Body

Crítica


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Sinopse

Em Body, Janusz é um perito criminal muito competente. Porém, não sabe como lidar com Olga, sua filha, quando descobre que ela é anoréxica. Com medo de que ela possa se matar, envia a menina a uma clínica aos cuidados de Anna, uma terapeuta que acredita poder se comunicar com pessoas mortas. Comédia/Drama.

Crítica

Responsável por filmes como Em Nome De… (2013) e Elles (2011), a cineasta polonesa Malgorzata Szumowska apresenta pretensões mais ambiciosas neste novo trabalho, que lhe rendeu o prêmio de direção no Festival de Cannes – dividido com o romeno Radu Jude, por Aferim! (2015) – e que trata de diversos temas polêmicos e atuais, através de uma trama que alterna seu foco narrativo entre três personagens ligados um com o outro. Janusz (Janusz Gajos), um investigador de polícia viúvo, vive uma relação conturbada com sua filha, Olga (Justyna Suwala), que não consegue lidar com a morte da mãe e sofre de anorexia. Ao ser internada em uma clínica especializada, a garota fica sob os cuidados da terapeuta Anna (Maja Ostaszewska), cujos métodos misturam psicologia e misticismo, e que também possui seus traumas particulares.

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O citado misticismo de Anna é também o alicerce sob o qual se constrói o longa de Szumowska. Desde a insólita sequência inicial, quando Janusz visita a cena de um crime na qual a vítima – encontrada enforcada em uma árvore – é dada como morta e, segundos depois, se levanta para sair caminhando tranquilamente, fica claro que o fantástico faz parte do universo criado pela cineasta. No início, Szumowska chega até a flertar com o suspense sobrenatural, quando aparentemente o fantasma da esposa morta volta para assombrar Janusz em seu apartamento, mas logo este tom de mistério dá lugar ao humor negro, que será empregado até o final da projeção.

Este humor peculiar contrasta muito com os temas delicados que compõem os dramas específicos de cada um dos três protagonistas, o que acaba diluindo um pouco seu potencial, ainda que todos permaneçam interessantes e sirvam à proposta de apresentar diferentes abordagens sobre a relação com o corpo. A anorexia de Olga, por exemplo, surge como fruto de seu estado de luto, da fragilidade gerada pela dor da perda, e do sentimento de repulsa que guarda pelo pai, a quem, de certa forma, culpa pelo ocorrido. Diferente de outras pacientes de seu grupo de tratamento, que têm na paranoia em relação à aparência o gatilho para desenvolver tal transtorno.

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A contestação das regras e da noção de beleza impostas pela sociedade é tratada de forma direta nas sessões de terapia de Olga e de maneira mais sutil em outros momentos, como quando Janusz resolve levar a filha a “um lugar bonito” e escolhe as margens de um rio sem muitos atrativos, local de um antigo crime. Essa aparente insensibilidade é a marca principal do personagem, tão acostumado com os corpos mortos e imagens grotescas que parece incapaz de realmente se solidarizar com o drama da filha ou mesmo sofrer pela morte da esposa. A relação com seu próprio corpo – sempre comendo em demasia e abusando da pimenta – também sugere sua indiferença perante sua vida. Esta, porém, se mostra apenas uma camada superficial da personalidade do investigador, que sofre em silêncio, afundando-se na bebida e no trabalho, tal qual o corpo de sua falecida esposa afunda, literalmente, devido a uma inundação em sua sepultura.

Completando o trio temos Anna, provavelmente a mais complexa figura do longa. Traumatizada pela morte de um filho ainda bebê, a terapeuta encontra em suas pacientes uma forma de externar seu instinto materno, mas não consegue superar plenamente a dor. A tragédia cerca a vida da personagem, que arranca da parede o aviso sobre a morte de um garoto do prédio onde vive e, ao visitar sua mãe, age como se seu filho ainda estivesse vivo. A perda também influencia outras facetas de seu comportamento, como a sexualidade reprimida, exposta no modo recatado como se veste, na cena em que espia um jovem casal fazendo sexo e até na afeição por seu enorme cachorro, outro corpo inadequado no espaço do filme. Por fim, há a fé de Anna, a crença na mediunidade, e sua capacidade de psicografar cartas. Mais uma maneira encontrada pela personagem para fazer o bem aos outros, buscando a própria paz.

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Se Szumowska dirige esta teia narrativa com segurança, extraindo ótimas atuações do elenco e entregando um produto esteticamente bem concebido, por outro lado, o roteiro co-escrito pela cineasta por vezes se perde em meio aos inúmeros temas que procura expor. Aborto, violência, preconceito, igualdade de direitos femininos e outros tabus são citados, mas sem aprofundamento, interferindo no foco do longa. Felizmente, em sua sequência final, a diretora se redime ao fazer o melhor uso do humor que permeia sua obra. Ao confrontar o ceticismo de Janusz e a crença de Anna, proporciona um momento genuíno de cumplicidade entre Olga e o pai. A barreira da incomunicabilidade se desfaz com a sinceridade de um sorriso, enquanto o nascer do dia ilumina pela primeira vez o céu cinzento que dominara o cenário até então, simbolizando um novo começo para os personagens.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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CríticoNota
Leonardo Ribeiro
7
Chico Fireman
5
MÉDIA
6

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