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Sinopse
Em A Nossa Forma de Vida, na cauda da Europa, oito andares acima d'água, o casamento entre o eterno proletário Armando e a dona de casa Maria Fernanda sobrevive há 60 anos. Como parceiros do mesmo crime, a partilha das suas visões do mundo transforma o cotidiano de um país em decadência econômica numa breve comédia da vida. Estes guardiões do passado, deixam o mundo dos mass media inundar a sua torre de controle, desenhando um retrato no presente da experiência da classe trabalhadora portuguesa. Documentário.
Crítica
O tempo é um mistério. Em paráfrase a Fernando Pessoa, pensar sobre o tempo é contrariá-lo – aos poucos, que é para consagrar a ironia da existência.
No documentário A Nossa Forma de Vida, do diretor português Pedro Marques, acompanhamos a rotina de Armando e Maria, seus avós. O pronome possessivo do título não poderia ser mais esclarecedor. Nossa, aqui, marca aquilo que a câmera delimita, o que está preservado, o que é mostrado – aquilo que não é passível de julgamento. A vida é algo particular, único, na contramão do que os tempos insistem em nos convencer: de que participamos de tudo, de que dividimos os mesmos gostos, os mesmos medos, etc. A fabricação do ser humano. Armando e Maria representam as singularidades. Juntos, formam ainda algo outro, mais complexo, igualmente singular. Enclausurados no oitavo andar acima do rio Douro, o casal recebe e expressa o tempo. Expressões de uma época que ficou para trás, são a anacronia resiliente de um mundo tímido. Idosos restritos ao hoje; pois idosos, então se permitem outras experiências. Não é algo premeditado, tampouco a compensação divina. É a vida.
Em um dos momentos do filme, o cotidiano, distraído, sofre solavancos que não lhe pertencem. Ao perceber isso, Armando não tem dúvida de como agir. Com a expressão cerrada ordena: Fecha a porta, Maria, que eu perdi a esperança toda. Vamos comendo e bebendo. Quem quer ficar que se arranje, O tom, que bem poderia ser atribuído a qualquer dramaturgo do pós-guerra e confundido com uma lamentação depressiva ou pessimista, não passa de um desejo de normalidade. Retornar as águas que se conhece é confortável, independente das águas. O espírito português puro é a nostalgia de um fado; nas terras lusitanas, a esperança atende por Dom Sebastião.
Os comentários futebolísticos, a conversação sobre a qualidade de uma faca, as agruras políticas, etc. O mundo é feito de incontáveis fatos que se dão em incontáveis lugares, por inúmeras pessoas. Tudo isso é impossível de ser apreendido, ao mesmo que se seja múltiplo, onipresente. O que conta, porém, é que por trás dos acontecimentos está um número limitado de experiências. Cinco ou seis. Três ou quatro, talvez. Não se pode dizer, porque o avanço é a prova e a contraprova. A novidade é uma ilusão vendida a preço alto.
O filme de Pedro Marques procura construir aquilo que a literatura definiu como a poeticidade do cotidiano. O trivial não é um objeto desprezado e suprimido por ser inevitável; exatamente por ser inevitável, ganha valor e importância. É tudo que há.
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