Crítica


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Sinopse

Wladyslaw Strzeminski é um artista de vanguarda polonês que superou todas as dificuldades impostas pelas suas deficiências físicas - ele não possuía uma perna e um braço - e também o ódio, a indiferença e a crueldade. Tornou-se um dos artistas mais reverenciados do século vinte.

Crítica

Desde Geração (1955), o cinema de Andrzej Wajda se notabilizou pelo retrato de episódios emblemáticos da história polonesa. Em Afterimage, seu derradeiro trabalho – finalizado pouco antes de sua morte, em outubro de 2016, aos 90 anos – o diretor não foge a essa característica e, assim como no antecessor, Walesa (2013), apresenta uma obra biográfica envolta por acentuada carga política. Desta vez, a figura retratada por Wajda é a de um artista, o pintor vanguardista Wladyslaw Strzeminski (Boguslaw Linda), considerado pioneiro do construtivismo polonês das décadas de 1920/1930, tendo mantido contato e colaborado com nomes como Malevich, Mondrian, Chagall e Kandinsky. Aqui, trabalha com o período imediatamente posterior à Segunda Guerra e à ocupação alemã na Polônia – intervalo histórico onde se situavam diversos de seus longas mais aclamados: Kanal (1957), Cinzas e Diamantes (1958), Katyn (2007).

É em 1948 que primeiro encontramos Strzeminski – já reconhecido como um dos mais importantes artistas poloneses do século 20 e lecionando na Academia de Artes de Lodz, que o próprio ajudou a fundar – num momento de transição de seu país, que passava a ser comandado pelo regime stalinista. A implantação do novo governo soviético acaba afetando diretamente o universo artístico, com a proibição do abstracionismo e a imposição do Realismo Social propagandista como única forma de expressão “adequada às necessidades do povo” e, portanto, permitida. Fiel às suas convicções, Strzeminski se opõe frontalmente a tais determinações, posicionamento que o torna alvo de represálias, levando à sua gradativa destruição. Uma mutilação criativa que se mostra tão cruel quanto aquela física sofrida pelo pintor durante a Primeira Guerra – com a perda de um braço e de uma perna em combate.

Privado de seu ofício e paixão após ser demitido do cargo de professor, vendo suas obras recolhidas e proibidas de serem expostas – incluindo o fechamento da Sala Neoplástica do Museu de Lodz, por ele idealizada – ou ainda destruídas, e tendo sua carteira do sindicato dos artistas revogada, impedindo-o de ser registrado em qualquer emprego ou até mesmo de poder comprar tintas, Strzeminski sucumbe à miséria, à fome e à doença. Nessa jornada de esfacelamento, Wajda não poupa críticas, porém, mais do que se aprofundar em todos os meandros sociopolíticos da época, lhe interessa tratar especificamente da supressão da liberdade criativa e de suas consequências. Pois, ainda que tenha participado ativamente da Revolução de 1917, Strzeminski já se mostra cansado, mais passivo, não lutando ferozmente contra a ideologia do governo, mas, simplesmente, pelo direito de se expressar artisticamente.

A metamorfose imposta ao protagonista pela opressão transparece no jogo de contrastes concebido por Wajda: as cores vivas das telas, aos poucos, são engolidas pelos tons marrons e acinzentados que envolvem a arquitetura urbana de Lodz, o deleite da cena em que o artista rola pela grama de encontro aos alunos, em uma aula ao ar livre, se converte na melancolia do confinamento solitário em seu apartamento, os discursos apaixonados sobre suas teorias, que conquistam a admiração dos estudantes – levando-os a se arriscarem em encontros secretos fora da Academia com seu professor – sendo até mesmo capazes de incitar a paixão, como ocorre com a bela Hanna (Zofia Wichlacz), dando lugar a uma introspecção cada vez mais silenciosa.

A composição de Boguslaw Linda no papel principal é fundamental para o sucesso do filme, fazendo de Strzeminski a figura carismática que se espera, trafegando também por outros aspectos de sua personalidade, como uma aparente indiferença no que tange às relações pessoais. Seja na pronta rejeição à insinuação dos sentimentos de Hanna ou, especialmente, no trato com a jovem filha, Nika (a ótima Bronislawa Zamachowska), que passa por um processo precoce de amadurecimento em decorrência da recente morte da mãe, a escultora Katarzyna Kobro, e da situação debilitada do pai. A opção do diretor por não justificar esse comportamento muitas vezes duro de Strzeminski, que permite que Nika vá morar sozinha sem questionar tal decisão, por exemplo, ou por não explorar plenamente detalhes de seus relacionamentos, como o com a ex-esposa, da qual se afastara completamente, sendo, inclusive, proibido de comparecer ao funeral da mesma, gera certo distanciamento.

Todavia, mesmo sem mergulhar no potencial melodramático do material, Wajda consegue driblar a frieza e criar momentos singelos de emotividade, como a reação de Strzeminski ao receber a notícia da morte da ex-mulher ou ao tingir de azul, cor dos olhos de Kobro, as flores que coloca sobre o túmulo da escultora, naquele que talvez seja seu último ato genuinamente artístico, antes de passar a desenhar retratos de Stalin para sobreviver. Retratos como aquele do banner estendido sobre a fachada do prédio do artista no início do longa, em cena que o cineasta carrega de simbolismos ao fazer com que o vermelho do tecido invada o apartamento do pintor e cubra a tela em branco, numa representação não só de como a política envolveria sua vida, mas também de como dominaria a arte em geral. Sequências de beleza e poder imagético/metafórico como essa, ou como a da queda final de Strzeminski entre os membros sem vida dos manequins de uma vitrine, fazem com que, mesmo não isento de irregularidades, Afterimage seja uma obra testamental digna da trajetória de seu realizador.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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