Crítica


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Sinopse

Adam é um adolescente que precisa descobrir o mistério por trás do desaparecimento de seu pai. Para isto, ele se aventura numa floresta tentando localizá-lo. Quando o encontra, descobre que ele é ninguém mais, ninguém menos, do que o lendário Pé Grande, que tem se escondido na floresta há anos para proteger a si e sua família de uma grande corporação que quer fazer experimentos científicos com seu corpo.

Crítica

Não se mexe com uma lenda tão característica de modo irresponsável. E, quem assim o faz, deve ter consigo a certeza, também, que não sairá dessa de modo impune. Pois é o que vemos em Big Pai, Big Filho, mais uma animação genérica a chegar às telas nacionais enquanto grandes estúdios, como Disney e Dreamworks, seguem resguardando seus lançamentos para o período das férias de final de ano. E se o batismo nacional ao menos tenta disfarçar qual o verdadeiro tema deste projeto, o título original já entrega de imediato: The Son of Bigfoot, ou seja, O Filho do Pé Grande. O monstro que vive escondido da vista humana em meio à floresta aqui ganha ares de conspiração empresarial, envolvendo a indústria farmacêutica, problemas capilares e abandono de família. Assuntos potencialmente polêmicos, porém tratados sem nenhum tipo de amenizador, resultando em uma narrativa um tanto violenta para o público ao qual se dirige, sem, no entanto, conseguir almejar audiências mais preparadas.

Adam é um garoto problemático, vítima de bullying na escola e filho único de uma mãe solteira. Ou melhor, viúva, desde o desaparecimento – ou morte – do marido. Em um momento de muita tensão na escola, o menino começa a perceber algo estranho: primeiro, seus pés de uma hora para a outra crescem exageradamente, a ponto de rasgarem seus tênis. Depois, sente uma terrível dor de cabeça, quando todos os sons ao seu redor são inesperadamente amplificados. Já em casa, após ter sido vítima de uma brincadeira de colegas, se vê obrigado a cortar os desgrenhados cabelos para se livrar de gomas de chiclete. O susto no dia seguinte se dá quando percebe que sua aparência está a mesma, ou seja, da noite para o dia todos os fios voltaram a crescer. E quando descobre que o pai, do qual mal se lembra, não só está vivo como escondido em um lugar não muito longe de onde mora, decide ir atrás para entender não só o que está lhe acontecendo, mas também porque mentiram para ele durante todos estes anos.

A questão poderia ser tão simples quanto um conto de fadas – vítima de uma maldição de uma bruxa invejosa, por exemplo – mas, como já foi dito, não estamos diante de uma produção Disney. Em uma tentativa de aproximar o inexplicável a um contexto mais, digamos, crível, o que os diretores Jeremy Degruson e Ben Stassen (A Mansão Mágica, 2013) propõem é situar o enredo em um âmbito profissional. O pai do menino é, sim, o Pé Grande, mas essa questão é mero detalhe. O que importa é que ele sempre foi muito peludo, e desde pequeno se via obrigado a se depilar para manter uma aparência minimamente sociável. Porém, quando seu segredo foi descoberto, precisou fugir para não virar cobaia de um empresário que sonha com o elixir capilar perfeito, aquele que seria o sonho de todos os carecas, garantindo a cabeleira perfeita a qualquer um disposto – ou com condições – a pagar qualquer preço por isso.

Ou seja, a ideia do filme é: o pai se esconde para não ser preso e, com isso, prejudicar sua família. Mas o que ele tem de valioso, como se vê, são seus pelos e cabelos, e não o pé grande, a hiper-audição ou mesmo um toque mágico de cura que surge em momentos ex machina, como solução desesperada para passagens em que o roteiro não consegue, por si só, encontrar um desfecho mais palatável. A lenda do Pé Grande, portanto, é quase um acessório descartável. E ao invés de um tom cômico, como visto em Monstros S.A. (2001), ou mesmo central para o desenvolvimento da trama, como no oscarizado Um Hóspede do Barulho (1987), aqui sua presença é mais um chamariz para curiosos e menos um fator relevante, pois em nada acrescenta à sua mitologia, seja enquanto besta incompreendida ou como fera assustadora.

Mas o que de fato incomoda em Big Pai, Big Filho é a mão pesada dos diretores. Coprodução entre Bélgica e França, o longa definitivamente não demonstra maiores cuidados em preparar sua audiência ao expor situações mais espinhosas. Assim, nos deparamos com constantes ataques e agressões no ambiente escolar, um vilão que não mede barbaridades para conquistar seus objetivos – em uma sequência, ele tranca o protagonista, uma criança, em um carro e o joga contra uma mata em chamas, para que morra asfixiado – e animais sendo usados como utensílios de laboratório, de coelhos a bisões. É fato que alguns coadjuvantes, como o urso boa paz, o guaxinim invocado ou o pica-pau debochado são presenças curiosas, mas ainda assim pequenas diante de tantos equívocos. E como resultado, tem-se um filme não recomendado ao público ao qual se dirige, e muito menos para uma audiência adulta, simplesmente por não possuir elementos minimamente interessantes a esse tipo de plateia. Uma sucessão de desencontros que nem mesmo a excelência técnica é capaz de suplantar de modo eficiente.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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