e sugerir consenso graças às repetições. Teria sido enriquecedor escutar estes personagens fascinantes desenvolverem suas falas (ainda que isso implicasse em sacrificar algumas entrevistas), sobretudo diante artistas tão articulados quanto Belmonte e Muylaert. Ora, o filme tem pressa em passar à questão seguinte, em incluir as relações com críticos, as vaias, os prêmios injustiçados, a censura dos militares, o cinema brasiliense etc. Não há tempo de se aprofundar: o roteiro prefere ser amplo a ser complexo. Assim, justificam-se as colagens de “melhores momentos” no início e na conclusão (mais apropriadas à reportagem televisiva do que ao cinema), além dos nomes dos personagens em design singelo, reproduzindo os letreiros do Cine Brasília, e da canção com os versos “Vou morrer de saudade”. Embora contorne o saudosismo excessivo, o filme tampouco busca a originalidade formal: o discurso se encontra à total disposição das falas e do material de arquivo. Trata-se de uma estrutura em talking heads bastante satisfeita consigo mesma.

Em contrapartida, o resultado se sobressai pelas digressões além do evento, ou apesar dele. Candango: Memórias do Festival traça uma evolução da cinefilia, desde o apego à fisicalidade do filme e das salas de cinema – a paixão pelo 16mm, a descrição dos aplausos, das poltronas, da projeção – até a relação difusa da contemporaneidade, quando cada indivíduo possui algum dispositivo móvel de gravação. A política brasileira se torna causa e consequência das sessões, permitindo ler o Festival de Brasília através das evoluções do país. Acompanha-se a ditadura militar, a reabertura democrática, a extinção da Embrafilme pelo governo Collor, a retomada – a história do Brasil se entrelaça à história do cinema. A articulação de som e imagem poderia ser mais ambiciosa, assim como os filmes valorizados pela montagem. Já a adequação conflituosa do festival ao governo Bolsonaro, incluindo o aparelhamento ideológico das estruturas culturais, também merecia um confronto mais corajoso: como lançar um projeto sobre o cinema brasileiro em 2019 sem levar em consideração o desmonte da cultura iniciado no ano anterior? Ressalvas à parte, Meireles consegue abraçar o cinema nacional enquanto elemento pulsante, em perpétua transformação.

Filme visto online no 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em dezembro de 2020.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
Crítico de cinema desde 2004, membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III. Passagem por veículos como AdoroCinema, Le Monde Diplomatique Brasil e Rua - Revista Universitária do Audiovisual. Professor de cursos sobre o audiovisual e autor de artigos sobre o cinema. Editor do Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deBruno Carmelo (Ver Tudo)

Grade crítica

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *